Estado do Rio com hortas com plantas medicinais e prática da fitoterapia pelo SUS

Uma farmácia viva para cada Unidade Básica de Saúde (UBS). Esse é o objetivo do projeto que está nascendo entre as secretarias de Saúde, Educação, Agricultura e Social do estado do Rio de Janeiro. A cidade teste seria Paty dos Alferes, de 25 mil habitantes, de onde surgiu a ideia a partir de uma tese de mestrado da farmacêutica Amanda Valverde.

O trabalho, apresentado durante a 15ª edição do Prêmio de Incentivo em Ciência e Tecnologia para o SUS, recebeu a premiação de melhor dissertação em mestrado. Agora, pesquisadores do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos), da Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Secretaria de Saúde do município, estão trabalhando para escalar ainda mais o projeto.

Para quem não sabe, a fitoterapia tem por objetivo cuidar da própria saúde a partir das propriedades de plantas medicinais. É uma forma barata, que utiliza recursos naturais e abundantes, para cuidar da saúde (sem se entupir de remédios caros e muitas vezes perigosos, que a indústria farmacêutica tradicional nos oferece).

A ideia é que o estudo seja ampliado e estendido inicialmente a todas as unidades básicas de saúde da cidade, podendo, em seguida, abranger todo o estado. As mudas serão doadas pela Fiocruz, que elabora um curso de capacitação, em conjunto com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), voltado para os agentes comunitários de saúde, enfermeiros e médicos da região.

As plantas medicinais já eram de uso comum da comunidade para tratamento de problemas como diarreia, gripes e resfriados, entre outros.O projeto mostrou aos agentes comunitários de saúde, enfermeiros e médicos do SUS como utilizar essas espécies no dia a dia da unidade de saúde. De acordo com a farmacêutica, já chega a quase 90% os melhoramentos registrados na saúde dos membros da comunidade rural, com a disseminação do conhecimento.

“A comunidade rural faz uso de plantas medicinais no dia a dia. A Unidade Básica de Saúde local não tinha capacitação para trabalhar com planta medicinal”, explicou Amanda Valverde. Dados preliminares mostraram que 82% da população de Palmares faziam uso de plantas medicinais, dos quais 64% consumiam essas plantas na forma de chá.

Para Arlindo Lisboa, secretário de Saúde de Paty do Alferes, que também acumula a vice-prefeitura, a disposição da administração municipal é dar continuidade ao projeto, estendendo-o às oito demais unidades de atendimento básico à saúde da cidade. “Estamos abertos à parceria com o projeto”, afirmou.

Ao mesmo tempo em que conserva o conhecimento da população rural, a escolha das plantas passaria por uma certificação, uma avaliação científica. O pesquisador da Fiocruz, Glauco Villas Boas, disse que isso daria potencial para se colocar mais fitoterápicos no SUS e nas farmácias. “Tudo é economia, saúde, biodiversidade e tecnologia. Não ficaríamos tão dependente tecnológica e economicamente (da importação)”.

Villas Boas afirmou que iniciativas em curso no país trazem esperança, mobilizam médicos e secretarias de Saúde. Advertiu, porém, sobre políticas que garantam apoio. “São iniciativas que representam a resistência, a mobilização do conhecimento tradicional, o direito de opção dos brasileiros de tratarem com a terapia que desejarem”.