Uso compulsivo do Whatsapp: Nos tornaremos autistas?

domingo, 10 de maio de 2015   –   Foto: Campos 24 Horas
Andressa Amaral 1904Artigo
Andressa Amaral
Neuropsicopedagoga

Dentre inúmeras dificuldades, medos e incertezas que afligem o ser humano, existe uma situação que atinge a todos de uma forma singular: o luto Inefável é a dor que sentimos no momento em que perdemos pessoas que amamos para a inquestionável lei da vida.

Ocorre que o sentimento do luto por vezes manifesta-se em situações em que ainda tratamos de vida, mas acontece que em dadas situações esta dor é tão sublime que temos a sensação desta perda eterna.  E, dentre estas diversas experiências que nos trazem este sentimento, está, a sensação de uma mãe ao receber o diagnóstico de um filho autista.

Neste momento, há uma mistura de sentimentos que perpassam e suplantam quaisquer palavras… É a incerteza do amanhã aliada à sensação de impotencialidade, que se funde ao desespero, ao medo e a dor do preconceito e que todas estas emoções, juntas resultam em uma força maior: a de continuar a busca, e transformar de fato o significado da palavra luto, pela simbologia da vida, por uma única certeza: a de ser MÃE.

pietro 2Aproveitei a data oportuna, para prestar uma singela homenagem a todas as mães e em especial a estas figuras, sejam elas por herança biológica ou adquirida, que enfrentam esta busca diária com força, certeza de um coração azul e a real missão de serem mães de filhos autistas.

Junto a esta homenagem, estarei tratando em paralelo de um assunto muito sério e que tem atingido as famílias, os relacionamentos, as relações de trabalho e ao indivíduo enquanto um ser social: o uso desmedido do whatsapp, e as consequências psicossociais oriundas desta prática.

Enquanto inúmeras famílias, sofrem, choram, buscam superar seus lutos, por quaisquer que sejam as perdas, como mencionado acima, existe um número exacerbado de pessoas que tem buscado para si, uma condição de ausência de vida social, pessoas estas que deixam de realizar suas tarefas, que por vezes não conseguem mais estabelecer uma rotina diária, que se tornaram reféns absolutos de um meio tecnológico: o celular, através de uma compulsão incalculável pela prática do whatsapp.

Au-WABwogJv4cVC5dSYNI5GFWBnOFSeU0JSmyYmiW1PGOcorre que esta prática, quando deixa de ser um hábito e passa a ser um vício, é algo muito sério, pois acaba gerando ao ser humano, uma condição de dependência. Hoje, esta submissão social ao celular, já não tem mais idade, vemos crianças, adolescentes e adultos, que passam horas, por vezes sem se alimentar, sem conversar, pelo simples prazer de estarem no celular, teclando em whatsapp.

Porém, uma das mais graves consequências desta prática, é um fator que nos remonta a uma variante de significado: o isolamento social.  Enquanto inúmeras mães de crianças autistas, buscam, a cada dia, com toda garra, diminuírem esta imposição genética do diagnóstico de autismo, em cujo isolamento social é, dentre várias, a maior barreira, inúmeros seres humanos escolhem como prática de vida esta condição: a de viverem isolados, alheios ao convívio social, abrindo mão de prazeres tão ínfimos, como o precioso valor de um olhar, a grandiosidade de um sorriso, o privilégio de uma palavra, um manifestar de sentimentos, por um mundo, vazio, singular, imposto pela tecnologia.  Ou seja, estamos vivendo uma geração que impõe lutos sociais a si e a seus familiares,  de pessoas alheias ao mundo, que não mais se comunicam verbalmente em detrimento de um teclado.

Com isso, somos levados a seguinte reflexão: Será que teremos daqui a algum tempo uma nova categoria de autistas? Os autistas construídos socialmente?  What? Sapp? O que? S (seremos) A (autistas) P (pela) Paixão?

AhKYSYm1LZ8_gjAsNuM43I8fjYATEHPQTKhYR-AnG3aqÉ muito importante que todos, pensemos acerca desta questão.  Será que nós, seres sociais, que temos a comunicação como um privilégio e premissa de existência estamos nos impondo um luto social, um diagnóstico simbólico de autistas?

Já basta a dor de uma mãe que vive de uma forma singular seu luto, ao receber um diagnóstico, este imposto pela lei da vida, de um filho autista, onde toda uma história de vida muda a partir deste momento, pois são estas “mães”, e falo entre aspas porque existem pais que exercem esta função, que transformam este suposto “luto”, em “luta” e que fazem de uma única letra, toda uma história de amor, carinho, dedicação, de busca contra o preconceito que estas crianças são obrigadas a passar, pela discriminação de pessoas de ignoram este olhar singular, por autoridades que simplesmente se isolam do problema.

AnE4F4jQB-_AXsiWFXDnobH8HoPLLo8fAmw8srXP2EabPor isso, deixo a reflexão a todos os pais e indivíduos que escolhem viver este luto ou que o impõem a seus filhos, ao proporcionar a eles horas a fio em seus quartos, usando celulares, para suplantarem as ausências afetivas, que busquem um novo olhar, que troquem a solidão pelo convívio, que façam do tempo que estiverem ao lado de seus filhos, momentos únicos de convivência e não  de solidão, para que não tenhamos num futuro indefinido, autistas construídos por nós mesmos.

Parabéns a todas vocês, mães singulares!!! Família Azul!! Parabéns Marcela, Sandro,  e a todas vocês, mães únicas, por terem transformado a palavra luto em luta, em vida, em amor…

Em caso de dúvidas e sugestões, eu e minha equipe estaremos à disposição para responder a todos, através do email: [email protected].

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