Campos 24 Horas – Quais sintomas pode levar uma mãe a possibilidade de um filho autista?
Dra Cinthya Fernandes – Crianças que apresentam prejuízo na interação social e na comunicação em múltiplos contextos, além da presença de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesse ou atividades podem estar dentro do contexto do espectro autista. Os pais devem ficar atentos aqueles bebês muito quietinhos, parados que demonstram um desinteresse pelo mundo exterior e não compartilham as suas descobertas. Quase não sorriem. Não requisitam os cuidados dos pais quando estão com fome, sede ou para a higiene. Não demonstram angústia de separação ao serem deixadas em locais estranhos ou com pessoas desconhecidas. Crianças que fazem pouco contato visual, principalmente com a mãe durante o período de amamentação. Crianças que tem a preferência por brincar sozinha, estão sempre isoladas, não buscam a interação com outras crianças. Mas devemos sempre lembrar que cada criança é diferente da outra e a presença de um desses sintomas isoladamente não quer dizer que a criança é autista ou está no espectro autista.
C24H – Com qual idade já podemos observar os primeiros sintomas? E após isso como a mãe deve proceder?
Dra Cinthya – O TEA é uma condição que tem início precoce. As primeiras manifestações podem estar presentes antes mesmo dos 12 meses de idade. Logo assim a suspeita do diagnóstico, os pais devem procurar acompanhamento com um profissional médico de preferência um neurologista pediátrico para uma avaliação e elucidação do diagnóstico e início precoce do tratamento.
C24H – Qual a importância do diagnóstico precoce? E como é feito esse diagnóstico?
Dra Cinthya: A grande importância do diagnóstico precoce é baseado nas evidencias acumuladas ao longo dos anos que mostram que quanto mais cedo a criança com TEA iniciar o tratamento, melhor será o prognóstico com cerca de 15% desses indivíduos serem capazes de ter uma vida próxima do normal, de maneira autossuficientee outras 15-20% com funcionalidade razoável com terapias de suporte. Essa discrepância nos resultado mostra que a resposta às terapias é individualizada para cada paciente e cria um dilema: o que funciona pra quem e por quê?
O diagnóstico é baseado nas características clínicas apresentadas pelo paciente. Não há exame específico que diagnostique o TEA.
C24H – Após o diagnóstico, como será o tratamento?
Dra Cinthya: Basicamente o tratamento consiste na intervenção de uma equipe multidisciplinar formada por profissionais como neuropediatra, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psicólogo, psicopedagogo e fisioterapeuta. A participação dos pais e familiares é considerada um elemento fundamental para o sucesso do tratamento.
O tratamento farmacológico é empregado como terapia adjuvante para controlar sintomas-alvos associados que possam vir a estar presentes ao longo da vida, alguns deles são insônia, agitação psicomotora, impulsividade, irritabilidade, agressividade, desatenção, comportamentos estereotipados, tiques, entre outros.
C24H – Em relação à escola, em que momento a criança deve iniciar a vida escolar?
Dra Cinthya: A criança autista deve ser inserida no contexto integral da escola como qualquer outra criança sendo necessário uma integração e parceria entre os pais, a escola e os profissionais envolvidos. É muito importante a presença do mediador escolar para auxiliá-lo na interação com os professores e os demais alunos, para que compreenda as questões pedagógicas e se desenvolva de acordo com as suas particularidades e o seu ritmo de aprendizado.
C24H – Como geralmente os pais recebem o diagnóstico de autismo?
Dra Cinthya: Na maioria das vezes é muito doloroso para os pais receber esse diagnóstico. Mas aceitar que seu filho é diferente é o primeiro passo para ajudá-lo. Os pais devem sempre se esforçar para identificar as potencialidades de seu filho e encorajá-lo a enfrentar desafios como qualquer outra criança, assim eles podem evoluir nas áreas cognitiva, afetiva, social e motora.
C24H – Autismo é genético?
Dra Cinthya : Ao contrário de outras doenças nas quais o mecanismo causal pode ser bem definido, a causa precisa do TEA ainda é um mistério. Trata-se de uma doença multifatorial, mas com influência genética importante. Há diversas alterações genéticas que têm o TEA como parte da sua expressão, como a Síndrome de X-frágil, Síndrome de Rett, entre outras. Entretanto causas genéticas conhecidas representam cerca de 10% dos casos de TEA. O modo pelo qual a predisposição genética interage com os fatores ambientais, de forma a causar o transtorno, é a grande questão a ser respondida.
C24H – Já se fala que os pacientes que estão no espectro tem condições de saírem desse quadro, como isso funciona?
Dra Cinthya : Como falado anteriormente quanto mais precocemente a criança for estimulada maiores são as chances dela adquirir novas habilidades que não foram arquitetadas anteriormente por algum motivo e que serão necessárias para o processo de aprendizagem. Isso se chama plasticidade neuronal, ou seja, os neurônios adquirem a capacidade de se reorganizarem e se reconstituírem. Assim a criança pode chegar a ser capaz de levar uma vida bem próxima do normal.
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