Quadrilha de roubo de cargas investiu R$4,5 milhões em armas para invadir a Rocinha

Uso de uniformes policiais, bloqueadores de sinal GPS e batedores para prevenir abordagens policiais. Com um esquema muito bem estruturado, a Polícia Civil e o Ministério Público estadual (MPRJ) conseguiram desmantelar uma quadrilha de traficantes especializada em roubos de carga, nesta quarta-feira. O titular da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas (DRFC), Delmir Gouvea, destacou ainda a participação de funcionários nos crimes: três vigilantes e um motorista presos.

— A presença desses funcionários era um diferencial. Eles forneciam a rota dos caminhões, o tipo de carga e o melhor momento para os criminosos abordarem os veículos, facilitando toda a ação. As empresas também foram vítimas, já que não tinha conhecimento da participação. E a investigação não terminou aqui. Nós temos indícios da participação de outros funcionários de outras empresas.

Além dos 23 presos nesta manhã, a ação visa a deter outros 14 suspeitos, sendo duas dessas prisões previstas ainda para esta quarta, totalizando 37 mandados. O delegado afirmou ainda que, nos últimos meses, a quadrilha investiu um total de R$ 4,5 milhões na compra de 38 fuzis, 68 pistolas, cerca de 38 mil munições e 500 carregadores. Segundo a investigação, parte desse armamento seria usado em uma nova tentativa de invasão à Rocinha.

 

A quadrilha investiu um total de R$ 4,5 milhões na compra de 38 fuzis, 68 pistolas, cerca de 38 mil munições e 500 carregadores Foto: Fabiano Rocha / O Globo
— Identificamos essa intenção em áudios interceptados entre o traficante Bruxo e comparsas, onde falam claramente em investir na comunidade da Zona Sul, hoje comandada por uma facção rival a deles, numa tentativa de retomar o território. A descoberta de toda a contabilidade desse material bélico refere-se às comunidades da Vila Kennedy e da Vila Aliança, que entrariam nesse confronto pela Rocinha.

Segundo a denúncia, os roubos de carga servem para financiar o tráfico de drogas. Com armas de guerra, como fuzis e granadas, eles se beneficiam do controle territorial de comunidades para fazer o transbordo das mercadorias e a revenda dos produtos. Também recebiam apoio bélico e financeiro de facções criminosas do Rio e São Paulo. O promotor de justiça Alexandre Themístocles apontou uma ligação entre diferentes tipos de crime.

— No Rio, todas as facções praticam roubo de cargas. Hoje, não se pode dissociar quadrilhas de roubos de cargas com grupos armados que praticam o tráfico nas favelas. Para o transbordo das mercadorias, eles precisam de uma área controlada pelo tráfico. O roubo de carga, comandado pelo tráfico, é a mais importante fonte de financiamento para o fortalecimento dos grupos criminosos.

O grupo consolidou-se na Cidade Alta, na Zona Norte, mas atuava em associação com traficantes de outras áreas, entre elas as comunidades do Muquiço e da Quitanda, em Marechal Hermes e no Complexo da Pedreira, respectivamente, ambos na Zona Norte; a Vila Aliança, em Bangu, na Zona Oeste; o Complexo da Maré, na Zona Norte; e ainda em áreas de São Gonçalo e até da Região dos Lagos.

Entre os 37 denunciados há chefes do tráfico, assaltantes, seguranças privados, motoristas e batedores. A denúncia é resultado de dez meses de investigação conduzida em parceria pela DRFC e a 6ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal do MP. Os acusados responderão na Justiça pelos crimes de associação para o tráfico e também financiamento do tráfico por meio dos roubos de carga, pena entre oito e 20 anos de prisão.

Segundo o delegado Gouvea, o inquérito será desmembrado em novas ações.

— A investigação começou com o roubo de cargas. Mas hoje, com a confirmação da compra dessas armas, vamos iniciar uma nova apuração para descobrir quem fornece e de onde vêm as armas. Não sabemos onde elas estão — afirmou ele.

Entre os 23 presos nesta quarta-feira, está o traficante conhecido como CBC, que comandava assaltos a comércios e articulou uma ação violenta, em janeiro deste ano, a um depósito de bebidas em Realengo, na Zona Oeste, que terminou com a morte do proprietário e de um assaltante, além de outra pessoa ferida.

Fonte: Extra