Embora o brasileiro esteja acostumado a ouvir falar em alta do dólar, nem todo mundo entende o porquê de a variação da moeda americana implicar tanto no mercado doméstico. Entenda
Alta do dólar é uma expressão corriqueira na vida do brasileiro que acompanha o noticiário desde 1994, ano em que o real foi criado.
Durante o caos sanitário, político e econômico que vivemos em função da covid-19, a moeda americana não para de subir, não saindo da casa dos R$ 5 desde que tudo começou.
Mas o que isso significa? Qual o impacto prático na vida do cidadão comum dessa movimentação do dólar?
Primeiro é preciso entender o que determina essa alta. Assim como qualquer outro valor, o do dólar é fixado de acordo com a lei da oferta e da procura. Ou seja, quanto mais gente procurando, maior será o preço, logo, o preço cairá quando houver menos gente procurando.
Considerando o cenário atual, com o mercado financeiro instável, o sobe e desce constante das ações da Bolsa de Valores, o dólar se torna uma espécie de “tesouro do pirata”, cobiçado por todos.
O motivo é que a moeda americana é estável, ou seja, não está sujeita a variações importantes. Portanto, considerado um ativo bem mais seguro do que os papeis de qualquer empresa.
Ele é a rota de fuga da maioria dos investidores em momentos de instabilidade como o que estamos vivendo.
Como o Brasil enfrenta constantes crises econômicas e políticas, está no lado oposto dessa corda. Qualquer movimento nessas áreas provoca reações dos investidores, aumentando o chamado Risco Brasil, que mede a confiabilidade dos investidores estrangeiros no país.
A covid-19, por exemplo, desencadeou uma nova crise política no país com membros do governo federal enfrentando uma queda de braço que influencia diretamente na condução do enfrentamento da pandemia.
Esse clima de tensão levou a uma fuga de capitais, ou seja, a retirada de dólares do país. E isso agravou os efeitos da alta do dólar, contribuindo ainda mais para a apreciação da moeda norte-americano em solo tupiniquim.
Além disso, contamos com uma instabilidade econômica que se arrasta desde a crise de 2014, sendo agravada pela disseminação do novo coronavírus. O baixo crescimento do país, que teve Produto Interno Bruto (PIB) de apenas 1,1% em 2019 também contribui para a alta do dólar.
Aliado a isso, o Brasil enfrenta ainda uma mínima histórica de juros – com a taxa Selic chegando a 3% este mês – e as constantes mudanças no cenário político puxando a alta do dólar.
Externamente, mais fatos justificam o fortalecimento da moeda americana. O principal deles é a guerra comercial entre EUA e China que disputam o posto de maior economia mundial.
Além desses, podem ser citados ainda os impactos da pandemia nas economias do mundo todo, o fortalecimento da economia norte-americana e a instabilidade política da América Latina como determinantes para a valorização da moeda.
Sem esquecer, é claro, a queda do preço das commodities (matérias-primas), primeiro setor impactado pela explosão do contágio na China.
Impactos diretos
É importante lembrar que boa parte de tudo o que o brasileiro consome vem de fora. A começar pelo pãozinho francês de cada dia, que depende do trigo importado e sofreu com a alta.
E, obviamente, esse custo extra é repassado ao consumidor, pois se o dono da padaria não embutir os custos de produção do pãozinho no preço final, a saúde financeira de sua empresa pode correr risco.
Esse é apenas um exemplo simples, mas muitos outros itens de consumo diário no Brasil sofrem impacto com a alta do dólar.
Um dos primeiros setores a sentir o impacto negativo da alta do dólar foi o setor de turismo, que viu esvaziarem as reservas para viagens a passeio e trabalho desde o começo de 2020.
A debandada não é difícil de ser explicada, já que a própria passagem aérea é fixada de acordo com o desempenho da moeda americana. Além disso, o consumo de todo tipo no exterior fica mais caro, afugentando os turistas.
Em outros tempos a notícia poderia ser boa, pois, dólar em alta significa real em queda, o que poderia ser atrativo para o turista estrangeiro. No entanto, com as medidas restritivas necessárias à contenção da covid-19, conhecer as praias do nordeste não é opção para ninguém.
Além desses, serviços (como a conta de luz), eletrônicos e até vestuário podem ter os preços influenciados por essa movimentação que mantém o dólar hoje em mais de R$ 5.
Tributos
As empresas brasileiras sujeitas ao câmbio também já sentem o efeito da valorização abrupta da moeda americana. Isso porque a apuração de alguns impostos obrigatórios considera a variação cambial, o que pode gerar fortes prejuízos para os empresários.
O Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e a Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL) são exemplos disso. Ambos podem levar a um esvaziamento de caixa para pagamento de tributos de forma desnecessária, a depender do regime de tributação escolhido em janeiro.
Em condições normais, não poderia ser alterada, porém, a lei garante essa opção no caso de elevada variação cambial em um mês-calendário.
Apenas em março, a variação do dólar chegou a 10 pontos percentuais, acima do patamar estipulado pela lei. Portanto, as empresas poderão fazer a alteração e minimizar os efeitos das oscilações em suas operações.