No mês do autismo, dúvidas e esclarecimentos com especialista

A palavra de ordem nos dias atuais é inclusão e, neste caso, principalmente quando se fala em pessoas portadoras de necessidades especiais. No início do mês se comemorou o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Mas, a reboque, existem ainda outras patologias que se confundem com o autisto, incluindo a hiperatividade, entre outros. Para falar sobre diagnóstico, tratamento ou possível cura, o Campos24Horas convidou a especialista, Andressa Amaral, que é neuropsicopedagoga.

Campos 24 Horas – No início deste mês se comemorou o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Problemas no desenvolvimento da linguagem, nos processos de comunicação, na interação e comportamento social da criança podem ser observados neste caso. Como trabalhar isso?

Dra Andressa Amaral – Essas questões, após identificação, devem ser trabalhadas nas terapias, que variam de acordo com o perfil de cada criança no espectro autista.

C24H – O autismo tem cura?

AA – Ao invés de se falar em cura, o que se busca é a migração do quadro.  Hoje temos graus de autismo, que vai do leve ao severo de acordo com os comprometimentos do paciente.  Com o tratamento direcionado de forma correta, o processo terapêutico indicado, em muitos casos, se consegue migrar ao grau mais leve do espectro, e o paciente consegue levar uma vida muito próxima do normal.  Às vezes, conservando características mínimas do TEA – Transtorno do Espectro Autista.

C24H- A partir do diagnóstico, com que idade a criança pode começar a ser trabalhada para que viva de forma plena seu codiano?

AA Quanto mais cedo o diagnóstico e o início do tratamento melhores as perspectivas de evolução do paciente.  Há crianças com um ano que já iniciam o tratamento.

C24H – Muitas outras patologias se confundem com autismo, como TDAH, entre outras. Quais outras doenças podemos citar?

AA – Na verdade, não se confundem, mas às vezes, estes sintomas aparecem em conjunto ao quadro de autismo.  A grande questão é entender quais são estas comorbidades, como por exemplo, é comum crianças autistas terem em comorbidade déficit de atenção (TDAH), retardo mental, atraso no desenvolvimento neuropsicomotor e outros. Há também o DEL – distúrbio específico de linguagem, que é uma inabilidade no processo de desenvolvimento da fala que em muitas situações está bem próximo das características de autismo. Para isso é preciso avaliação específica com o diagnóstico diferencial.

C24H – Hiperatividade, por exemplo. Como diagnosticar e tratar?

AA – A identificação da hiperatividade, geralmente se dá no ambiente familiar e escolar, são crianças que não param quietas, trocam sempre de atividades, correm de um lado para o outro, muitas vezes não possuem noção de espaço e perigo.  O diagnóstico é clínico, com profissional especialista e o tratamento varia de caso a caso, podendo ser somente terapêutico ou ainda medicamentoso, dependendo do quadro.  Mas isso depende de avaliação profissional.

C24 Em meio a todo avanço da medicina, não existe mais criança não incluída na sociedade por causa dessas patologias. Verdade?

AA – Falar de inclusão é sempre polêmico.  Hoje se fala em inclusão, há uma grande luta acerca desta questão.  O grande problema é que infelizmente ainda não temos políticas públicas que viabilizem projetos onde se capacite profissionais e se forneça subsideos para que os educadores possam de fato trabalhar uma inclusão onde o diferente seja visto nas suas diferenças.  Porém, não é uma realidade ainda em nosso país.  Hoje vimos muito uma busca individualizada de profissionais educadores que por amor à sua profissão investem parte de seus salários numa busca ínfima por conhecimento na tentativa angustiante de ajudar a essas crianças.  Penso que ainda estamos longe de uma inclusão nos moldes que estas crianças realmente necessitam, com profissionais capacitados, ambientes adaptados e planos de trabalho individualizados no que tange ao processo curricular destas crianças.

C24H – A inclusão social deve começar dentro de casa, passar pela escola e por profissionais especializados. Necessariamente seria nesta ordem?

AA- Quando falamos em inclusão não há ordem, hierarquia, há trabalho em equipe.  Mas diria que estamos transferindo para as escolas, profissionais e familiares, um papel que é do Estado-Governo, que infelizmente é omisso, mascarado e ineficaz para investir em educação especializada de fato.

C24H– Não basta um só profissional para estimular uma criança com qualquer dessas patologias? É preciso o acompanhamento de equipe multidisciplinar?

AA – Sem dúvidas.  O acompanhamento é multidisciplinar.  Sempre menciono que nesta busca no universo das necessidades especiais, todos somos participantes do processo, contudo menciono sempre que a eficácia deste processo, parte por estarmos munidos de um mesmo ideal e crença, que é a do: vamos vencer,  alicerçados pelo amor como nosso condutor, e aí em complemento a isso, o estímulo constante e participação familiar, o bom acompanhamento e tratamento terapêutico, o trabalho multidisciplinar com profissionais que agregam ao tratamento e a participação da escola, certamente serão indicadores de sucesso.