A pandemia do coronavírus que assola o mundo também causa efeitos devastadores na economia global e já contabiliza seus estragos em Campos, com previsão da perda de milhares de postos de trabalho em função de empresários e comerciantes que já vêm de um período de vendas fracas e não têm caixa para manter impostos, aluguel de ponto e salários com os empreendimentos fechados. Os governos estadual e municipal se veem obrigados a manter as medidas de isolamento social para que não ocorra uma contaminação em massa. Por conta desse cenário, o Campos 24 Horas inicia uma série de publicações, com análises e projeções sobre a economia local e regional. Neste sábado (18/04), os economistas Ranulfo Vidigal e Alcimar Chagas Ribeiro analisam o impacto do coronavírus. Um deles analisa como provável a perda de cerca de 60 mil empregos no auge da crise, que atinge principalmente o comércio e o setor de serviços. Um quadro assustador, que fica ainda mais preocupante com a crise na indústria do petrolífera, que antes do Covid-19 já tinha sido impactada pela queda no preço do barril do petróleo, e agora paralisa as atividades de seis plataformas na Bacia de Campos. (leia abaixo as análises e previsões dos economistas)
“Minha estimativa conservadora é que o desemprego aqui atinja rapidamente 60 mil trabalhadores gerando incremento da pobreza extrema e da indigência (falta de recursos para garantir alimentos). Temos que admitir que o que caracteriza a economia de Campos não são as grandes empresas, mas o conjunto das pequenas e microempresas. Estas são as que mais estão sofrendo com a crise. Há sérias dúvidas se muitas delas irão reabrir suas portas por falta de capital de giro ou reservas suficientes para se manterem de pé durante todo esse tempo. É uma situação muito preocupante com graves impactos econômicos e sociais”, disse Ranulfo. Em Campos, antes da crise da pandemia, havia cerca de 120 mil trabalhadores formais.
O economista alerta ainda para a paralisação de seis plataformas da Petrobras na Bacia de Campos, que irão gerar menos 300 mil barris por dia. “A parada dessas seis plataformas vai gerar também sérios reflexos. Como o petróleo e sua produção geram bons salários e renda petrolífera, isso terá um impacto fulminante para os municípios petrorrentistas do Norte Fluminense. Vai mexer também com a vida de mais de 3 mil profissionais que atuam no setor, incluindo demissões”.
Outros impactos sociais devem atingir os trabalhadores informais. “Essa gente trabalhadora depende da circulação de pessoas nas ruas para venderem seus produtos. Gente que vende pano, amendoim ou balas nos semáforos. Gente que vende o seu churrasquinho, a sua cerveja gelada, depende de gente nas ruas para sobreviver. E agora, como fica? E as empregadas domésticas? Os recursos que chegam do auxilio emergencial não serão suficientes. Se o governo não entrar com um programa de cestas básicas para atender esse pessoal, minha previsão é a de um caos social terrível”.
SETORES MAIS ATINGIDOS – Ranulfo lembrou também que o trabalho é o que move a economia. “Se o trabalhador se vê forçado, por quaisquer razões a se manter em casa, as empresas não produzem, não vendem, não faturam e se arriscam a um período quase falimentar. Resumo da ópera é o trabalho que move a engrenagem da economia, já diziam Adam Smith, David Ricardo e tantos outros autores clássicos desde os primórdios”.
Além do setor de serviços, entre os setores que mais têm sido atingidos estão o de bares, restaurantes, pizzarias, hotelaria, lojas de confecções e presentes, agências de viagens, cultura e shows..
Se os proprietários de estabelecimentos estão com dificuldades de pagar as contas, os empregados estão ainda mais receosos. Com o comércio praticamente parado, há o temor de demissões. As vendas pela internet foi o que salvou uma loja no centro, Mesmo assim, a funcionária Telma de Assis, de 54 anos, teme pelo pior, ainda mais pelo fato de seu marido ter sido demitido de uma oficina mecânica. Com esse temor, ela defende a volta do comércio, mesmo com a orientação das autoridades da área da Saúde de que não é recomendável afrouxar o isolamento social neste momento. “Eu não posso entrar nesta estatística do desemprego. Acho que é preciso voltar tudo ao normal com medidas de proteção para todos. Se eu for demitida, vai ficar muito difícil para minha família”, disse.
FRAGILIDADE – Outro economista, Alcimar Chagas Ribeiro analisou a excessiva dependência do Estado e os municípios da indústria extrativa do petróleo e também lembra que a crise já vinha antes da pandemia se alastrar até chegar entre nós.
“O estado do Rio é o que mais vai sofrer com essa crise, porque já vinha sofrendo uma grave crise antes da pandemia. Em todos os segmentos produtivos, os números são sofríveis. Mesmo a indústria automobilística e a de medicamentos que ensaiavam uma recuperação, tiveram fraco desempenho no ano passado. O mesmo ocorre com a indústria do petróleo, que também antes do Covid-19 já tinha sofrido uma queda brutal na cotação com o embate entre a Rússia e a Arábia Saudita, que jogou o preço do barril lá embaixo. Depois, veio a pandemia. Então, a situação ficou ainda mais delicada porque a crise não é localizada, atinge toda economia mundial”.
No plano regional, Alcimar avalia que a incapacidade e a ineficiência do setor público tem contribuído para agravar a situação. Segundo ele, não há políticas de sustentabilidade econômica fora dos repasses setor extrativista do petróleo.
“Os municípios não tem demonstrado competência para intervir, nem numa situação de crise ou fora dela. São João da Barra, por exemplo, tem se dado ao luxo de guardar dinheiro porque não tem projeto. Há uma reserva de R$ 100 milhões, que num município pequeno seria suficiente para criar programas que proporcionassem melhores condições de vida para a população. Haveria necessidade das cidades da região importar alimentos do Espírito Santo ou de Minas Gerais?” De forma nenhuma. Pergunte se as cidades têm um cadastro de ambulantes ou famílias vivendo em condições inadequadas”, finaliza o economista.
Uma coisa é certa: diante da gravidade da situação, empresários, comerciantes e os governos terão de fazer grandes esforços para superar as perdas e permitir o soerguimento das atividades pós-pandemia.