Estudante que atirou em colegas em Goiânia reagia de forma agressiva a brincadeiras

Uma adolescente de 14 anos, que estuda na mesma turma em que um estudante matou dois colegas a tiros e feriu quatro no Colégio Goyases, em Goiânia, prestou depoimento à Polícia Civil na manhã desta quarta-feira (1º). De acordo com a delegada Tereza Daniela Nunes, a testemunha relatou que o menor sempre reagia de maneira agressiva a brincadeiras e comentários ofensivos.

“Ela confirmou que existiam essas brincadeiras e que ele [estudante] reagia de maneira violenta, agressiva, mas nunca fisicamente. Segundo a colega, ele sempre demonstrava não gostar dos comentários”, contou a delegada ao G1.

A testemunha, que não ficou ferida no ataque, mas sentava na mesma fileira que o atirador, chegou à Delegacia de Apuração de Atos Infracionais (Depai) por volta das 8h40. Acompanhada dos pais, ela não quis falar com a imprensa. Na saída, por volta das 9h40, a família continuou em silêncio.

O crime aconteceu no fim da manhã do dia 20 de outubro, em uma sala de aula do 8º ano do Colégio Goyases, no Conjunto Riviera, em Goiânia. Os tiros foram disparados por um aluno da classe, de 14 anos, que pegou a pistola .40 da mãe, que é policial militar. O autor dos disparos foi apreendido e segue em um centro de internação.

Os alunos João Pedro Calembo e João Vitor Gomes, ambos de 13 anos, morreram ainda no colégio. Quatro estudantes também ficaram feridos. Marcela Macedo e Isadora Morais, seguem internadas no Hospital de Urgências de Goiânia. Segundo o boletim médico divulgado às 8h30 desta quarta-feira, a primeira paciente está consciente e respira espontaneamente.

Já Isadora permanece internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) orientada, consciente, respirando de forma espontânea e com auxílio de oxigênio. Os médicos constataram que Isadora ficou paraplégica após a vértebra ser atingida. Lara Fleury e Hyago Marques, ambos de 14 anos, receberam alta e já retornaram às aulas.

Investigação

Segundo o delegado Luiz Gonzaga Júnior, responsável pelo caso, o autor dos tiros disse que sofria bullyng de um colega e, inspirado em massacres como o de Columbine, nos Estados Unidos, e de Realengo, no Rio de Janeiro, decidiu cometer o crime.

O adolescente foi ouvido pelo Juizado da Infância e Juventude na manhã da sexta-feira (27). Ao lado dos pais, que também prestaram depoimento, ele disse que está arrependido pelo crime, segundo informou a advogada da família.

A mãe do menor que atirou nos colegas prestou depoimento na segunda-feira (30) e, segundo a defesa da policial, explicou aos investigadores que mantinha a arma e a munição guardadas em locais diferentes.

“Não houve negligência, a arma ficava sempre em local seguro e não de fácil acesso”, disse a advogada.

A sargento estava acompanhada do marido, que também é policial militar, e da advogada. Após sair da sala do escrivão, a mãe não atendeu à imprensa. A advogada explicou que a cliente ainda está muito abalada.

“Ela disse que também não tinha conhecimento sobre bullying, assim como os professores. Que ele era um menino carinhoso e isso tudo foi um choque para a família”, afirmou Rosângela.

De acordo com a defesa, o Ministério Público de Goiás (MP-GO) pediu a avaliação psicológica do estudante, que foi determinada pela Justiça.

A advogada crê que só ao final da investigação será possível entender o que ocorreu. “Acredito que com a perícia, com as oitivas das testemunhas, do juizado das próximas semanas, talvez nós tenhamos alguma explicação. Porque uma tragédia dessa envergadura não se explica. Imagino que sirva para que isso não se repita”.

O pai do menino, que também é policial militar, já prestou depoimento. Na ocasião, ele também afirmou que não sabia que o filho era vítima de bullying – fato que teria motivado o ato.

Na terça-feira (31), os pais do aluno João Pedro Calembo, de 13 anos, prestaram depoimento na Depai. Ao chegar, a mãe dele, Barbara Melo, disse que pretende “recuperar a imagem do filho”, apontado pelo menor que atirou como o autor de bullying na sala de aula.

“A gente só quer recuperar a imagem de nosso filho, porque não está certo isso que está acontecendo”, disse.

Corregedoria

A mãe do atirador também é investigada em um inquérito na Polícia Militar. Segundo o assessor de imprensa da corporação, tenente-coronel Marcelo Granja, ela pode ser ouvida em até 60 dias no procedimento aberto para apurar o uso da arma da PM no ataque.

Ainda de acordo com Granja, a Corregedoria já designou um oficial para o caso. Em vias normais, primeiramente são ouvidas testemunhas e, posteriormente, o militar investigado. O pedido de apuração foi feito pelo batalhão ao qual ela pertence.

“O inquérito tem um prazo de 40 dias para transcorrer, mas o encarregado pode pedir uma prorrogação de mais 20 dias caso sinta necessidade. Ela pode ser ouvida a qualquer momento nesse período. Porém, como ela está medicada e se recuperando de uma internação em casa, acho que deve demorar alguns dias”, disse Granja ao G1.

Após esse período, o encarregado emite um parecer e o repassa para o superior que solicitou o inquérito. Este, por sua vez, o encaminha para a Auditoria Militar, onde o documento é analisado pela promotoria e por um juiz, que decidirá se a sargento será ou não punida.