domingo, 12 de abril de 2015 – Foto: Campos 24 Horas
Postado por: Fabiano Venancio

O Campos 24 Horas inicia neste fim de semana uma nova série de reportagens com a neuropsicopedagoga Andressa Amaral. Desta vez, vamos abordar os transtornos que afetam o comportamento humano. E, como estamos em abril, mês em que se comemora o “Dia Mundial de Conscientização do Autismo”, datado de 02 de abril, nossos olhares voltaram-se para essa questão que tantas famílias vivenciam em seu dia-a-dia: a missão singular de ter um filho autista.
Veja a entrevisa:
Campos 24 Horas – O que é de fato o Transtorno do Espectro Autista, mais conhecido como autismo?
Andressa Amaral – O autismo é um transtorno que hoje já se sabe ser genético, que se apresenta por um conjunto de sintomas que afeta diretamente as áreas de socialização, comunicação e do comportamento, sendo que entre estas, a mais comprometida é a interação social.
C24H – Como assim, uma criança autista por ter comprometido o aspecto de interação, não consegue desempenhar seu papel social?
Andressa –De forma alguma, e essa é a busca mais mágica dos profissionais que atuam nos acompanhamentos de autistas e das famílias que vivem esta realidade, trazer o autista de seu “mundo particular”, para o nosso universo. E hoje, já se sabe que existem autistas desempenham perfeitamente seu papel social.
C24H – Em que fase da vida é possível observar os sintomas do autismo?
Andressa – Os sintomas aparecem antes dos 03 anos de idade, geralmente na primeira infância. Por isso a importância de se observar o desenvolvimento da criança neste período para observar possíveis divergências comportamentais que podem indiciar o TEA (Transtorno do Espectro Autista) e consequentemente os profissionais conseguirem atuar no diagnóstico precoce e alcançar os melhores resultados.
C24H – A senhora menciona que o autismo compromete três áreas específicas: a socialização, comunicação e comportamento. Fale-nos um pouco sobre isso.
Andressa – Bem, a principal área afetada e a que mais se evidencia, é a interação social, para o autista o seu universo é como um mundo impenetrável, onde eles se sentem em sua zona de conforto. Mas o interessante disso, não é que eles recusam essa aproximação, ou que não sintam prazer quando estão em contato com outras pessoas, mas pelo fato de serem hipersensíveis, para eles o contato social parece uma ameaça, por vezes, crianças autistas buscam a interação com colegas, mas não conseguem manter. Por exemplo, às vezes convidam um colega para brincar, mas não conseguem permanecer interagindo por muito tempo, pois para o autista essa ação se torna muito complexa em função desta área que é afetada.
Outra área é a comunicação, pois pelo fato de o ser humano ser um ser social, temos constituída em nós, uma base de linguagem, ou seja, verbal (manifesta pela fala e escrita) e não-verbal (gestos, sons, sinais). E manifestamos esta linguagem através de um simples olhar, por exemplo. No caso do autista, esse processo esbarra em uma barreira, que é a comunicação, pois a linguagem para se desenvolver precisa da comunicação, e em casos de autismo. Por isso a importância dos pais observarem se a criança está de acordo com o desenvolvimento natural, se forma as palavras no tempo certo, se com dois anos já conseguem construir frases, etc. Caso isso não ocorra é preciso procurar especialista para avaliar o caso.
Em relação ao comportamento, temos duas categorias: o comportamento motor repetitivo, estereotipado, e a outra relacionada aos chamados comportamentos disruptivos cognitivos.
C24H – Como assim, categorias de comportamento, fale mais um pouco sobre isso.
Andressa – O autista manifesta algumas características comportamentais como pular, balançar o corpo e/ou as mãos, bater palmas, agitar ou torcer os dedos e fazer caretas. São sempre realizados da mesma maneira e alguns pais até relatam que observam algumas manias na criança que desenvolve tais comportamentos. Algumas crianças com autismo são bem agitadas e parecem não ouvir as ordens dos pais. Não seguem os comandos, fazem apenas o que é de seu interesse, que, geralmente, é bastante restrito. Querem sempre as mesmas coisas, do mesmo jeito, na mesma seqüência. Elas pulam o tempo todo, correm e se agitam exaustivamente. O que muitas vezes faz com que as famílias cheguem aos consultórios com a expectativa de diagnósticos de TDAH.
Já em relação ao comportamento cognitivo, observamos características tais como, compulsões, rituais e rotinas, insistência, mesmice e interesses circunscritos que são caracterizados por uma aderência rígida a alguma regra ou necessidade de ter as coisas somente por tê-las.
C24H – A senhora falou que as pessoas confundem o diagnóstico com TDAH. Por qual razão? E o que difere este comportamento autista do TDAH?
Andressa – Na verdade, hoje por causa do modismo que estamos vivendo em relação ao TDAH, as pessoas acham que o fato de uma criança apresentar sinais de hiperatividade sejam TDAH, o que já vimos em nossas matérias anteriores que não é verdade. Além disso, o autista tem uma hiperatividade física diferente da criança TDAH, a agitação do autista, além de exacerbada, é sem função, o interessante para ele é a própria agitação, e não há uma causa específica. Em casos de TDAH, as crianças buscam sempre algo novo, diferente do autista que tem seu pensamento organizado de uma forma lógica e restrita.
C24H –E porque ouvimos sempre dizer que existem autistas que são praticamente elevados à categoria de gênios?
Andressa – Geralmente o que acontece com o autista, é que pelo fato de terem um mundo restrito em função da interação social, seus interesses são muito limitados. Geralmente eles tem grande interesse pelo que é simples e lógico. Por exemplo, trens, cálculos, dinossauros, rodas de carro, jogos. Desta forma, o foco de seu universo cognitivo é restrito, fazendo com que eles se aperfeiçoem muito nas poucas coisas que elegem para seu dia-a-dia que é pautado em rotinas.
C24H – Outra coisa que nos chama atenção, é quando a senhora menciona a importância do diagnóstico precoce. Por qual razão há esta necessidade?
Andressa – Hoje nós já estamos vencendo a barreira do preconceito de que não há solução para a evolução de crianças autistas, ao contrário, o que se vê é que quanto antes detectado o problema, mais recursos técnicos existem para a evolução positiva do quadro, ao passo que existem autistas que levam uma vida praticamente normal em relação aos padrões considerados com normais pela sociedade.
C24H – Mas, não dizem que as crianças têm “seu tempo” de se desenvolver, e que isso tem que ser respeitado? Não seria uma controvérsia a senhora falar em diagnóstico precoce?
Andressa – Não, absolutamente, pois os estágios de desenvolvimento são decorrentes da conexão do indivíduo com o mundo. E, no caso do autismo é justamente esta conexão que está prejudicada. Então, no caso de TEA (Transtorno do Espectro Autista), respeitar o tempo do autista é simplesmente perder tempo, pois o quadro não terá evolução positiva. É como se deixássemos uma árvore rara, presa, esperando que ela fosse se libertar, teríamos a surpresa de que esta ave, nem ao menos tentaria fugir… Por isso, a importância do tratamento.
C24H – E por falar em tratamento, qual o tratamento mais indicado?
Andressa – Não há uma receita mágica para tratamento com autistas. O que já se sabe, é que os melhores resultados são alcançados através de Terapia Comportamental, mas existem infinitos recursos como homeopatia, tratamentos alimentares, atividades físicas e fisioterápicas, acompanhamento fonoaudiológico, acompanhamento psicopedagógico, que se complementam e contribuem muito nestes casos.
Mas de tudo, o mais importante é que os profissionais entendam que para o sucesso do tratamento é preciso primeiramente penetrar no mundo do autista para convidá-lo a fazer parte do nosso mundo.
C24H – E as famílias frente ao diagnóstico do autismo?
Andressa – Bom este é o assunto de nossa próxima semana, onde estarei trazendo convidados especiais, pais que vivem esta realidade, e a encaram, antes de tudo, com o melhor remédio: amor incondicional, e vivem na busca constante por este mundo peculiar.
Agradecemos mais uma vez as informações, e lembramos aos leitores, que, caso queiram interagir, tirar dúvidas, sugerir novos temas, enviem e-mails para: [email protected].
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