O cantor Osvaldo Américo Ribeiro Freitas, o Dom Américo, que faleceu em Campos, aos 69 anos, e cujo corpo foi sepultado nesta segunda-feira, encantou plateias e construiu uma bem sucedida trajetória em mais de 50 anos de carreira, alicerçado nos predicados de seu carisma e sua voz potente e inconfundível, além de uma estrutura capaz de atender a uma agenda sempre repleta de apresentações não apenas em sua cidade natal, mas em quase todas as praças do Rio de Janeiro e mesmo em outros Estados. O artista não resistiu a problemas de saúde que vinha enfrentando e morreu no Hospital Geral de Guarus, onde estava internado desde o dia 02 de março. (leia mais abaixo)
A carreira de Dom Américo teve início no final da década de 1960. À época, o engenheiro agrônomo e músico Pedro Nílson Berto produzia peças de teatro em São João da Barra e lembra o começo da trajetória do artista.
“Osvaldo veio morar com seus pais em Atafona nesta época. Mas fui encontrá-lo e fazer uma longa amizade com ele no Colégio Agrícola Antônio Sarlo. Eu tocava piston e ele gostava de cantar na banda regida pelo maestro Arlindo Farinelli. Num dia, isso em 1967 ou 68, eu produzia uma peça que foi apresentada no Clube Congos e precisava de um intérprete para entreter a plateia entre os dois atos. Ele gostava de imitar o Agnaldo Timóteo, e quando cantou aquela música “Meu grito” arrasou, levantou o público. A partir dali, o homem não parou mais. Primeiramente era convidado para cantar em bares, em formaturas, em aniversários e casamentos. Anos depois, a música passou a ocupar a maior parte do seu tempo, inclusive a vida profissional”, lembrou.
Anos depois, a música passou a ser sua atividade principal e Dom Américo então passou a se dividir entre a carreira e as aulas como professor de práticas agrícolas no Colégio Agrícola. “Depois, a carreira dele decolou. Se alguém quisesse contratar um show ou uma apresentação dele tinha que ser como muita antecedência porque a agenda dele sempre estava muito cheia de compromissos, não apenas na região como em outras cidades e outros Estados”, testemunhou Pedro Nilson.
Nos anos 80, Dom Américo passou a liderar a Banda Apolo 7, com Ronaldo e Ricardo, e que inclusive seu origem ao nome artístico de um de seus filhos, Apolo, também cantor.
SUCESSO – Naquele período, o artista gravou o compacto Pecado de Amor, que também incluía New York New York, sucesso de Frank Sinatra. Depois, lançou um LP que incluía Butterfly (composição de Paulinho Resende), seu maior sucesso. Na década de 1990, veio o CD Luminosidade, lançado pela gravadora Polygram, que contém Gotas de Luz, de Moacyr Luz e Aldir Blanc. Em 1992, sucedeu-se o LP Universo, no qual interpreta músicas de Tim Maia. Ainda no auge da carreira, em 1996, o artista lançou o disco Salsa Brasil e que acabou por lhe render uma participação no programa Jô Soares, ainda no SBT.
O radialista Antunis Clayton, outro amigo de longa data de Osvaldão (como o artista era também conhecido) lembra ter conhecido o cantor quando se apresentava no Restaurante Pagode, em Guarus, tendo depois trabalhado ao seu lado na administração do Cemitério Campo da Paz.
“O Osvaldo começou a cantar no Pagode quando era do meu tio Barrosinho. Ele era também muito sensível e fez todo aquele projeto paisagístico de ajardinamento do Campo da Paz. A partir dali, ele passou a ser administrador, eu trabalhando ao seu lado também no escritório da administração, já nos anos 80, ele como gerente”, contou.
PAIXÃO PELO GOYTA – Antunis recorda de algumas passagens pitorescas envolvendo Dom Américo. Uma delas na década de 1980, e envolveu outra paixão do artista, além da música: o futebol e seu time do coração, o Goytacaz.
“Certo dia, o Bangu tinha um timaço, com Marinho de ponta direita, entre outros grandes jogadores, e veio jogar em Campos num domingo, contra o Goytacaz. Naquela noite de sábado ele cantava no antigo Pagode (em Guarus), para onde o Castor de Andrade havia levado a delegação banguense para jantar. Ele ficou impressionado com o Osvaldo, se aproximou, dizendo que iria levá-lo para o Rio e o convidou para que assistisse o jogo no dia seguinte ao seu lado, torcendo para o Bangu, na tribuna de honra do Aryzão. O Osvaldão ficou emparedado e acabou aceitando o convite. A segunda proposta (torcer pelo Bangu) ele não teve como cumprir, é claro, já que era um torcedor apaixonado do Goytacaz”, lembrou.
CASA CHEIA SEMPRE – Naquela década de 1980, Dom Américo já arrastava seu fiel público também para o emblemático Restaurante Boi Bumbá, na Pecuária, no espaço da Fundação Rural de Campos. “Era sempre casa cheia, às quintas-feiras. Conseguir uma mesa ali em qualquer dia de apresentação dele era muito difícil. Tinha que ter feita com antecedência”, relatou Antunis.
Eclético, Dom Américo passeava por vários ritmos desde as canções românticas nacionais e internacionais, ao pop rock, o sol e ultimamente arrastava as multidões em bailes de carnaval de clubes ou a bordo de um trio elétrico nos verões da praia de Farol de São Thomé. Além de Butterfly, o público se encantava e pedia sempre bis quando o cantor interpretava New York New York, sucesso na voz de Frank Sinatra.
“As pessoas, quando morrem, recebem os maiores elogios. Mas o Osvaldo era mesmo um sujeito fantástico, maravilhoso. Era incrível a sua popularidade, carisma, irreverência e bom humor, sempre. E era muito bom de palco. Além de cantar bem com aquele seu vozeirão, tinha presença extraordinária no palco, sabia cativar as pessoas, tinha boa comunicação com o público. Era extraordinário, como artista e ser humano. Se quisesse poderia até projetar uma carreira nacional, mas como já tinha uma vida estabilizada em Campos, por aqui foi ficando… ”, analisa Antunis.
O nome e a obra de Dom Américo está também inserido no Dicionário da Música Popular Brasileira, de Ricardo Cravo Albin. O historiador informa que o artista iniciou a carreira artística em 1967. Em 1990, lançou pela Polygram o LP “Luminosidade” interpretando as músicas “Luminosidade”, de Paulo Debétio e Paulinho Resende, “É Isso Aí (C’est Comme Ca)”, de G. Rivard, versão de Aldir Blanc, “Amor One Way”, de Gene Araújo e Joran, “Isso Me Dá Prazer”, de Ronaldo Malta, “Abraço Vazio”, de Roberto Menescal e J. C. Costa Neto, “Toque de Emoção”, de Gilson Mendonça e Marquinhos, “Trilha Sonora”, de Leno, “Gotas de Luz”, de Moacyr Luz e Aldir Blanc, “Vem e Esquece”, de Marquinhos e Ribamar, e “Acorda Gigante”, com Renato Arpoador. Em 1992, pelo selo Tropical/Polygram, lançou o LP “Universo” interpretando as composições “Tarde Demais”, “Ninguém Segura” e “Swingueira”, as três de autoria de Nelson Kaê e Beto Correia, “Prova de Amizade”, de Barney, “Kamutueira”, de Paulo Debétio e Paulinho Resende, “Centro-avante Malvado”, de Altay Veloso, “Droga”, de Antônio José, “Alegre”, de Jorge Vercillo, “Quando Eu Era Menino”, de Gilson e Joran, e “Sonho Encantado”, de Marquinhos e Michael. Em 1996, pela BMG Brasil lançou o CD “Salsa Brasil”, com as músicas “Teleco Teco”, de sua autoria, “A Fruta Do Meu Quintal”, de Paulo Debétio e Ratinho, “Eu Também Quero Mocotó”, de Jorge Bem Jor, “Zé Piranha O Zoófilo”, de Tavinho Paes e Alex de Holanda, “Sonífera Ilha”, de Branco Mello, Marcelo Fromer, Tony Bellotto, Carlos Barmack e Ciro Pessoa, “Gata”, “A Cabeluda” e “Volume Do Som”, as três com Paulo Debétio, “A Tonga da Mironga do Kabuletê”, de Toquinho e Vinicius de Moraes, “Cucaracha Tupiniquim”, de Efson e Odibar, e “Beijo Geladinho”, de Netinho de Paula e Wagninho. Em 2001, participou do CD “Swing Bahia”, lançado pelo artista Gil Paixão pela gravadora Paulitura, interpretando a música “Nas Ondas Do Desejo (Nunca Me Esqueça)”, de Marrom. Em 2018, comemorando 51 anos de carreira apresentou-se em show beneficente no Asilo Monsenhor Severino, em Campos dos Goytacazes.
AMIGOS E FÃS – Nas redes sociais, amigos, fãs e admiradores lamentaram a partida do cantor. “Uma grande estrela a iluminar o céu, mas que sempre estará entre nós através de sua arte, bela e imortal”, escreveu a cantora Leny Moraes. “Um grande ícone da cultura local que se foi. Devido a esta situação de pandemia, lamentamos não podermos prestar as últimas homenagens para que ele arrastasse uma multidão em sua despedida, como sempre fez como artista”, disse o radialista Barbosa Lemos.
O jornalista Cássio Peixoto lembrou da generosidade de Dom Américo (sempre pronto a cantar mesmo de graça) para ajudar instituições de caridade. “Um artista generoso e inigualável, que nunca vai morrer, estará para sempre entre nós, em nossos corações”, disse. O presidente da Associação de Imprensa Campista (AIC), Wellington Cordeiro, também se manifestou nas redes sociais. “Nosso Butterfly embarcou na garupa da saudade. Nos lembraremos dele a cada sol brotando no canteiro, no voar de uma borboleta, do desabrochar de uma flor”.
A jornalista Silvia Salgado postou que Dom Américo era um ídolo de gerações que preencheu as emoções de casais e de corações solitários. “Oswaldo Américo encheu nossas vidas de música e, de brinde, ainda iluminava os salões com sua alegria e bom humor. Preencheu corações solitários, aconchegou casais, foi responsável por muitos namoros e casamentos. Mesmo debilitado, cantava como se não houvesse o amanhã. É um patrimônio de Campos, ídolo de gerações. Virou passarinho, livre, foi cantar nas planícies em flor. Ficam os aplausos e o nosso muito obrigado”.
O poeta e jornalista Fernando Leite Fernandes recebeu a noticia como um soco no estomago. “A notícia de sua partida foi um soco no estômago e nosso maior cantor virou música. Embora tenha acompanhado de longe seu martírio, é natural que a estupidez da morte vence os embates que, inevitavelmente, travam conosco. Choro sempre quando ouço My Way em sua voz e assim será por todo o sempre”.