Eleição: 1 milhão de eleitores em Campos e região; veja dados e análise de candidaturas feita por cientista político ao C24H

Postado Fabiano Venancio – O Norte/Noroeste Fluminense, que engloba 22 municípios, já contabiliza cerca de 1 milhão de eleitores nas eleições deste ano, de acordo com números do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) levantados pelo Campos 24 Horas neste domingo (16/08), primeiro dia da campanha eleitoral 2026. Somente Campos e Macaé, as duas cidades mais importantes da região, já passam de 500 mil votantes. No entanto, a representatividade da região na Câmara Federal e Assembleia Legislativa (Alerj) não guarda proporção com este contingente populacional e eleitoral, levando-se em conta deputados com domicílio eleitoral em municípios da região. O professor e cientista político George Gomes Coutinho, da Universidade Federal Fluminense (UFF), fala ao Campos 24 Horas a respeito da diferença entre candidaturas com base eleitoral na Região Metropolitana do Grande Rio e os candidatos do interior no aspecto da chance de conquista de um mandato, e como isso afeta a configuração final da representação na Alerj e na Câmara Federal. Ainda mostramos neste levantamento junto à Justiça Eleitoral o número oficial de eleitores (final da página) de todas as cidades do Norte e Noroeste Fluminense. Além disso, listamos os nomes de todos os deputados eleitos em Campos e região nas últimas eleições. (veja também os 18 candidatos a deputado de Campos e região esse ano AQUI)

Na última eleição, o Norte/Noroeste elegeu o deputado federal Murilo Gouvea (União Brasil) como representante em Brasília. O parlamentar é natural de Itaperuna. Já o campista Caio Vianna (PSDB) ficou na suplência.

Na Alerj, nas últimas eleições, os eleitos foram os deputados Bruno Dauaire (União Brasil) e Carla Machado (PSD) com base eleitoral em Campos e São João da Barra. Thiago Rangel e Rodrigo Bacellar perderam seus mandatos por problemas judiciais. O deputado Chico Machado (PL) mantém seu reduto em Macaé e municípios vizinhos. Jair Bitencourt (PL) tem domicílio eleitoral em Itaperuna.

O crescimento da representação da região na Alerj foi gradual ao longo dos anos, desde a década de 1970. Em 1974, foram cinco representantes: Alberto Dauaire (São João da Barra), Amadeu Chacar Filho, Antônio Alexandre, Cláudio Moacir (Macaé) e Paulo Albernaz.

Nas eleições de 1978, eleitos seis: Dauaire, Chacar, Claudio Moacir, Hélio Azevedo Gomes(Lelé), Paulo Albernaz e Rockfeller de Lima.

Já em 1986, o mesmo quantitativo repetiu-se, quando a região elegeu também seis deputados estaduais: Alberto Dauaire, Anthony Garotinho, Claudio Moacyr, Djanir Azevedo, Paulo Antunes (Macaé) e Sérgio Diniz.

Em 1990, a maior representação, com sete deputados eleitos: Aluísio de Castro, Blandino Amaral (São Fidélis), João Peixoto, Barbosa Lemos, José Cláudio, Mirian Reid (Macaé) e Tânia Jardim Mussi (Macaé).  

Em 1998, foram seis representantes na Alerj: Paulo Albernaz, João Peixoto, Claudeci Francisco; José Cláudio; Blandino Amaral; e José Divino, pastor da Igreja Universal.

TEMPOS DA DITADURA – No plano da representação na esfera federal, a região tem feito quase sempre dois deputados em Brasília a cada legislatura, desde os tempos da ditadura militar, com Adão Pereira Nunes (da oposição), Sadi Bogado, depois Rockfeller de Lima, posteriormente Alair Ferreira (governista e aliado dos militares) e Walter Silva (da oposição). Carlos Peçanha também se elegeu neste período.

Nas décadas de 1990 em diante se elegeram Paulo Feijó (1990), Carlos Alberto Campista (1990), Alcione Athayde (1994), José Egydio (Itaperuna, 1990 e 2002); Paulo Portugal (de Bom Jesus de Itabapoana,1994), Paulo Feijó (1994) e Sílvio Lopes (Macaé, 1994); adiante o mesmo Feijó (1998,2002), Geraldo Pudim (2006) e Arnaldo Vianna (2006).

Em 2010 foi eleito o macaense Adrian Mussi, que desembarcou em Brasília com apoio do então prefeito Riverton Mussi; Macaé também elegeu o ex-prefeito Silvio Lopes deputado federal.
Nas duas últimas décadas, Anthony Garotinho, Clarissa Garotinho, Wladimir Garotinho, Nelson Nahim e Marcão Gomes (esses dois últimos, por curto período) também chegaram à Câmara dos Deputados.

VIDA DESAFIADORA – O professor George Gomes Coutinho, da Universidade Federal Fluminense (UFF), pontua que o candidato com base eleitoral na Região Metropolitana do Grande Rio tende a ser mais conhecido em todo estado.

“Ele já sai de sua base com vantagem sobre o candidato do interior porque sua região de origem tem uma maior densidade eleitoral. Daí que tendem a mais conhecidos fora Região Metropolitana, o que os leva ter maior notoriedade e até recebam mais recursos de seus partidos, tornando-os ainda mais competitivos”, afirmou.  

No final, o cientista político raciocina que a questão demográfica reflete na maior densidade eleitoral que cada região tem e que, de alguma maneira, afeta a configuração final da representação nas casas legislativas. “Sem entrar em juízo de valor, são fatores que tornam a vida dos candidatos do interior ainda mais desafiadora, daí a desigual representação regional no Legislativo federal ou estadual”.

Por outro lado, George Coutinho ressalva que há raras exceções no tempo presente que conseguiram ir além de suas regiões de origem, como os casos de Wladimir Garotinho, Anthony Garotinho e Rodrigo Bacellar, tornando-se conhecidos, seja por talento pessoal ou outras contingências na construção de suas redes de articulação.

O professor da UFF entende ainda que candidatos com domicílio eleitoral ou base eleitoral na região não irão militar necessariamente em prol dos interesses regionais porque há muitas vezes uma constelação de outros interesses que podem capturar as energias de grupos de interesses outras regiões. “E nada impede que haja candidatos de outras origens que atendam os interesses de uma outra região de uma forma construtiva”, finalizou.

PROLIFERAÇÃO DE CANDIDATOS – A eleição de candidatos ou deputados com domicilio eleitoral fora do município, mas que montam estruturas em vários municípios que permitem abocanhar grande parte dos votos da região é um dos fatores que impedem uma representação com base eleitoral e raízes regionais, incluindo o domicílio eleitoral.

A proliferação de candidatos de fora que vem cooptar lideranças locais acaba por pulverizar os votos dos eleitores campistas e de outros municípios da região.

Essa “representação raiz” hoje ficou mais prejudicada com as milionárias emendas parlamentares, que permitem aos parlamentares fazerem aportes de recursos para vários municípios.

VOTO DISTRITAL – Uma saída para esta representação com raízes locais seria a alteração da legislação eleitoral com o objetivo de instituir o voto distrital misto nas eleições proporcionais como forma de renovar a política no Brasil e aproximar o eleitor de seus representantes. É uma alternativa também pode inclusive ajudar a reduzir custos de campanha.

Desde 2017 há um projeto do então senador José Serra que propõe o voto distrital misto, mas a proposta dorme nas gavetas do Parlamento à espera de um parecer da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCCJ) da Câmara dos Deputados. 

A indiferença do Parlamento com qualquer arremedo que seja de reforma política coincide com a distância que o eleitor mantém da eleição proporcional.

Mais de 60% dos brasileiros não se lembram em quem votaram para deputado federal, segundo levantamento do Datafolha. Por outro lado, estudo da Quaest mostra que 66% do eleitorado desaprovam o trabalho desses representantes. Somente 15% acompanham com regularidade a atuação dos parlamentares.

NÚMERO ELEITORES POR CIDADE – A região Norte/Noroeste é apontada como a mais empobrecida do território fluminense, com exceção dos municípios da zona principal que recebem repasses e participações especiais dos royalties pela produção de petróleo, bem como Itaperuna, que se tornou importante polo de ensino superior do interior do Estado.
Municípios e número de eleitores abaixo:

–Campos: 370.237
–Macaé: 185.795
–Itaperuna: 76.208
–São João da Barra: 43.196
–São Francisco de Itabapoana: 39.960
–Santo Antônio de Pádua: 33.795
–São Fidélis: 30.236
–Bom  Jesus de Itabapoana: 28.552
–Miracema: 21.144
–Quissamã:  19.156
–Itaocara: 19.149
–Macabu: 16.708
–Carapebus: 13.503
–Porciúncula: 13.329
–Cardoso Moreira: 12.634
–Natividade: 12.489
–Cambuci: 12.317
–Italva: 11.673
–Aperibé: 10.158
–Varre Sai: 8.800
–São José de Ubá: 7.651
–Laje do Muriaé: 6.970