Economistas: Os desafios do futuro governo do Brasil

O cenário de incertezas após os estragos de uma pandemia e a guerra na Ucrânia não traz indicadores otimistas a partir de 2023, qualquer que seja o vencedor da disputa final no segundo turno pela cadeira presidencial no próximo domingo. De um lado, a expansão dos gastos públicos para alavancar o crescimento anunciada por Lula (PT); de outro, a aposta de Jair Bolsonaro (PL), através do ministro Paulo Guedes (Economia), na política de atração de investimentos privados através das privatizações. Os desafios de um país ainda com 10 milhões de desempregados, além de um elevado grau de informalidade e 100 milhões em situação de insegurança alimentar estão postos para o próximo presidente. O Campos 24 Horas mostra que os principais desafios não terminam no próximo domingo para o presidente eleito. Mostramos as análises dos economistas Ranulfo Vidigal e Alcimar Chagas Ribeiro e o que pensam dos planos de Lula e Bolsonaro para alavancar a economia. Analisam o cenário de um país que tem crise nas contas públicas e a possibilidade de alta de impostos. A situação passa também por uma desaceleração da economia no Brasil e no mundo. Com arrecadação menor, o próximo governo pode ser obrigado a subir impostos para compensar o aumento de gastos permanentes. (leia mais abaixo)

“As diretrizes de Lula ainda dependem da organização de uma ampla aliança que quer a volta do Estado como definidor de investimentos públicos para ajudar alavancar a economia com a participação dos bancos públicos como o BNDS, em obras estruturantes, além do financiamento da indústria e pequenos negócios do empreendedorismo; do Banco só Brasil, para impulsionar o setor agrícola; e a Caixa Econômica Federal, para o financiamento imobiliário. A ideia é expandir estes investimentos visando antecipar demanda agregada para estimular o setor privado gerar mais empregos”, analisou o economista Ranulfo Vidigal. (leia mais abaixo)

Ranulfo não acredita que o atual governo com Guedes faça algo diferente a partir de 2023, caso Bolsonaro seja reeleito, com ênfase nas privatizações de ativos públicos e achatamento salarial.  (leia mais abaixo)

“A política com Guedes deve ser a mesma e aprofundada, caso Bolsonaro seja reeleito, será o desmonte do setor público para que o setor privado se incumba deste papel de indutor do crescimento, com o salário mínimo desvinculado dos índices de inflação como ocorre no modelo do Chile, que eles ainda acham que pode se aplicar a realidade do Brasil. Esses investimentos privados teriam como fonte o programa de privatizações. Ele pensa em vender a Petrobras, o Banco do Brasil e outros ativos que estão na mira para serem privatizados”, avaliou. (leia mais abaixo)

O economista faz distinções claras entre os dois projetos macroeconômicos e admite ressalvas e incertezas quanto ao projeto de Guedes.  “São duas visões e dois mundos diferentes. Um lado propõe como saída a liquidação destes e outros ativos rentáveis, mas que diante de uma crise internacional com uma recessão que se avizinha, nem o próprio Guedes tem conseguido fazer o que se propõe. Mesmo com uma mão de obra mais barata como a nossa, o governo não tem obtido êxito em deslanchar as privatizações”.    (leia mais abaixo)

SETOR DE SERVIÇOS – Ranulfo, porém, considera que um mercado interno mais aquecido ainda é um trunfo. “O setor de serviços, por exemplo, tem registrado nível de produção e crescido na geração de empregos 7% acimado período pré-pandemia e precisa de estímulos para crescer mais”. (leia mais abaixo)

O economista enfatiza ainda como necessidade a injeção de dinheiro púbico nos programas sociais para reduzir as brutais dificuldades que atingem milhões de brasileiros. “E são recursos que representam dinheiro na veia para aquecer o comércio e manter os empregos que ele gera”, observou. (leia mais abaixo)

A crise mundial após a pandemia que atingiu a economia brasileira acarretou na perda de U$S 40 bilhões no saldo das reversas internacionais, com a variação cambial e o deficit de transações correntes. “Com o mundo em recessão, o Brasil vende menos, há uma redução no movimento de exportações de commodities. Qualquer que seja o vencedor terá que superar este desafio com a desaceleração da China, a crise na Europa agravada com a guerra na Ucrânia, e os EUA com taxas de juras cada vez mais altas”, ressaltou. (leia mais abaixo)

GARGALOS ENORMES – Já o professor Alcimar Chagas Ribeiro, da Uenf, outro economista, considera também que Lula e Bolsonaro tem projetos claros, mas insuficientes para superar os enormes gargalos na economia brasileira e que impedem o crescimento. “Lula ainda não tem uma equipe formada, mas tem ouvido declarações de apoio de uma equipe de economistas que ajudaram a montar o Plano Real.  Entre estes economistas, alguns já foram liberais, mas hoje combatem alguns dos princípios liberais na economia e defendem a flexibilização de gastos e emissão de moeda, como o André Lara Resende. Mas só a flexibilização de gastos não vai resolver porque na macroeconomia essas medidas são importantes, mas insuficientes”.   (leia mais abaixo)

Na visão de Alcimar, o Brasil é um país complexo e diversificado, com uma economia ancorada na exportação do boom de commodities que não contempla outros estados, além dos exportadores, casos do Sudeste, puxado por São Paulo, Minas e o Centro Oeste.  “A maioria dos estados não são impactados com as exportações e são muito dependentes dos repasses constitucionais do governo federal, que poderia também compensar o baixo crescimento com investimentos nesses estados. Mas o governo da União também carece de recursos de sobra para investimentos em razão do elevado custeio e das obrigações com as despesas constitucionais. Uma reforma tributária mais justa ajudaria a solucionar o problema. Como se observa, os gargalos são muitos”, comentou. (leia mais abaixo)

Para Alcimar, a privatização de ativos do Estado não é suficiente para que o País atinja o tão desejado nível de crescimento e faça deslanchar os índices de geração de empregos.  “As privatizações em alguns setores precisam acontecer, e já estão acontecendo, mas o Estado tem também um papel importante. O mundo é muito dinâmico.  E o Brasil também precisa de uma estrutura tributária que atenda e proteja as pequenas e microempresas. E o mundo do trabalho também sofreu mudanças radicais com a automação das grandes empresas. Muita gente ficou desempregada e passou a ser microempreendedor. Esse pessoal também precisa de proteção e apoio para se desenvolver”.  (leia mais abaixo)

QUALIFICAÇÃO – Os gargalos também passam pela educação a partir de projetos de qualificação. “Projetos na educação que precisam atender melhor na capacitação, em inovação e tecnologia. Há empresas que necessitam de mão de obra e pessoal qualificado, mas não têm. Até quem tem curso superior tem dificuldade, mas os recursos e projetos não fluem na velocidade necessária”. (leia mais abaixo)

Ainda de acordo com Alcimar Chagas, o cenário é de incertezas pelo mundo e atinge o Brasil que possui uma economia ainda dependente e está também integrado a essas cadeias produtivas globais. “E com os efeitos de uma pandemia que promoveu um desmonte no mundo e agora se sucede a guerra na Ucrânia”, concluiu.