Da capital ao interior: Dados da violência que avança e o que dizem Paes, Garotinho e Ruas

Postado por Fabiano Venancio – As eleições de outubro deste ano reservam para os principais candidatos ao governo estadual do Rio de Janeiro um desafio do tamanho da responsabilidade de gerir um estado onde 13 milhões de moradores da Região Metropolitana (cerca de 75% do conjunto da sua população de 17,5 milhões de habitantes) enfrentam um cenário de violência em extensas áreas controladas por organizações criminosas que a cada dia fazem mais vítimas. Além do tráfico de drogas onde grupos rivais disputam espaços e promovem constantes tiroteios nas comunidades, hoje a atuação de grupos milicianos se soma agora como uma das maiores preocupações de segurança pública no estado. O Campos 24 Horas mostra o que pensam os três principais pré-candidatos a governador apontados pelas pesquisas, além de dados impressionantes do avanço dos grupos criminosos na capital e em cidades do interior, como Campos, Macaé e Itaperuna, conforme  informações de levantamentos do Instituto DataFolha e do “Atlas da Violência 2026”. Dentro desse contexto, as autoridades policiais e dos Ministérios Públicos têm realizado uma série de operações de combate a pessoas que controlam as finanças dos principais grupos criminosos.

Essas organizações criminosas têm ampliado seu domínio territorial e econômico, preocupando moradores e comerciantes ao controlar serviços essenciais e impor regras baseadas no medo. Hoje as milicias avançam também em cidades de menor porte no entorno do Grande Rio como Tanguá, Rio Bonito e Cachoeiras de Macabu.

Porém, o avanço da criminalidade não atinge apenas a Região Metropolitana do Rio, mas também cidades do interior. Itaperuna, de 100 mil habitantes, no Noroeste Fluminense, encerrou o ano de 2025 como a nona cidade mais violenta do Brasil, segundo o Atlas da Violência 2026, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

A cidade registrou uma taxa estimada de 50,3 homicídios por cada 100 mil habitantes, o dobro da média nacional brasileira. Em números absolutos, foram contabilizadas 54 mortes violentas em um único ano.

Esse índice coloca Itaperuna não apenas na liderança negativa do Estado do Rio de Janeiro, superando a capital fluminense em taxa de homicídios proporcionais, mas também entre as dez cidades mais perigosas de todo o país, consolidando um cenário de violência que afeta diretamente a qualidade de vida de toda a população.

O contraste entre Itaperuna e a capital do estado é alarmante. Enquanto a cidade do Rio de Janeiro registrou 18 homicídios por 100 mil habitantes no mesmo período, a cidade do Noroeste Fluminense apresenta uma taxa quase três vezes superior. Embora a capital tenha números absolutos maiores de mortes — com 1.276 homicídios registrados — a proporção por habitante em Itaperuna revela uma concentração de violência muito mais intensa.

MACAÉ VIOLENTA – Em Macaé, comunidades como o Malvinas, Malvinas e Nova Holanda se encontram sob controle de traficantes que integram facções do Rio de Janeiro, como Amigo Dos Amigos (ADA) e Comando Vermelho (CV). 

O ex-deputado federal Felício Laterça (Partido Novo), que tenta retornar ao cargo este ano, denunciou que as facções de Macaé selecionam os candidatos que podem ou não fazer campanha nessas localidades. E acusou o prefeito Welbert Rezende (Cidadania) de ter privilégios junto aos traficantes.

CAMPOS E SÃO FRANCISCO – Em Campos, a instalação de um Batalhão de Polícia Militar em Guarus está no rol das prioridades de lideranças políticas locais, incluindo o próprio ex-prefeito Wladimir Garotinho (PL), candidato a deputado federal.

O tráfico de drogas se alastra por localidades da periferia urbana, onde facções montam barricadas para impedir a entrada da polícia em algumas ruas, passando também pela zona rural, da Baixada Campista ao norte do município.

Em São Francisco de Itabapoana, houve registro desproporcional da violência e o tráfico de drogas para uma cidade de apenas 40 mil habitantes em 2025.

Medo do crime e as eleições  – A presença do crime organizado no Brasil deixou de ser um fenômeno restrito às grandes capitais e passou a atingir também cidades médias e municípios do interior, concluiu o FBSP, com base na pesquisa “”.

Diante de um cenário que ameaça se tornar incontrolável, candidatos se veem diante da necessidade de calibrar o seu discurso com propostas viáveis e factíveis para estancar a espiral da violência do Estado, sem uma retórica meramente eleitoreira.

GAROTINHO – Ex-governador e também ex-secretário estadual de Segurança Pública, Anthony Garotinho (Republicanos), mostra suas credenciais e ressalta sua experiencia nestes cargos. Se coloca o candidato mais bem preparado e faz inúmeras críticas aos concorrentes, inclusive aponta a ligação de alguns pré-candidatos com a milícia. 

O ex-governador escolheu como vice um policial considerado uma autoridade no campo da segurança: o coronel Venâncio Moura, ex-comandante do temido Bope (Batalhão de Operações da Polícia Especial).

DOUGLAS RUAS – Policial civil, o deputado estadual e candidato Douglas Ruas (PL) é filho do prefeito de São Gonçalo, Capitão Nélson (PL), policial militar aposentado. Atualmente, Douglas preside a Assembleia Legislativa (Alerj), tendo sido secretário estadual do governo Cláudio Castro, de quem procura hoje se desvincular, inclusive com críticas à gestão de Castro.

“Temos indicadores pífios na área de Educação. Ainda temos muito a avançar na segurança, em emprego e renda”, disse Douglas em entrevista. O candidato não se pronunciou se vai continuidade à política de confronto nas favelas e morros do Rio cujo episódio mais emblemático foi uma megaoperação policial realizada nos complexos da Penha e do Alemão, em outubro de 2025.

A megaoperação resultou em pelo menos 121 mortes, tornando-se a mais letal da história do Rio de Janeiro e mobilizou cerca de 2.500 policiais. Tinha como objetivo desarticular a estrutura do Comando Vermelho, uma das principais facções de tráfico de drogas do estado 

PAES E A SEGURANÇA PÚBLICA – A economista Joana Monteiro, diretora e cofundadora do Leme (Laboratório para Redução da Violência), vem sendo a principal consultora de Eduardo Paes na elaboração de um projeto de governo na área de segurança pública. Coordenadora do Centro de Ciência Aplicada à Segurança da Fundação Getúlio Vargas, Monteiro participou do grupo de trabalho da prefeitura que pensou e elaborou a Guarda Municipal Armada, em 2024.

O projeto foi o pontapé inicial de Paes, ainda como prefeito, na discussão da Segurança Pública no Rio de Janeiro.

Paes tem destacado que em seu governo, caso seja eleito, a segurança será blindada de influência política, onde deputados indicam comandante de batalhões e cargos em outras áreas do aparelho policial, prática comum nos últimos governos.

MORADORES E AS FACÇÕES – Há o prenúncio de uma campanha que coloca a violência urbana no centro do debate eleitoral em quase todo país. Estudo realizado pelo Instituto Datafolha em março de 2026, aponta que 41,2% dos brasileiros com 16 anos ou mais afirmam conviver com facções criminosas ou milícias no bairro onde moram.

O dado representa cerca de 68,7 milhões de pessoas vivendo em áreas onde o crime organizado exerce algum tipo de influência territorial e social.

De 2006 a 2008, a série histórica de um estudo do Instituto Fogo Cruzado sinaliza um “potencial de crescimento” das milícias “mais acelerado que os demais grupos”.

Esses grupos faturam alto ao explorar atividades que deveriam ser garantidas à população. Entre os principais negócios ilegais estão a venda de gás, o fornecimento de água, a oferta de internet clandestina e a cobrança de taxas de funcionamento para comerciantes locais. Na prática, moradores acabam obrigados a pagar por serviços controlados pelos criminosos, muitas vezes sem qualquer alternativa.

Uma das estratégias utilizadas pelos milicianos envolve o uso de profissionais especializados para montar verdadeiras centrais de internet clandestina. Com isso, eles conseguem impedir a atuação de empresas legalizadas e eliminar qualquer concorrência, deixando a população refém de um único fornecedor controlado pelo crime.

A expansão dessas atividades tem preocupado autoridades em cidades da Região Metropolitana, como Itaboraí, Tanguá, São Gonçalo e Maricá. Nos últimos anos, esses municípios intensificaram ações de combate a essas organizações que, segundo denúncias, utilizam intimidação e violência para manter o controle sobre comunidades inteiras.

O método de atuação é marcado pela imposição do medo. Moradores relatam que qualquer tentativa de questionamento pode resultar em agressões, ameaças ou até mesmo assassinatos. A regra imposta pelos grupos é simples e cruel: ou a população aceita as condições impostas, ou é obrigada a deixar a região.

Além da violência física, especialistas apontam que os milicianos também utilizam estratégias de manipulação social. Em alguns casos, tentam colocar parte da população contra autoridades públicas e instituições, buscando criar um ambiente de desinformação que favoreça a consolidação de seu poder.

Historicamente, áreas da zona oeste da capital fluminense e partes da Baixada Fluminense já convivem com forte presença de milícias. O temor agora é que esse modelo de dominação avance para outros municípios da Região Metropolitana.

Para autoridades e lideranças locais, é fundamental impedir que cidades como Itaboraí, São Gonçalo, Maricá, Tanguá e Rio Bonito se tornem novos territórios dominados por essas organizações. O combate às chamadas “milícias convencionais” e também às chamadas “milícias digitais” é visto como essencial para garantir segurança, liberdade econômica e o direito da população de viver sem medo.