09/08/2015 – às 08hs – Foto: Campos 24 Horas
Por: Andressa Amaral
Neuropsicopedagoga
Para responder a este questionamento convidamos a neuropsicopedagoga Andressa Amaral, que esclarecerá um pouco sobre as diferenças no desenvolvimento cognitivo e dos sistemas de aprendizagem de crianças que nascem prematuras das crianças nascidas a termo e a probabilidade destas crianças apresentarem problemas de aprendizagem.
C: Hoje cada vez mais ouvimos dizer que reduziu o índice de mortalidade de crianças prematuras, face à evolução da medicina. Mas as crianças prematuras apresentam as mesmas condições de desenvolvimento em relação às que nascem em tempo normal?
R: Esta questão é bastante relativa, pois há crianças que apesar de terem nascido com baixo peso, antes de completarem 37 semanas, para estarem nesta categoria, também conhecida como RNBP, conseguem apresentar um desenvolvimento cognitivo sem comprometimento. Contudo, a grande maioria, apresenta, no decurso da vida algum comprometimento neste aspecto.
C: Mas, que tipos de comprometimentos cognitivos uma criança prematura pode apresentar, e porque estes problemas acontecem?
R: Além dos comprometimentos normais de crianças consideradas prematuras, como síndrome do desconforto respiratório, apnéia, displasia broncopulmonar, retinopatia, paralisia cerebral, hidrocefalia, hemorragia intracraniana, dentre outros, os RN prematuros que resistem às intercorrências perinatais tornam-se propensos a manifestar alto risco para comprometimento neurológico e/ou retardo no desenvolvimento neuropsicomotor. Estes problemas geralmente ocorrem pelo fato de a vida intrauterina ter sido interrompida antes que o ciclo maturacional desta criança se completasse, ou seja, assim como os outros órgãos, o cérebro também passa por um processo de formação e maturação. E, estudos mostram que a maioria das crianças nascidas prematuras apresentam disfunções em algumas áreas cerebrais que afetam em larga escala o desenvolvimento cognitivo e neuropsicomotor.
C: Mas que tipo de comprometimento acontece no desenvolvimento cognitivo e de aprendizagem destas crianças?
R: Geralmente estas crianças apresentam atraso natural no desenvolvimento, visto que todo seu processo maturacional já é, automaticamente comprometido, ou seja, é natural que haja uma lentidão nos estágios de desenvolvimento destas crianças comparados a crianças nascidas a termo. Além disso, é muito comum crianças prematuras apresentarem comprometimentos neuropsicomotores, problemas de equilíbrio, atraso no desenvolvimento da linguagem não-verbal e verbal (fala) e problemas de aprendizagem quando em idade pré-escolar e escolar.
C: Que tipo de problemas de aprendizagem estas crianças podem apresentar?
R: A grande maioria apresentam quadros de desatenção, hiperatividade, além de outras questões como dislexia, discalculia (inabilidade em realizar cálculos), sem contar com problemas de inabilidades nas interações sociais, muito característicos nestas crianças.
C: Em relação a estas inabilidades de interação social, porque isso acontece?
R: Temos dois fatores que preponderam neste caso. Primeiro é o biológico pois estas crianças demoram mais para desenvolverem linguagem não verbal e estabelecer conexões simbólicas e sensitivas, ou seja, as trocas interacionais demoram mais evoluir, e estas crianças, quando comparadas a outras acabam apresentando dificuldades em interagir porque ainda não simbolizam, ou seja, não entendem como crianças da mesma idade que não são prematuras, por exemplo, às vezes algumas trocas emotivas, apresentando dificuldades de brincar e interagir com crianças de mesma idade. Outro problema é o emocional. Geralmente os pais de crianças prematuras, por todas as dificuldades enfrentadas após o nascimento destas crianças, a luta pela sobrevivência, há um forte influencia psicológica que faz com que estes superprotejam estas crianças com medo de que enfrentem mais dificuldades, por considerarem que são mais frágeis em relação às outras crianças. Esta questão acaba limitando um pouco que esta criança se desenvolva e ganhe autonomia.
C: Já sabemos que as condições patológicas de crianças prematuras não tem como ser evitadas, apenas acompanhadas e tratadas. Mas, as condições de desenvolvimento cognitivo e de aprendizagem, podem ser tratadas de modo a impedir que tais atrasos aconteçam?
R: Na verdade estas disfunções são naturais, em grande escala, ou seja, impedir que tais atrasos ocorram, geralmente não é possível, mas é indicado que tais questões sejam tratadas precocemente no sentido de inibir seus desenvolvimentos.
C: E de que forma estes problemas podem ser controlados, quais os tratamentos indicados?
R: Primeiramente é importante que os pais tenham acompanhamento para orientação familiar com especialistas, de modo que saibam primeiramente entender que estas crianças se desenvolvem de forma distinta em relação às que nasceram a termo. Além disso, a própria criança prematura deve estar em observação a partir dos 06 meses de idade no que tange ao seu desenvolvimento, é preciso que se observe se o processo maturacional motor primeiramente está ocorrendo dentro do previsto para uma criança prematura. Outra questão importante é não comparar o desenvolvimento de uma criança nascida precocemente de uma que nasceu em tempo normal. Estes parâmetros não são adequados nestes casos. Após os seis meses de idade, caso observado que há algum comprometimento neuropsicomotor, esta criança já pode estar em acompanhamento terapêutico. Ademais, além de questões psicomotoras, a habilidades cognitivas também já podem ser observadas e estimuladas através de equipe multidisciplinar.
C: E quais profissionais que podem atuar neste acompanhamento?
R: O correto é que haja equipe transdisciplinar neste trabalho. É fundamental a atuação do pediatra, neurologista, psicopedagogo, nutricionista, fonoaudiólogo, psicólogo e fisioterapeuta, de modo que cada um, no momento propício possa realizar as intervenções necessárias para que estas crianças possam equiparar cada vez mais sua idade cronológica de seu desenvolvimento neuropsicomotor e cognitivo.
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