Cenário da crise em Campos: Presidente da Firjan fala ao Campos 24 Horas

O entrevistado de hoje na série de entrevistas iniciadas no Campos 24 Horas sobre “A era de receitas expressivas dos royalties do petróleo que chegou ao fim” é o presidente da Firjan Norte Fluminense, Fernando Aguiar. Ele explica que, embora a instalação de uma empresa neste ou naquele município dependa de uma série de fatores, o incentivo fiscal certamente ajuda, mas não é definitivo. E que até uma educação de boa qualidade e bom atendimento à saúde são boas estratégias de atração.

Mas, prova de que “A era de receitas expressivas dos royalties do petróleo chegou ao fim” é a situação financeira crítica de Campos e outros municípios produtores de petróleo da região. Nos últimos anos o município não conseguiu atrair empresas e investidores para geração de mais emprego e renda e vive problemas sérios em áreas como saúde, transporte, economia, entre servidores públicos e outros.

É em cima destes fatores que se dá a série de entrevistas com perguntas padrão aos pré-candidatos e representantes de diferentes segmentos da sociedade de Campos e região. Os demais pré-candidatos a prefeito, assim como representantes dos segmentos do setor produtivo terão espaço idêntico ao longo dos próximos dias para colocar suas ideias e projetos.

ENTREVISTA

CAMPOS 24 HORAS – Quais propostas defende para a diversificação da economia do município, a fim de que adquira um maior grau de autonomia e independência em relação aos royalties do petróleo?

FERNANDO AGUIAR – A Firjan já apresentou alguns estudos e há muito vem discutindo a diversificação da economia do Rio e principalmente da região, defendendo a melhoria do ambiente de negócios e apoio às reformas que o país tanto precisa. Em nossa região temos vocações natas com atividades centenárias como o setor sucroalcooleiro e a produção primária. São setores com ampla tradição e podem voltar a representar uma grande parte da economia regional. Claro, dependem de mercado, financiamento, tecnologia e demais fatores de produção, mas tem elevado potencial de geração de emprego e renda. Junto com estes setores tradicionais da atividade primária, a indústria de transformação local precisa fazer parte de um projeto de retomada e oxigenação, com disponibilidade de novas áreas industriais e uma significativa melhoria do ambiente burocrático e regulatório municipal. De uma maneira simplista, é preciso ter um novo olhar para as atividades que prosperam no município e não são diretamente ligadas ao petróleo. Isto não exclui evidentemente a atenção aos novos negócios e a própria atividade de Óleo & Gás, que ainda segue importantíssima para a região. Felizmente temos boas possibilidades de diversificação como a geração de energia e as oportunidades geradas pela proximidade com o Porto do Açu.

C24H – Como atrair empresas e investidores para geração de mais emprego e renda?

FERNANDO – Temos dito ao longo destes últimos anos que a concessão de incentivos fiscais é um ótimo instrumento para promover o desenvolvimento socioeconômico, a partir do estímulo à atividade empresarial. Com a guerra fiscal vigente, outros estados e municípios tem a sua política de atração e retenção, portanto, precisamos construir a nossa estratégia. Embora a instalação de uma empresa neste ou naquele município dependa de uma série de fatores, o incentivo fiscal certamente ajuda, mas não é definitivo. É preciso boas condições de infraestrutura e um ambiente de negócios favorável e pouco burocrático. Neste sentido, até uma educação de boa qualidade e bom atendimento à saúde são boas estratégias de atração. Não é por outro motivo que o IFDM (Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal) leva em conta estes fatores para classificar os municípios segundo os quesitos considerados importantes para a boa condição e desenvolvimento dos negócios. Ninguém quer investir onde não há segurança, saúde ou educação.

C24H – Quais os principais programas que devem ser implementados? Como apoiar o homem do campo com programas que ofereçam suporte técnico, qualificação e, também, linhas de crédito especiais?

FERNANDO – Neste campo, tomo emprestada as palavras de um consultor em recente diagnóstico da região, feito a pedido da Firjan. Ele apontou diversas causas para o atual estado da agricultura no Rio e, principalmente, em Campos e apontou alguns caminhos e soluções. Segundo escreveu Fabio di Giorgi em seu relatório “a grande questão é que a decisão de produção depende exclusivamente do produtor. Se este não tem tecnologia, capital, assistência técnica, visão clara de escoamento da produção e ideias de receitas, como poderá se inserir positivamente no processo produtivo? Quem está fora de cadeias de produção, não existe. É marginal”. O papel das prefeituras não é financiar o agricultor nem ofertar tecnologia, mas fazer bem o que é sua atribuição: conservar estradas e pontes, incentivar o consumo dos produtos na merenda, prover acesso à saúde e educação também nos distritos e áreas rurais, etc.

C24H – Como incentivar e capacitar micro e pequenas empresas e as cooperativas?

FERNANDO – O Sebrae tem bons programas de capacitação e sempre será uma boa fonte de formação de empreendedores. Também temos a Tec-Campos e movimentos da sociedade como a Onda Empreendedora com caminhos interessantes. Tenho visto na região um movimento empreendedor bastante vivo, sobretudo, na área de desenvolvimento de softwares e aplicativos. Este pode ser mais um caminho para explorarmos a capacidade dos jovens desenvolvedores e empreendedores da cidade. Temos vencedores de Hackathons e concursos nesta área e a cada dia se tem notícia de vencedores de editais de financiamento. Há uma cultura nova nascente na região que deve ser entendida e incentivada.

C24H – Como fortalecer o comércio em Campos?

FERNANDO  – Esta é uma boa pergunta que deixo mais para os meus colegas das entidades do comercio da cidade. Não há solução mágica num mundo de transformações sobretudo no varejo. CDL, ACIC e Carjopa são entidades que certamente podem contribuir com propostas concretas para a melhoria do ambiente de negócios neste importante setor da economia. As pressões externas do e-commerce e as novas tecnologias estão mudando a maneira de consumir, mas há boas iniciativas que podem ser totalmente compatíveis com o comercio tradicional. No campo público, o papel do município é relevante, mas nada que se faça de incentivo e apoio ao setor se sobrepõe à falta de objetividade fiscal ou excesso de burocracia. Não adianta dar com uma mão e tirar com a outra.

C24H – Como incentivar segmentos de Tecnologia da Informação e de Cultura Digital, estimulando a criação de produtos inovadores?

FERNANDO – Não sabemos direito como será o emprego do futuro, mas especialistas concordam que a educação será determinante para esta transição. O incentivo a estes segmentos tecnológicos começa com a formação de pessoas. Cada vez mais temos de incluir ferramentas de aprendizado que possibilitem a interação, o compartilhamento e uso intensivo de tecnologia. A Firjan Senai tem investido nesta cultura de inovação e trabalho em conjunto com a inclusão dos Fab Labs nas unidades de formação profissional. Esta cultura “maker” que mistura tecnologia e criatividade para soluções de problemas é uma ferramenta de ensino fantástica e que precisa ser mais difundida. Concurso e editais de inovação também são bons estímulos, mas sem uma boa educação na base, ficaremos contidos no salto tecnológico que precisamos dar.

C24H – Considerações finais.

FERNANDO – A economia do petróleo já deixou algumas marcas em nossa região. Algumas são positivas, mas infelizmente desperdiçamos muitos recursos dos royalties ao longo dos últimos anos. Aceitamos trocar royalties por salários, simplesmente porque deixamos de produzir e gerar riquezas em outras áreas. E agora que os ciclos diminuem e as incertezas aumentam, é mais do que necessário voltarmos as atenções para projetos estruturantes e vocações regionais, aumentando a produção de riquezas e gerando renda para a sociedade.