Bacellar queria abrir CPI após desembargador preso pedir a ele entradas para jogo do Flamengo

A Polícia Federal apontou que havia uma relação de “estreita” amizade entre o desembargador Macário Ramos Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2), e o deputado estadual licenciado Rodrigo Bacellar (União), presidente afastado da Assembleia Legislativa do Rio. Como prova, a PF cita uma conversa interceptada em que o magistrado pede ingressos para o jogo do Flamengo contra o Ceará, realizado em novembro deste ano pelo Brasileirão. Júdice Neto foi preso, nesta terça-feira, em sua casa, na Barra da Tijuca, a mando de Moraes. Dias depois do pedido, e na véspera de sua prisão, Bacellar disse querer instaurar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a questão e fazer uma “faxina sobre os ingressos do Maracanã”.

O desembargador e o deputado são investigados pela PF por supostamente vazar informações sigilosas de uma investigação em curso contra o ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos, conhecido como TH Jóias. Ele está preso pela suspeita de usar o mandato para favorecer o Comando Vermelho e foi transferido a uma penitenciária federal. Por ordem de Moraes, o desembargador foi detido preventivamente nesta terça-feira. Ele era o relator do inquérito do TH Jóias no TRF2 até que o caso subiu para o Supremo.

Na conversa entre Bacellar e Júdice dias antes de Flamengo x Ceará, o desembargador explica que o ingresso seria para o irmão e o sobrinho dele, “flamenguistas doentes”. Bacellar, então, diz que ele “vai dar um jeito” e lhe pede para ficar “despreocupado”. “Amanhã eu vou saber a carga que eu tenho exata que a Suderj (Superintendência De Desportos Do Estado Do Rio De Janeiro) vai me informar. Eu não vou mesmo, eu sempre fico de casa, entendeu? Eu gosto de ver jogo quieto”, completou.

Conforme as mensagens interceptadas, Bacellar respondeu que iria fazer de tudo para atender ao pedido. “Nem que eu arrebente o portão darei um jeito. Tenho juízo, meu padrinho”, escreveu ele.

O pedido de CPI
 
Na abertura da sessão de 2 de dezembro, dia anterior à sua prisão, Bacellar fez um efusivo discurso sobre a venda de ingressos. Ele disse querer abrir uma CPI e convocar o presidente da Suderj para explicar sobre a disponibilização das entradas no Maracanã. Segundo o presidente afastado, por jogo o governo estadual ganha 2 mil ingressos e que tinha recebido relatos de cambistas vendendo as entradas a R$ 1 mil para o jogo que o desembargador queria ir.

” Trazer aqui para começar a falar o presidente da Suderj para a gente saber de que forma são distribuídos esses ingressos. Também trazer o Procon, trazer todos os órgãos de fiscalização junto com a Assembleia Legislativa para a gente dar uma faxina nessa questão dos ingressos do Maracanã”, disse Bacellar.

 

A investigação
 
Segundo a PF, o desembargador se encontrou em uma churrascaria com Bacellar na véspera da operação que prendeu TH Joias, em setembro. No local, ele teria repassado informações sigilosas ao ex-presidente da Alerj, que informou TH sobre a operação que o atingiria, de acordo os investigadores.

Em nota, o advogado Fernando Augusto Fernandes, que faz a defesa do desembargador, afirmou que Moraes “foi induzido a erro ao determinar a medida extrema”. Ele também disse que “a defesa apresentará os devidos esclarecimentos nos autos e requererá a sua imediata soltura”.

A defesa do magistrado diz, no entanto, que esse encontro não ocorreu. “Se o deputado afirmou que estava com o desembargador Macário Júdice, a afirmação é mentirosa, e as câmeras de gravação do restaurante devem demonstrar”. A nota é assinada pelo advogado Fernando Fernandes.

Já a defesa de Bacellar afirma que o deputado “sempre se colocou à disposição para evidenciar seu não envolvimento nos fatos noticiados, prestando todos os esclarecimentos necessários”. A nota informa que o presidente licenciado da Alerj “tem cumprido todas as medidas determinadas” e “reitera que o parlamentar não atuou, de nenhuma forma, para inibir ou embaraçar qualquer investigação”.

*Fonte: O Globo