Temer se defende de acusações de delação: “Leviandade”

16/06/2016   11h07  |   Foto: Divulgação
Temer08O presidente em exercício Michel Temer (PMDB) contestou, nesta manhã de quinta-feira (16), as acusações feitas pelo ex-presidente da Petrobras Transporte S/A (Transpetro) Sérgio Machado em delação premiada. Temer quis registrar “em palavras indignadas” que é alvo de “leviandade”, em um ato mentiroso e criminoso, nas palavras dele. “Alguém que teria cometido aquele delito irresponsável que Machado apontou não teria condições de presidir o país”, comentou o presidente interino.

Na fala que durou pouco mais de cinco minutos, ele ressaltou que, ao longo dos últimos dias, tem praticado “os mais variados gestos com vistas a tirar o país da profunda crise em que mergulhou”, como a eliminação de ministérios, cargos de nomeação e comissionados. “Tivemos uma relação muito fértil com o Congresso e temos hoje uma paz parlamentar, que mostra que o pais está em harmonia”, disse.

Machado disse em depoimentos em delação premiada à Operação Lava-Jato que propinas de R$ 109 milhões beneficiaram 23 políticos de oito partidos — a maior parte fruto de recursos desviados da estatal. O PMDB, que bancou a indicação do ex-senador para o cargo de 2003 a 2015, ficou com 95% dos valores, segundo levantamento do Correio com base nas afirmações do colaborador: R$ 104 milhões.

Michel Temer, de acordo com a delação, obteve R$ 1,5 milhão em benefício da campanha eleitoral do ex-correligionário Gabriel Chalita para a Prefeitura de São Paulo, em 2012. Mas o dinheiro ainda abasteceu, por meio de doações de campanha ou pagamentos em espécie, políticos de PSDB, PT, DEM, PSB, PP, PCdoB e PDT.

Pouco depois da divulgação da delação, o líder em exercício publicou nota onde chamou a versão de Machado de “absolutamente inverídica”. “Em toda sua vida pública, o presidente em exercício Michel Temer sempre respeitou estritamente os limites legais para buscar recursos para campanhas eleitorais. Jamais permitiu arrecadação fora dos ditames da lei, seja para si, para o partido e, muito menos, para outros candidatos que, eventualmente, apoiou em disputas”, escreveu.

  • Relembre
    Nome de Temer aparece pela primeira vez em delação
    Temer e ChalitaEm seu acordo de delação premiada, o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado afirmou que o presidente interino Michel Temer negociou com ele o repasse de R$ 1,5 milhão de propina para a campanha de Gabriel Chalita (ex-PMDB) à Prefeitura de São Paulo, em 2012.

Machado afirmou que o acerto do repasse ocorreu em setembro daquele ano e foi pago por meio de doação eleitoral pela empreiteira Queiroz Galvão, contratada da Transpetro.

Segundo o delator, Temer pediu ajuda porque a campanha de Chalita estava com dificuldades financeiras. A conversa teria ocorrido numa sala reservada da base aérea de Brasília.

“Michel Temer então disse que estava com problema no financiamento da candidatura do Chalita e perguntou se o depoente poderia ajudar; então o depoente disse que faria um repasse através de uma doação oficial”, diz o documento de sua delação.

“[De acordo com Machado,] o contexto da conversa deixava claro que o que Michel Temer estava ajustando com o depoente era que este solicitasse recursos ilícitos das empresas que tinham contratos com a Transpetro na forma de doação oficial para a campanha de Chalita”, continua.

Machado disse que alugou um carro e que se identificou ao entrar na base aérea. As falas de Machado citadas na delação são uma explicação do delator sobre um diálogo gravado com o ex-presidente José Sarney, quando tratou do tema (veja transcrição abaixo).

OUTRO LADO

Na época da divulgação do áudio em maio, o presidente interino Michel Temer negou que tenha pedido doação a Sérgio Machado para a campanha de Gabriel Chalita. Ele disse também que não foi candidato nas eleições municipais de 2012 e não recebeu nenhuma contribuição. Michel Temer disse também que nunca se encontrou em lugar inapropriado com Sérgio Machado.

Procurado pela Folha, Chalita disse que, como manifestado anteriormente, não conhece e não tem nenhum contato com Machado. Ele disse ainda que nunca soube de um eventual pedido que teria sido feito pelo presidente interino.

MACHADO: Você acha que a gente consegue emplacar o Michel sem uma articulação do jeito que esta…
SARNEY: Não. Sem articulação, não. Vou ver o que acontecendo, vou no Michel hoje…

Como que para estimular a conversa, Machado revela que contribuiu com Temer, ajudando na campanha do “menino”, que para os investigadores é Gabriel Chalita, candidato à Prefeitura de São Paulo pelo PMDB em 2012:

MACHADO: O Michel presidente… lhe dizer… eu contribuí pro Michel.
SARNEY: Hum.
MACHADO: Eu contribuí pro Michel… Não quero nem que o senhor comente com o Renan… Eu contribuí pro Michel para a candidatura do menino [Gabriel Chalita, do PMDB-SP]… Falei com ele até num lugar inapropriado, que foi na base aérea.

Sarney aparenta preocupação com a revelação e quer saber se uma ajuda que ele próprio recebeu de Machado é do conhecimento de mais alguém:

SARNEY: Mas alguém sabe que você me ajudou?
MACHADO: Não, sabe não. Ninguém sabe, presidente.

Fonte: Folha de S. Paulo