A pandemia ainda não terminou, mas a volta às aulas nas redes municipal e estadual de ensino já é dada como certa, tendo sido anunciada no estado e em Campos, assim como em vários estados e municípios, após longa interrupção por conta do novo coronavírus. Mas o retorno dos alunos às salas tem sido alvo de dúvidas de pais, estudantes, professores e especialistas em educação, que levantam questionamentos e incertezas. O governo do Estado já anunciou a volta as aulas para o dia 1º de março. Em Campos, o prefeito Wladimir Garotinho (PSD) também adiantou que o esquema de volta às aulas será anunciado no dia 1º de fevereiro após a conclusão dos estudos do plano que está sendo elaborado pela Secretaria Municipal de Educação. Ele adiantou ao Campos 24 Horas que, possivelmente, será em sistema híbrido, com revezamento de alunos. O Sindicato Estadual dos Professores (Sepe) e o Sindicato dos Professores de Campos e São João da Barra falaram ao Campos 24 Horas sobre o assunto e se posicionaram de forma contrária à volta das aulas de forma presencial no estado do Rio, visto que os professores ainda não foram vacinados. Abaixo, mostramos também a resolução do governo do Estado com todas as diretrizes para volta às aulas.
Gestores e técnicos da Secretaria Municipal de Educação têm mantido permanente interlocução com a área da Saúde, especialmente a Vigilância Sanitária, a fim de acompanhar efetivamente as diretrizes do plano com a inclusão de medidas protocolares de proteção contra a Covid. (Leia mais abaixo)
NO ESTADO - No plano estadual, as diretrizes para uma retomada segura das aulas presenciais de alunos, professores e funcionários no Estado foram publicadas no Diário Oficial da terça-feira (26). A resolução estabelece normas para as escolas e orienta as redes municipais e privadas para que, em casos de bandeiras roxa ou vermelha no município, não haja ensino presencial.
Nos casos de bandeiras de risco laranja, amarela e verde, foram estabelecidos quantitativos máximos de atendimento presencial, levando em consideração a capacidade da unidade escolar. A resolução que incluiu as escolas no grupo de serviço essencial, enquanto durarem as medidas restritivas contra a Covid-19.
As bandeiras classificatórias de risco de todos os municípios serão atualizadas semanalmente, às sextas-feiras, pela Secretaria de Estado de Saúde, por meio do https://painel.saude.rj.gov.br/monitoramento/covid19.html.
CRITÉRIOS - Baseada em critérios técnicos das vigilâncias sanitárias, a resolução orienta que, no caso de bandeira laranja no município, a escola organize suas aulas presenciais para até 50% dos alunos da educação infantil e do ensino fundamental I (1º e 2º anos). Já na bandeira amarela, para até 75% do total de estudantes. Na bandeira verde, a escola pode acolher até 100% das crianças matriculadas.
O ranking quantitativo levou em conta todos os estudos que apontam que crianças até o 2º ano do fundamental fazem parte de um grupo com baixa incidência de adoecimento e capacidade de transmissão do vírus. O documento garante ainda aos responsáveis e alunos, quando maiores de idade, a opção de ensino exclusivamente remoto. (Leia mais abaixo)
Já nos ensinos fundamental I (3º ao 5º ano), fundamental II (6º ao 9º ano) e ensino médio, o número de alunos em sala de aula deve chegar até 35% do normal, no caso de bandeira laranja. Na amarela, até 50% da capacidade, e 100% de estudantes na verde.
VACINAÇÃO - A professora Odisséia de Carvalho, coordenadora do Sepe-Campos (Sindicato Estadual dos Professores) informou que a entidade se manifestou de forma contrária à proposta tanto do governo municipal e estadual e reivindica a imunização dos profissionais antes de entrar em sala de aula para suas atividades.
— O Sepe tirou indicativo de ser contrário, tanto na rede municipal como estadual, ao retorno das aulas presenciais sem que haja vacinação dos profissionais. Tivemos exemplos de países com mais recursos que o nosso e seguindo os protocolos, onde o retorno das aulas presenciais provocou a contaminação de professores e alunos. Isso também ocorreu em Manaus, onde houve a pressão do governo para as aulas presenciais e logo profissionais a alunos foram também contaminados. E deu no que deu, esse colapso que estamos presenciando — disse.
A coordenadora do Sepe disse ainda que a categoria manteve audiências com o secretários de Educação Comte Bitencourt (estadual) e Marcelo Feres (municipal). “Colocamos nossa posição de que não aceitamos este as aulas híbridas. Teremos com álcool em gel? Como fazer este trabalho de higienização se, inclusive, não temos estes profissionais nas escolas?”, questionou.
Segundo Odisséia informou ainda que o posicionamento do Sepe será levada numa audiência que Marcelo Feres terá com o prefeito Wladimir Garotinho nesta quinta-feira (28). “Dissemos que o que pode ser feito é a distribuição de material como apostilas, além de disponibilizar internet aos alunos e alunas, já que nem todos alcançam a rede de computadoresl”, finalizou. (Leia mais abaixo)
DESAFIO - Para o professor Fábio Siqueira, secretário geral do Sindicato dos Professores de Campos e São João da Barra (Sinpro) o retorno das aulas presenciais é um desafio importante a ser enfrentado pelos governos, mas sem precipitação nem açodamento.
— É preciso criar condições seguras, sem que profissionais da educação, estudantes e familiares fiquem expostos a um risco maior de contágio. Mas do ponto de vista da aprendizagem, o ano letivo de 2020 foi um desastre. Houve muita dificuldade de professores e alunos em se adaptarem à interação remota. Tenho muita insegurança quanto à eficiência dessa interação remota. A avaliação também fica bastante comprometida em sua eficiência real — analisou.
Fábio, porém, considera que todo esforço no sentido da retomada do ensino presencial com segurança é válido, o que pode inclusive significar rodízio de alunos por dias da semana com horário reduzido ou especial. “O híbrido me parece uma alternativa a curto prazo. No caso de profissionais com comorbidades não há outra alternativa a não ser a manutenção do home-office. No caso da escola pública, um gargalo importante que não foi bem resolvido em 2020 foi o acesso a internet e a equipamentos de forma a facilitar o acesso às plataformas, incluindo profissionais da educação. Fornecer a internet banda larga parece ser fundamental nesse esforço de volta às aulas para um melhor aproveitamento do ensino/ aprendizagem”, acrescentou.
O secretário Comte Bittencourt disse que o Estado precisa garantir a continuidade do ensino, evitando o prejuízo na aprendizagem de crianças e adolescentes no estado. “Estamos seguindo as indicações da Secretaria de Saúde, estabelecendo protocolos e tomando todos os cuidados para que professores, funcionários e alunos tenham segurança dentro das escolas. O que não podemos é tirar dos nossos jovens o direito ao acesso à educação”, afirmou.
Já o secretário estadual de Saúde, Carlos Alberto Chaves, ressalta que a retomada das aulas foi planejada com base em parâmetros técnicos. “As equipes da Vigilância em Saúde acompanham esse processo. Tudo está sendo feito com segurança para alunos e comunidade escolar”. (Leia mais abaixo)
SEM PREPARAÇÃO - O Conselho das Secretarias Estaduais de Educação afirma que os governos estão planejando a volta às aulas com base nos dados da covid-19 trazidos pelos comitês científicos locais. Mas especialistas em educação ponderam que quase 11 meses depois do início da pandemia, estados e prefeituras deveriam estar mais bem preparados.
— A essa altura já deveríamos ter em todas as redes de ensino o planejamento pronto, formação de professores, a avaliação dos alunos, os protocolos já registrados e com a formação dos profissionais pra executá-los. Então a gente tá atrasado, o Brasil é um dos países que mais permaneceram com escolas fechadas e infelizmente agora, no começo de 2021, a gente tem ainda famílias perdidas, secretarias estaduais e municipais sem um comunicado claro para as famílias, para os alunos, para a população ", diz a presidente-executiva do Todos pela Educação, Priscila Cruz.
FALTA DE COORDENAÇÃO - A ex-secretária de Educação de São Paulo, Cláudia Costin, argumenta que faltou coordenação entre o Ministério da Educação e o Ministério da Saúde como foi feito em outros países. Também diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais (CEIPE), a especialista lembrou que 190 países tiveram as suas escolas fechadas em algum momento da pandemia.
— A maioria por três meses, dois meses. E 30 países ainda estão com as escolas fechadas, como é o caso do Brasil. Nesses outros países, quem coordenou toda resposta educacional à Covid foi o Ministério da Educação em parceria com o Ministério da Saúde e isso, infelizmente, no Brasil não aconteceu. Nós vamos voltar com o vírus ainda no ar, segundo os epidemiologistas. Todos esses países que voltaram com o vírus no ar, e não é só na Europa, na África voltaram. Então vai ser muito importante discutir com os professores, com os pais dos alunos, inclusive fazer com que os pais sigam os protocolos, porque se essa criança chegar sem máscara à escola — e não é uma criança de educação infantil — ela pode estar transmitindo a doença. Então é importante que isso seja muito conversado com as famílias — concluiu Cláudia Costin.