'Violência no Rio atingiu índices iguais aos das grandes guerras pelo mundo', relata Caetano Veloso em carta entregue ao Papa Francisco

Documento traz os nomes de dez meninos e meninas mortos na cidade somente este ano. Famílias criticam ‘inércia do Estado’


  • 30/09/2023, 14h57, Foto: Divulgação.

Há menos de dois meses, o pedreiro Gilgres da Silva se despedia da filha Eloah da Silva, de 5 anos, morta com um tiro no peito dentro de casa, na Ilha do Governador, Zona Norte do Rio. Na última quinta-feira, o nome da menina foi mencionado pelo cantor Caetano Veloso em uma carta entregue ao Papa Francisco, no Vaticano, relatando que a violência no Rio “atingiu índices iguais aos das grandes guerras pelo mundo”. O pai de Eloah agradeceu a Caetano pela iniciativa e se emocionou ao afirmar que ficou feliz por a filha estar “sendo lembrada mesmo diante da inércia do Estado”.

Caetano citou na carta os nomes de dez crianças mortas a tiro este ano. Assim como Gilgres, parentes das outras vítimas criticaram a falta de resposta das autoridades em relação às investigações. (Leia mais abaixo)

— Me senti muito grata por estarem prestando solidariedade e, de uma certa forma, tentando proteger as que ainda estão aqui. Não tivemos ajuda, ninguém nos procurou, muito menos a polícia para tentar continuar a investigação. Graças a pessoas como o Caetano e o Papa, temos esperanças — disse Amanda Nunes, mãe do Lohan Samuel Nunes, de 11 anos, morto em abril na porta de casa, no Complexo do Chapadão. — Infelizmente, a revolta a gente não consegue tirar do coração. É como se a gente vivesse em um campo de guerra. Tenho uma filha menor que tem medo de ir para escola. Tivemos que nos mudar de onde moramos por segurança.

As vítimas da violência no Rio

‘Protegido por Deus’

Luis Felipe Alves, pai de Juan Davi de Souza, de 11 anos, também elogiou a iniciativa do cantor, mas diz que a saudade do filho, que morreu em 1º de janeiro com um tiro na cabeça na varanda de casa, em Mesquita, é imensa, assim com sua revolta:

— Se para uma criança não deram a mínima, imagina para outras coisas. A gente está sendo protegido por Deus porque o Estado não está nos protegendo de nada. (Leia mais abaixo)

A carta entregue ao Papa também foi um alento para Thamires Assis, que perdeu a filha, Ester, de 9 anos, em abril:

— Ainda não resolveram nada sobre o caso dela. A Promotoria ofereceu ajuda, mas desde junho não falam nada. Eu sinto um pouco de felicidade em saber que estão se lembrando da gente, mas meu coração de mãe está dolorido. Não consigo viver como antes.

‘Absoluta prioridade’    Hamilton Bezerra Flausino, tio de Thiago, de 13 anos, disse que a família ainda luta para provar a inocência do jovem morto na Cidade de Deus durante uma operação policial:

— Quando a gente se sente lembrado, acolhido, tira um pouquinho o peso da gente.

Na carta, Caetano cita ainda Rafaelly da Rocha Vieira, de 10 anos; Maria Eduarda Carvalho Martins, de 9; Jhenyfer Luz Silva de Souza, de 12; Yan Gabriel Marques, de 12; e Dijalma de Azevedo, de 11. (Leia mais abaixo)

“A lista de meninos e meninas mortos por armas de fogo na Região Metropolitana do Rio assombra”, escreveu o cantor. Ele disse ainda que “a chamada guerra às drogas até hoje não reduziu o comércio ou o uso delas. Mas o número de jovens, em sua maioria negros, mortos a bala não para de crescer”.

Em nota, a Polícia Civil informou que inquéritos que apuram as mortes de Rafaelly, Maria Eduarda, Yan Gabriel, Jhenyfer e Eloah foram concluídos e enviados ao Ministério Público. Os demais, diz o texto, “estão em andamento e em diferentes etapas de apuração”. Acrescentou que “é concedida absoluta prioridade em todos os procedimentos em que crianças e adolescentes figuram como vítimas”.

Fonte: Extra

 



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