A Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Costa Barros, na Zona Norte do Rio, permanece fechada, nesta terça-feira (7), uma semana após uma invasão de criminosos. No último dia 30, bandidos armados entraram no local, sequestraram uma ambulância, agrediram pacientes e ameaçaram funcionários. Desde então, a Polícia Militar vem reforçando o policiamento, mas as atividades ainda não foram retomadas.
A UPA fica próxima aos Complexos do Chapadão e da Pedreira, que enfrenta uma disputa entre o Comando Vermelho (CV) e o Terceiro Comando Puro (TCP) pelo controle das comunidades. No ataque à unidade há uma semana, os criminosos estariam procurando por baleados em um confronto de facções. Dois pacientes chegaram a ser agredidos e levados pelos bandidos, mas liberados em seguida. Os profissionais também sofreram intimidações e haviam 11 pessoas internadas no momento da invasão. Por conta da ação dos bandidos, a PM tem mantido o policiamento intensificado na região, com equipes do Comando de Operações Especiais (COE) e do 41º BPM (Irajá). Além disso, a corporação vem realizando operações nas comunidades, para coibir a atuação do tráfico de drogas, como a que acontece nesta terça-feira, no Complexo da Pedreira, controlado pelo TCP. Até o momento, três suspeitos foram presos na comunidade do Para-Pedro e três pistolas, um bloqueador de sinal GPS e drogas apreendidos. (Leia mais abaixo)
Na semana passada, o Chapadão, dominado pelo CV, também foi alvo dos militares por dois dias consecutivos. Apesar do reforço no policiamento, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) diz que aguarda a ocupação das forças policiais de forma permanente e a prisão dos criminosos que invadiram a UPA para retomar os atendimentos. Segundo a pasta, "muitos profissionais de saúde, devido ao pânico, já solicitaram transferência, suporte psiquiátrico e psicológico".
Em meio ao impasse entre a PM e a SMS, pacientes da região sofrem com a falta de atendimento. Moradora da comunidade do Quitanda, no Complexo da Pedreira, Mirela Sousa conta que na última sexta-feira (3) procurou a unidade para a filha de 12 anos, que não conseguia andar por conta de dores no corpo, mas encontrou as portas fechadas. A corretora de imóveis precisou da ajuda de um amigo para seguir com a menina até a UPA de Rocha Miranda. "Um absurdo, estamos sem atendimento. Sexta minha filha estava bem debilitada, sem poder andar, devido à dores no corpo, e como ela tem 12 anos já não posso mais levar no colo, então tive que pedir um amigo que é motorista de aplicativo para me trazer (para a UPA de Rocha Miranda) e nos levar para casa, onde chegamos já era 0h28 em casa. Com a UPA funcionando seria bem melhor, eu iria ia ser atendida e logo estaria em casa com ela", lamentou Mirela. "(É um sentimento) de revolta, porque está na constituição que temos direito à saúde, coisa que não estamos tendo o básico".
A cuidadora de idosos Thainá Cristina, que mora na mesma comunidade, também precisou de atendimento devido uma intoxicação alimentar. "Eu trabalho fora tomando conta de idosos, então não tenho muito acesso à celular e televisão, mas na sexta precisei de atendimento, fui para a UPA, que é próxima da minha casa, e para minha surpresa estava fechada", relatou. Ela diz ainda que um posto de saúde que funciona no mesmo espaço está fechado desde que as atividades foram interrompidas e não tem conseguido pegar os medicamentos para hipertensão.
"A gente que é morador de comunidade já sofre pelo tráfico imposto pelos bandidos, pelas incursões da polícia, que fecham nossas escolas e atrapalham nosso direito de ir e vir, sofremos discriminação. E agora não temos nem o direito a saúde, não temos mais direito aos medicamentos. Tive que comprar o medicamento, tive consulta cancelada. Minha sobrinha teve consulta de pré-natal cancelada, sem nenhum redirecionamento. Meu sobrinho teve uma crise de asma na madrugada e onde achar socorro? Tivemos que nos desdobrar e a gente mora atrás da UPA. É um descaso, estamos abandonados".