Atualizado: segunda-feira, 17 de novembro de 2014 - Foto: Campos 24 Horas
Postador por: Fabiano Venancio
Vai longe o tempo em que uma pessoa com problema mental de qualquer natureza tinha que ficar isolado da sociedade ou, então, preso em um hospital psiquiátrico, estigmatizado como “hospital de louco”, perdendo seus vínculos sociais e familiares. Hoje a nova política de saúde mental, surgida em 1990, mas que só tomou forma e força a partir de 2002, prega a desinstitucionalização e a deshospitalização.
Em Campos, desde 2009 essa nova política vem sendo cada vez mais colocada em prática, não só por vontade governamental, mas também pela demanda, levando-se em conta uma clientela que vai desde criança, passando por adulto, até pessoas da terceira idade. Para se ter uma idéia, entre as seis unidades especializadas para atendimento no município, apenas uma delas conta, somente este ano, com mais de 10 mil pacientes adultos (incluindo aí casos com drogas) que passaram ou estão nela para tratamento.
Imagina um universo de 10 mil pessoas com problemas mentais, somadas a mais centenas de pacientes infantis, outras centenas de pacientes idosos e por aí vai. O enfermeiro Luciano Reis Moreira, com pós-graduação em Cuba em Saúde da Família, pós-graduação em Psiquiatria, Educação e Saúde e Obstetrícia, é gerente de enfermagem de saúde mental, além de colaborador na montagem e implantação de projetos instituições municipais. Segundo ele, Campos é pioneira em vários programas e projetos na área, podendo dizer que o município está anos luz à frente de muitos outros da região e até mesmo da capital.
Confira a entrevista:
Campos 24 Horas – Porque você diz que Campos está muito à frente no caso da saúde mental?
Luciano Reis – Porque estou nessa área há tempo e acompanho o que acontece. Nós temos programas que não têm em nenhum município no estado e nem na capital, como o Consultório de Rua, implantado em fevereiro. Uma equipe multidisciplinar faz a abordagem em vários locais na cidade, a pessoas em situação de rua, que também podem ter problemas com drogas. A partir daí são encaminhados para Unidades Básicas de Saúde (UBS) caso precisem de tratamento clínico e os que apresentam problemas mentais ou usuários de drogas, para unidades da rede de saúde mental. Os uniformes que os profissionais usam aqui foram baseados nos dos profissionais de São Paulo, onde tem o programa. E tem mais, mais e mais...
C24H– Mais o que?
Luciano – Mais projetos e programas avançados. Posso começar citando a Unidade de Acolhimento Infanto-Juvenil (UAI), na avenida Sete de Setembro, que atua na reinserção social de crianças adolescentes até 17 anos, e no combate às drogas. Ela integra a Rede de Atenção Psicossocial e o Plano Emergencial de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas. Só existem duas UAIs no estado e poucas no país e Campos foi uma das primeiras cidades a implantá-la. Também posso falar da recém criada Associação dos Familiares, Usuários e Amigos de Saúde Mental, um avanço para ressocialização do paciente. E ainda posso citar a negociação de pactuação com hospitais para abertura de leitos a pacientes da saúde mental.
C24H– Vamos falar das unidades de atendimento ou acolhimento. Quais são?
Luciano – Olha, primeiro tenho que falar que todas as unidades têm atendimento com médicos, psicólogos, enfermeiros, entre outros profissionais. Temos o CapsIII, na Baltazar Carneiro, que funciona 24h com internação; CapsADIII, na José do Patrocínio, também 24h com internação, que atende álcool e drogas; CapsI-Infantil para crianças e adolescentes, sem internação; Caps-Guarus que não é 24h, onde tem todo atendimento dos demais, mais oficinas e grupos de convivência; Ambulatório São José, no hospital do mesmo nome, que faz o encaminhamento para os Caps; PU da Saldanha Marinho, que funciona como emergência em casos de surtos ou crises, até que o paciente se estabilize e seja encaminhado às unidades; Unidade de Acolhimento Infanto-Juvenil (UAI), que já foi citada e, em breve, Residência Terapêutica.
C24H– O que é Residência terapêutica?
Luciano – Ainda não está implantada, mas está nos planos da Secretaria de Saúde, sendo discutido e analisado. Ela será destinada a pacientes hospitalizados há anos, que não têm mais vínculos familiares e, por isso, não tem casa para voltar. Eles serão levados para essa Residência e ficarão em tratamento e acompanhamento constantes. Esse, embora ainda não esteja implantado, também é um projeto pioneiro na região e em todo o estado do Rio. Tudo dentro da nova política de saúde mental, de deshospitalização.
C24H– Você falou no início da entrevista em 10 mil pacientes que estão ou foram acompanhados esse ano...
Luciano – Sim. Este é um número redondo de atendimento este ano no CapsADIII, que trata também álcool e drogas e funciona 24h, também com internação. Estes passaram ou continuam com atendimento clínico, aliado aos trabalhos terapêuticos. Lá têm grupos e oficinas, desenvolvidos também com as famílias, o que é importante para a reintegração. E são trabalhos terapêuticos individualizados, cada um com um horário e na oficina da sua preferência, dando liberdade para eles arrumarem seu cotidiano.
C24H – E por falar em reinserção, isso se dá de forma abrangente?
Luciano – Olha, de certa forma todos são inseridos na sociedade. Na rede a gente mostra para eles seus direitos e deveres, atividades do dia a dia como de higiene pessoal, como ir a banco, apanhar um ônibus, entre outros. Tudo isso, porque para ser inserido na sociedade, você tem que ter dignidade e é isso que a gente trabalha. E a reintegração à família também é desenvolvida a partir das reuniões de grupos familiares, já que as pessoas temem, porque às vezes não o conhecem desta forma.
C24H – E todos os atendidos na rede são de Campos?
Luciano – Não, temos pacientes de São João da Barra, São Francisco do Itabapoana, São Fidélis, Conceição de Macabu, Quissamã, Macaé e até de outros estados. E todos esses municípios deveriam ter também esse tipo de atendimento que Campos tem, porque está na nova política de saúde mental, a implantação de programas e projetos específicos para esses pacientes. Todos eles deveriam e podem pactuar com o governo federal para isso e acabam não fazendo, sobrando para Campos segue as normas do Ministério da Saúde neste sentido.
C24H – Voltando a questão das ruas, são muitos pacientes com problemas de álcool e outras drogas, não?
Luciano – Não é que tenha mais paciente drogado ou com problema mental qualquer. É porque agora eles estão sendo atendidos e, a partir daí, passam a ser estatística. Eles estão sendo buscados, seja através do Consultório de Rua ou outro programa qualquer. Agora eles têm voz e muitos dizem: Eu quero ser tratado. Isso que a gente faz, esse trabalho, a gente não cuida só do nosso quadrado, mas também do quadrado do vizinho e de todo mundo. É menos um doente mental ou usuário, ambos sem tratamento, pelas ruas da cidade.
C24H – Trabalhar com saúde mental requer um pouco sair da “normalidade”, não?
Luciano – É um trabalho árduo, todos que fazem parte da equipe são como militantes, muito dedicados à causa. Mas quando a gente aprende a aceitar o outro do jeito que ele é, a gente se aceita muito mais...