domingo, 31 de maio de 2015 - Foto: Campos 24 Horas
Artigo
Andressa Amaral
Neuropsicopedagoga
Hoje trataremos de um tema que nos traz uma dicotomia de análise: a música como um instrumento terapêutico em casos de pacientes com problemas diversos de aprendizagem, sejam eles: problemas na fala, audição, escrita, além de hiperatividade, depressão, autismo, síndromes, dentre elas, a Síndrome de Down e outros.
Sabemos que apesar da música ser muito antiga em sua influência no comportamento dos indivíduos, visto que existe desde a antiguidade, esta ganha espaço no mundo acadêmico no último século e tem trazido resultados fantásticos em tratamentos terapêuticos. Tais benefícios extraídos através do trabalho terapêutico através da música se dão pelo fato da música ser um instrumento que consegue permear, ao mesmo tempo e ativar várias áreas importantes do sistema cerebral, atuando nas relações de equilíbrio e autorregulação do comportamento humano.
Para entendermos mais sobre o assunto, convido a Psicóloga Gisela Paes, especialista em saúde mental e música que irá esclarecer aspectos importantes acerca do tema.
Andressa Amaral: Por que a música é um recurso tão eficaz no tratamento de crianças e adolescentes com dificuldades de aprendizagem?
Gisela Paes: A música tem uma grande importância porque a mesma possui propriedades que possibilitam experiências e vivências destinadas à formação da criança e do adolescente. Ela é formada de som, ritmo, melodia e harmonia que desenvolvem a inteligência e a criatividade, assim como a memória e a imaginação. Ela funciona como um estímulo cerebral natural que atua diretamente na concentração do indivíduo, o que propicia benefícios em relação à aprendizagem. Eu sempre digo que a música pode resolver não somente a demanda do momento, mas ela vai além, pois atua também nas questões que provavelmente não atrapalhe aquele indivíduo no presente, mas que pode resultar no futuro.
Andressa Amaral: Já se sabe que a terapia com música ajuda muito para crianças hiperativas. De que modo a música age nestes casos?
Gisela Paes: No primeiro momento a mesma tem a função de trazer relaxamento. A criança precisa sentir prazer naquele ambiente sonoro, pois dessa maneira sua atenção estará mais propícia para aquela atividade. É nesse momento que os sons são trabalhados com o objetivo de trazer a criança maneiras de aprender, seja com jogos de palavras musicais, ritmos para execução seguindo um critério, onde aprenderão a acompanhar com melodias (nomes das notas )para memorizar, por exemplo, além de trabalhar o equilíbrio e mecanismos de regulação do cérebro o que propicia à criança hiperativa, que não consegue se concentrar, um novo caminho, no momento que estas crianças começam aprender a ouvir, sentir, e consequentemente se autorregularem
Andressa Amaral: Quais os tipos de transtorno podem evoluir de forma positiva através da terapia com música?
Gisela Paes: O trabalho terapêutico com a música é indicado para as mais variadas demandas. Na minha experiência profissional, já obtive grandes resultados com crianças, em especial, posso citar as crianças com TDAH que não conseguiam de maneira nenhuma se concentrar (mantendo a atividade) e também de parar para realizá-la, pois eram extremamente inquietas. Hoje a partir do trabalho realizado, vejo muitas dessas crianças que já são pré-adolescentes independentes nas suas atividades escolares, onde conseguem aprender sem a dificuldade outrora. Posso citar também o transtorno de ansiedade generalizada e o transtorno de humor, onde proporciona para o indivíduo muito relaxamento. Já tive e tenho até hoje grandes resultados com crianças, adolescentes e idosos com algumas deficiências como Síndrome de Down, também autistas e deficientes auditivos. Com este último também é realizado o trabalho terapêutico com a música, pois os mesmos sentem a vibração. É fantástico o resultado!
Andressa Amaral: E em casos de autismo como a música pode ajudar?
Gisela Paes: Com autistas, é muito importante a terapia com música porque eles necessitam do movimento que a música traz. Como possuem dificuldades na comunicação, primeiramente se trabalha as emoções, para que haja uma interação paciente-terapeuta para depois alcançar as reações físicas. Estimulam-se assim os movimentos sejam eles rítmicos (instrumentos de percussão ou o próprio corpo) ou melódico (no teclado ou na voz).
Andressa Amaral: Sabemos também da grande eficiência do trabalho terapêutico através da arte e da música em casos de Síndrome de Down. Por que esses resultados são tão positivos nestes casos?
Gisela Paes: As pessoas com Síndrome de Down, tem uma relação muito interessante com o som. A facilidade que eles possuem para interagir e a identificação com a música é algo que traz muitos benefícios, pois ajuda não só na área cognitiva, mas também na socialização e na autoestima. Ao perceberem que podem emitir um som de um instrumento ou cantar seja individualmente ou em grupo, ficam muito felizes, pois se sentem valorizados e importantes, o que acaba trazendo resultados positivos para o desenvolvimento
Como a música atua nas funções cerebrais?
R: Cada vez mais estudos tem sido realizados no campo da neurociência a respeito da música. Sabe-se que o estímulo musical aumenta as funções cerebrais, influenciando na percepção, atenção, memória, nas funções executivas como processar e reter informações, resolver problemas, regular comportamentos. De fato a música quando estimulada no indivíduo contribui positivamente, se estendendo até a vida adulta. Além da música atingir a rede neural do cérebro, ela também afeta a frequência cardíaca, respiração, pressão sanguínea, digestão, equilíbrio hormonal, ritmos do corpo humano, humores e atitudes. A enorme influência da música sobre os aspectos físicos, mentais, e emocionais de nosso corpo acontecem de forma surpreendente.
Andressa Amaral: A terapia através da música estimula a produção de alguns hormônios? Quais?
Gisela Paes: Sim, claro! Segundo estudos, a dopamina é liberada no momento da intensidade da emoção e do prazer ao escutar a música. Porém, não são todas as músicas que causam “bem estar” e sensação de relaxamento. Alguns músicas podem causar sensação de incômodo e angústia, onde o efeito será negativo, passando longe da sensação que deveria motivar o cérebro! Por isso a importância do trabalho realizado por profissionais que de fato saibam utilizar o recurso musical.
Agradeço a oportunidade de tê-la como companheira de trabalho e como convidada em nossa série de reportagens, visto que através desta entrevista tão esclarecedora, nos é possível entender que existem caminhos naturais que possibilitam que o próprio organismo seja estimulado a ativar funções cerebrais e hormonais que por vezes estão em desequilíbrio em casos de transtornos do neurodesenvolvimento como tratamos acima.
Outra questão muito importante é que os educadores comecem a utilizar o trabalho com música como um recurso de mediação didática, de modo a permitir que seus alunos que encontram limitações diversas possam ser beneficiadas.
(*) Em caso de dúvidas e sugestões, eu e minha equipe estaremos à disposição para responder a todos, através do email: [email protected].
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