06/12/2015 01hh37 - Foto: Campos 24 Horas
Postado por: Fabiano Venancio
Os sintomas de três tipos de doenças, transmitidas por um mesmo vetor, o mosquito aedes aegypti, também são quase os mesmos, por vezes, de acordo com especialistas, tornando o diagnóstico difícil de ser fechado. Assim é a Dengue, a febre Zika e a febre Chikungunya (palavra que significa aquele que se encurva ou se retorce), doenças das mais temidas hoje, levando-se em consideração que causam uma série de problemas, podendo levar à morte. E se a paciente estiver grávida então, o problema toma dimensões ainda muito maiores, podendo o bebê nascer com microcefalia. Mas os problemas não param por aí. Existe a suspeita de que portadores da Zika vírus podem apresentar outra doença, a Síndrome de Guillain-Barré, doença autoimune que ocorre quando o sistema imunológico do corpo ataca parte do próprio sistema nervoso por engano. Isso leva à inflamação dos nervos, que provoca fraqueza muscular.
E para piorar a situação, no país ainda não se tem exame para sorologia no caso da Zika e, aí, a resposta precisa é através de diagnóstico clínico ou por exclusão. Ainda falando em Zika, existe o falso positivo da dengue que, somente depois de bem analisado, se conclui o resultado. Tudo isso dificulta muito o diagnóstico, segundo um dos profundos conhecedores do assunto, já com dois livros editados, voltados para médicos, acadêmicos e demais profissionais da área de saúde, o clínico geral, presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica/Regional-RJ, Luiz José de Souza, que é professor e, também, coordenador do Centro de Referência da Dengue (CRD) de Campos, agora Centro de Referência de Doenças Imuno-infecciosas (CRDI).
Mas, em meio a tantas mortes já constatadas por dengue e tantas suspeitas de Zika e chikungunya, surgem duas discussões. A primeira é que não basta este município ter um exército de agentes de endemias nas ruas, um Centro de Referência de Dengue, aliás, o único no Estado, investir pesado em saneamento básico, entre outras ações, se os municípios vizinhos também não fizerem sua parte. A segunda é que o combate ao aedes aegypti também é uma questão de educação, já que mesmo com mortes e suspeitas de doenças e, ainda. o governo fazendo sua parte, as pessoas continuam a jogar lixo nos terrenos e até nas ruas. E outras, continuam guardando em seus quintais, latas, vasos de plantas com água, piscinas e caixas d'água destampadas, pneus, entre outros. E agora, José?
Confira a entrevista:
Campos 24 Horas – Primeiro vamos falar dos sintomas de cada uma das três doenças, que são muito semelhantes, não? Vamos começar com a dengue...
Luiz José – Sim, os sintomas são bastante, confunde mesmo as pessoas. No caso da dengue, que no Brasil, de 2002 a 2014, acometeu 7,4 milhões de pessoas e fez 4.310 óbitos, o paciente tem febre, dores de cabeça, nos olhos, pelo corpo e nas juntas, além de manchas avermelhadas na pele. E a dengue evolui com alguns sinais de alerta, como dor abdominal, vômito persistente, pressão baixa e sangramentos. E esses sinais de alerta não existem nas outras duas doenças, Zika e chikungunya.
Campos 24 Horas – Agora fale sobre os sintomas da chikungunya...
Luiz José – No caso da chikungunya, além dos sintomas que vou citar, o paciente pode também ter os outros sintomas da dengue. Com chikungunya o paciente tem febre alta e o principal sintoma são as artrites, as dores nas articulações, sempre em duas, ou seja, ou nos dois punhos, ou nos dois joelhos, entre outros. E isso com edema e dor, semelhante a um reumatismo.
Campos 24 Horas – E os sintomas da Zika?
Luiz José – Febre baixa, lesões de pele no corpo todo como se fosse uma alergia e acompanhado de muita coceira, além de dor no corpo. Como eu já disse, não tem exame de sorologia ainda, mas nas grávidas se faz o exame molecular, realizado na Fiocruz, no Rio, até o 5º dia. E as nossas grávidas são acompanhadas pelo obstetra e pelo Centro de Referência da Dengue na condução do diagnóstico e, depois, pelo pediatra do Hospital dos Plantadores de Cana.
Campos 24 Horas – E quando a paciente grávida souber de fato que está com Zika?
Luiz José – Se fechado o diagnóstico, é feito acompanhamento da mãe até o parto, para que não aconteça nada com ela. Neste caso é o feto que será afetado. A partir da 12ª semana aparece alguma deformidade neste feto, mas a alteração morfológica é a partir da 23ª semana.
Campos 24 Horas – Toda grávida com Zika terá criança com microcefalia? Quais são as consequências da microcefalia?
Luiz José – Ainda não se sabe se toda grávida com Zika terá bebê com microcefalia. A microcefalia é uma doença em que a cabeça e o cérebro da criança é menor que o normal para a sua idade, influenciando o seu desenvolvimento mental. A grosso modo podemos citar dificuldade de andar, dificuldade de raciocínio, deficit da função cerebral, pode a criança ter crise convulsiva, entre outros problemas, ou seja, essa criança terá que ter acompanhamento pelo resto da vida.
Campos 24 Horas – Qual a importância de um município ter um Centro de Referência da Dengue, como tem em Campos?
Luiz José – Faz toda a diferença. Tem como objetivos, melhora da notificação em todo município, realização de diagnóstico preciso e precoce (com diagnóstico precoce, a recuperação do paciente é bem mais rápida), maior vigilância epidemiológica, eficiência no combate ao vetor e o mais importante, evitar mortes. E agora o CRD chama-se Centro de Referência de Doenças Imuno-infecciosas (CRDI).
Campos 24 Horas – Vamos falar de casos específicos de dengue. Quantos óbitos de 2002 a 2015 em Campos? E quantos casos confirmados hoje?
Luiz José – Neste período de 13 anos tivemos 12 óbitos registrados por dengue. Só agora em 2015 são 3.467 casos confirmados, além de 7 casos suspeitos de Zika e 3 casos suspeitos de chikungunya. A incidência maior de casos de dengue foi de março a novembro. O que a gente pede é que as pessoas redobrem os cuidados, façam mutirões em seus bairros, sejam vigilantes no dia a dia. Como já falei, não adianta só o governo fazer, as pessoas também têm que colaborar.