Saudades de Adalberto, o maestro soberano do Enea do Americano


  • 26/01/2025, 10h59, Foto: Divulgação .

"Saudades de Adalberto" é um título (agora mais do que atualíssimo) de um dos capítulos do livro "Em Cima do Lance", do jornalista Péris Ribeiro, ao traçar um perfil dos grandes craques e talentos que viu pelos gramados de Campos e pelo mundo afora. Saudades de um tempo quando Adalberto (que acaba de nos deixar, aos 79 anos) desfilava seu futebol de luxuoso requinte e puro talento na armação das jogadas e arremates mortais ao gol naquela antológica máquina de jogar futebol, o Americano da segunda década de 1960, até o culminar do ciclo com a conquista do histórico e inédito Eneacampeonato Campista. "O futebol, fonte direta das minhas angústias e prazeres, revelou-me, certo dia, a alegria de conhecer a bola redonda de Adalberto, meio-campista do Americano FC", escreveu o cronista, considerado o papa da crônica esportiva na planície goitacá. Continua ainda Péris Ribeiro : "Passadas largas, estilo cadenciado, portava-se ali, pela meia-cancha como um autêntico maestro a reger, imperturbável, os caminhos para as consagradoras vitórias alvinegras. E fazia isso, asseguro-lhes, com a mesma naturalidade de quem sorve um simples picolé na sorveteria da esquina". No mesmo texto, o igualmente extraordinário e já saudoso zagueiro Zé Henrique, outro importantíssimo personagem daquele enea e também do livro, comentou sobre o colega daquele esquadrão de Parque Tamandaré. "Por ser o tipo de jogador capaz de se adaptar com facilidade às exigências do futebol moderno, por vezes atuava como um autêntico cabeça-de-área, quando a situação assim exigia, mas sempre mantendo aquela visão de jogo que ele tinha. E quando saía dali para jogar com o ataque, sabia a hora exata de decidir o jogo, de mudar o rumo da partida", explicou Zé. Ilustre Eneacampeão pelo Americano, continua Péris, um título inédito na era do profissionalismo no futebol brasileiro, mesmo assim Adalberto acabou deixando-se ficar por aqui. "Por ironia do destino, gastando seu talento diante de certos jogadores que, certamente, não teriam a destreza sequer para amarrar suas chuteiras", acrescenta o cronista. E arremata: "Fiquem certos de uma coisa: felizes e abençoados somos nós que durante 12 anos pudemos ver de perto os truques do refinamento de um verdadeiro artista da bola". "Olha, pode parecer difícil à distância. Mas o segredo é bater na bola bem aqui embaixo, mas com jeito e um pouco de força. A calma na hora de pensar um lance também ajuda. Aí não tem mistério ", contava o meia ao jornalista ao final de um treino no velho Estádio Godofredo Cruz, igualmente de afetivas e gratas lembranças. Como se fossem ações triviais aquelas certeiras e mágicas enfiadas de bola de 40 metros ou aqueles dribles que misturavam uma fina elegância à capacidade de improvisação do futebol-arte-moleque bem brasileiro. "E o que dizer, maestro Adalberto, daqueles chutes sem apelação para o goleiro com a bola venenosa chicoteando o ar em plena linha do descompassante contrapé do goleiro Tuiú, do brioso Sapucaia?", recorda o jornalista. Por fim, arremata Péris, no complemento de um texto escrito há 25 anos que rememora saudades do seu futebol-arte, mas parece atual e coincide com os dias seguintes à ausência física do craque alvinegro entre nós deste a última quinta-feira. "Maestro e amigo Adalberto... Eis aí uma saudade que me machuca o peito. Mas, como o bálsamo, parece capaz, de repente, de levitar-me em sonhos. Como se estivesse vendo-o ali, agora, a flanar pelos campos com o seu imenso talento com a bola, sempre cativa, aos pés".



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