São João da Barra com porto e royalties, mas sem infraestrutura

Moradores dão desabafo e situação do município é avaliada por professor da Uenf


  • Atualizado em 18/10/2021, 14h03, Foto: reprodução/Campos 24 Horas.

São João da Barra alcançou projeção nacional pela fama de seu conhaque e a aguardente cujo nome faz alusão às praias do seu litoral. Nos últimos anos, porém, o município ganhou as páginas da imprensa nacional com o megaempreendimento no Açu. Entretanto, o fato de sediar o maior porto privado da América Latina e a condição de produtor de petróleo não tem gerado dinamismo à sua economia e proporcionado melhores condições de vida e bem estar à sua população.  Entre as vozes dissonantes na contramão do ufanismo do discurso oficial, o professor Alcimar Chagas Ribeiro, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) avalia que o complexo portuário não trouxe maiores benefícios na geração de postos de trabalho para os sanjoanenses.  O Campos 24 Horas mostra a opinião do professor da Uenf e de vários moradores que se mostram insatisfeitos com o atual cenário do município.

“Não há dúvida que o Porto do Açu é um empreendimento importante para o Estado e o próprio País, mas contribui muito pouco para a população em seu entorno. Há muitos trabalhadores que vêm de fora, enviando a maior parte doe seus salários para as suas famílias nas suas cidades de origem. Outros moram em Campos, que oferece condições melhores em serviços”, pondera o economista.  (Leia mais abaixo)

“Você tira conclusões quando vê trabalhadores hospedados em nossas pousadas mas que vêm de fora, não moram em São João da Barra”, constata. 

EMPREGOS - Ainda quanto à empregabilidade, Alcimar Chagas expõe números do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) do Ministério da Economia deste ano e frisa que, de janeiro a agosto deste ano, São João da Barra registrou saldo negativo com 129 vagas eliminadas. 

“E num período de recuperação do emprego, quando o município do Rio de Janeiro liderou os números positivos no Estado com um saldo de 43.821 vagas, seguido de Macaé com um saldo de 6.704 vagas e Niterói com 4.358 vagas criadas”, lembrou.

Os discursos dos executivos do porto do Açu veiculados pela comunicação corporativa do empreendimento de que 80% dos trabalhadores são da região não convencem ao professor da Uenf. 

“No tocante a São João da Barra isso não pode ser verdade já que esses empregos não refletem no comércio do município. Em 2016 o comércio local eliminou 130 empregos; em 2017 eliminou 47 empregos; em 2018 criou 4 empregos; em 2019 criou 39 empregos, mas em 2020 eliminou 11 empregos, segundo o Caged”, mostrou. (Leia mais abaixo)

“Com isso, fica evidente que o porto absorve muito pouco dos trabalhadores de sua sede, além de não absorver nenhuma parcela relevante de fornecimento das empresas locais”, complementou. 

INDIGNAÇÃO NAS REDES - Mas o poder público também contribui com sua parte neste inventário de carências injustificadas. Nas redes sociais, moradores demonstram também indignação com a prefeita Carla Machado (PP) na gestão do Orçamento anual de mais de R$ 400 milhões, turbinado pelos royalties e cerca de R$ 90 milhões de ISS do porto. Com problemas de infraestrutura, como esgoto a céu aberto, deficiências na iluminação pública e carências sem solução na saúde, muitos pensam em se desfazer de seus imóveis no município.

“Muitas ruas sem luz ou calçamento, não temos hospital, mas ambulâncias de resgate para levar os doentes graves para Campos dos Goytacazes. Meu filho machucou o joelho no mar e após o raio X voltou para casa para marcar uma ressonância cem Campos. Vamos pagar porque a cidade é pobre e não tem como comprar lâmpadas para iluminar as ruas, imagina para pagar uma ressonância”, ironiza Sheilla Rocha. 

Gustavo Viana também conta que desistiu e pensa em se desafazer do seu imóvel. “Já coloquei minha casa à venda, não tem como. Tudo que eu gosto em minha terra está se perdendo com o tempo. Há tempos que somos governados pelo descaso”. 

VERGONHA - Joaquim Gomes diz que hoje se envergonha do que foi para ele sempre um orgulho. “Sempre tivemos orgulho em sermos sanjoanenses, mas hoje tenho vergonha morar numa cidade rica e abandonada por políticos que só se interessam por cifras e mais cifras, com poucas exceções. Tenho nojo dos demais”.  (Leia mais abaixo)

Décio Coimbra afirma que “entra ano e sai ano, nada melhora para a população. Já os políticos ficam cada vez mais ricos. O sistema é perverso”. 

Para Augusto Campos, “a população está cansada dessa administração pública que não muda”. 

MAUS POLÍTICOS - Já Salvador Adilson Tavares entende que a solução é mandar de volta para casa os maus políticos, mas culpa parte da população. “Infelizmente parte de nossos conterrâneos estão presos ao Bolsa Família e Cartão Cidadão e sem nenhum expectativa de um mundo melhor! Primeira coisa a fazer é eliminar os maus administradores!”, desafia. 

“Amo minha terra mas tenho que morar longe dela. São João da Barra, pelo dinheiro que entra aí era pra ser um município top”, opina Ezonete Bueno.

Alcimar Chagas arremata. “Esse é o problema. Boa parte da população é subordinada, dependente e tem medo; outra parte se beneficia e aplaude, enquanto a outra parte que não se sente representada e pensa, não pode fazer muita coisa. Com esgoto a céu aberto, sem calçamento, iluminação, emprego e comércio pífio... Os que têm sua casa pensa em se desfazer do imóvel. É duro!”, finaliza.   (Leia mais abaixo)



fique bem informado