Atualizada em 30/01 às 15h07 - O abastecimento da Grande São Paulo pelo Sistema Cantareira atravessa o início de 2026 sustentado pela transferência de água entre bacias, compensando um déficit na captação local. Se dependesse apenas das chuvas em sua bacia natural, o sistema receberia cerca de 17 mil litros de água por segundo, volume inferior à saída de 23 mil litros necessária para o abastecimento público. Esse descompasso diário é coberto pela transposição das águas da Bacia do Rio Paraíba do Sul, manancial que é a espinha dorsal do abastecimento do Estado do Rio de Janeiro.
A operação ilustra um possível cenário de "cobertor curto" no Sudeste. Para evitar o colapso em São Paulo, o sistema exige uma retirada de água da cabeceira do rio federal justamente no momento em que a bacia doadora também enfrenta seu pior verão em anos. Dados dos boletins da Agência Nacional de Águas (ANA) de 20 de janeiro demonstram a desproporção: a entrada natural de água no reservatório Jaguari (na bacia do Paraíba do Sul) foi de apenas 16 m³/s — cerca de 35% da média histórica. Deste montante, 8,43 m³/s foram desviados para o Cantareira. Na prática, mais da metade da água que entra na cabeceira do sistema é transferida para o planalto paulista. (Leia mais abaixo)
O cenário não indica colapso iminente, mas impõe um desafio de gestão em um contexto climatológico atípico. Ao contrário da crise de 2014, o verão de 2026 é marcado por bloqueios atmosféricos que impedem a chegada de chuvas volumosas às cabeceiras dos rios, embora pancadas ocorram nas áreas urbanas.
— O pico da estação chuvosa deveria ser dezembro, janeiro e fevereiro, e janeiro já está terminando e não tem chovido o esperado. Quando eu digo esperado, não é volume esperado, mas lugar esperado, porque essas chuvas caem muito bem aqui nas áreas urbanas de São Paulo e outras cidades, mas o que cai no Cantareira mesmo, no reservatório, é pouco — explica José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Para o climatologista, o sistema ainda sente o "arrasto" de uma redução de volume que vem desde a crise de uma década atrás, exigindo cautela contínua. A opinião é compartilhada pelo coordenador de operações do Cemaden, o meteorologista Marcelo Seluchi, que afirmou em entrevista ao GLOBO na última segunda-feira que a chuva prevista para os próximos dias não será suficiente para alterar a situação crítica de escassez em que se encontram o Cantareira (SP) e o Paraíba do Sul (SP/RJ).
O problema, portanto, não está em um evento extremo isolado, mas na dificuldade crescente de recompor estoques em um sistema que passou a operar permanentemente no limite, cada vez mais dependente de fontes externas.
A gestão desse recurso compartilhado acende luzes de alerta diferentes dependendo de onde se olha o rio. Nas cabeceiras, o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (CBH-PS) monitora com rigor a queda dos níveis dos reservatórios, essenciais para garantir a regularidade do rio ao longo do ano. Renato Traballi Veneziani, presidente do comitê, aponta que, embora o volume transposto para São Paulo seja pequeno se comparado à vazão total do rio na foz, o momento exige parcimônia. (Leia mais abaixo)
— O reservatório está baixo desde 1998. Em 2014, quando ajudamos, nós não estávamos com os níveis baixos como os de hoje. É um sinal de alerta, pois caso o governo de São Paulo decrete uma crise hídrica, temos uma linha de corte em 24% dos nossos reservatórios. Se chegarmos nesse ponto, a situação vai ser pior e demandará uma revisão com a ANA para priorizar o abastecimento humano. Isso pode exigir sacrifícios de outros setores econômicos se a estiagem persistir — pondera Veneziani.
Sobre a dependência estrutural do Cantareira em relação à bacia vizinha, o Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (CEIVAP) ressalta, em nota, que a obra não deve ser vista como solução única.
— A transposição foi homologada após a crise de 2014–2015 e deve ser compreendida como parte de uma estratégia integrada de gestão, não se configurando como solução permanente nem substitutiva aos investimentos estruturais necessários. A segurança hídrica de longo prazo depende da diversificação de fontes — informou o CEIVAP.
Mesmo com os níveis baixos dos reservatórios do Paraíba do Sul, a avaliação técnica afasta, por ora, risco de desabastecimento no Rio de Janeiro. Na Região Metropolitana, cerca de 11 milhões de pessoas dependem direta ou indiretamente do rio, por meio dos sistemas Guandu e Ribeirão das Lajes. (Leia mais abaixo)
Dados da ANA indicam que a vazão natural em Santa Cecília, ponto de tomada d'água para o sistema Guandu, está em 151 m³/s. Para o presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES-RJ), esse número oferece uma margem de segurança confortável para o Rio em relação à demanda real de tratamento.
— A vazão que é aduzida hoje, ela não é fator de desequilíbrio para o Guandu. Agora, se for necessário aumentar, a ANA deverá proceder com os estudos necessários para a manutenção do equilíbrio hidrológico. Em um cenário de emergência, os três estados envolvidos vão precisar participar e discutir as providências, mas isso é no futuro — defende o presidente da ABES-RJ.
O papel da regulação - A divergência de percepções — preocupação com o estoque nos reservatórios versus tranquilidade com a vazão na foz — reforça o papel central da Agência Nacional de Águas (ANA) na mediação do uso dos recursos. O cenário atual não aponta para conflitos interestaduais, como ocorreu no passado, mas segundo a agência informou em nota, a operação é monitorada permanentemente para conciliar "o atendimento aos usos múltiplos da água e a segurança hídrica dos dois estados".
“Medidas temporárias e preventivas podem ser discutidas tecnicamente quando há indicação de período úmido desfavorável, com base em monitoramento hidrológico, projeções e avaliação de risco. Nesses casos, o objetivo é reduzir impactos para os dois sistemas e preservar condições mínimas de segurança, considerando o papel do Paraíba do Sul no abastecimento do Estado do Rio de Janeiro”, diz a nota da ANA.
Apesar da semelhança numérica com os níveis críticos de 2014, a Sabesp argumenta que a infraestrutura hoje oferece mais segurança. Samanta Souza, diretora de Relações Institucionais e Sustentabilidade da Sabesp, explica que a integração entre represas mudou o cenário: (Leia mais abaixo)
— Se nós não tivéssemos feito a transposição do Jaguari-Atibainha e a inclusão de um novo sistema, que é o Sistema São Lourenço, nós não teríamos saído da reserva técnica. Hoje, depois de muito investimento em integração, nós chegamos a quase 14 m³/s de transferência de água entre sistemas, o que possibilita trazer água do Alto Tietê ou do Guarapiranga e preservar o Cantareira — detalha a diretora.
Enquanto a chuva não vem, a Sabesp aposta em medidas operacionais para evitar um racionamento mais drástico, priorizando a redução de pressão na rede durante a madrugada.
— O que é economizado só com a gestão da demanda noturna corresponde aproximadamente ao abastecimento da cidade de São Paulo inteira durante um mês. Vamos evitar ao máximo chegar no nível de rodízio porque traz muito impacto para a população — conclui Samanta Souza.
Fonte: O Globo