Reflexo em Campos com etanol dos EUA no mercado brasileiro

Diretor de usina e economista falam ao Campos 24 Horas sobre o assunto




15/09/2020, 15h59, Foto: Divulgação.

O presidente Jair Bolsonaro cedeu e renovou a importação de etanol dos Estados Unidos sem imposto. Uma vitória para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em ano eleitoral. Quinze dias depois de os Estados Unidos reduzirem a quantidade de aço que eles compram do Brasil com tarifas mais baixas, o governo brasileiro decidiu facilitar a entrada do etanol americano. Pelos próximos três meses, os produtores norte-americanos poderão vender até 187,5 milhões litros de etanol sem pagar imposto no Brasil. Essa facilidade já existia, mas a regra tinha terminado em agosto. A cota foi renovada agora. A decisão contraria o pedido feito por produtores brasileiros do setor, que estão com estoques de etanol bem acima da média porque houve redução de consumo do combustível em decorrência do isolamento social necessário durante a pandemia. A respeito do assunto, o Campos 24 Horas ouviu o diretor presidente da Nova Canabrava Destilaria, Rodrigo Luppi de Oliveira e o economista campista Ranulfo Vidigal. (leia mais abaixo)


O economista Ranulfo Vidigal demonstrou preocupação com o setor na região, a partir da decisão do governo brasileiro, que no seu entendimento representa uma concorrência predatória no justo momento em que o segmento buscava recuperar a rentabilidade, além expandir a produção e gerar mais empregos no Norte Fluminense.  


— A primeira questão a ser destacada é que a importação sem tarifas cria uma concorrência predatória para o setor, que neste momento vinha buscando recuperar a sua rentabilidade. Por muito tempo o atrelamento do preço do álcool a política de preços da Petrobras tirou muito a rentabilidade do setor em São Paulo e aqui também no Norte Fluminense. Sendo que nossa região enfrenta ainda a questão da baixa produtividade da terra, uma questão que só pode ser resolvido a médio e longo prazo com projetos de irrigação — analisou.  


O economista prevê uma capacidade de expansão menor em razão da política governamental adotada pelo Planalto. “O setor sucroenergético de nossa região sofreu muito, e agora é que começava a tirar a diferença com uma produção que chega a 100 milhões de litros de álcool no ano. E esta importação faz com que a capacidade de ter competitividade de preços fique reduzida com o etanol que vem de fora. Como o setor se planeja para o próximo ano a partir do seu excedente do ano anterior, o excedente deste ano será menor. Logo, a capacidade de expansão será também menor”, disse ainda.  


— Como o setor é importante empregador, gerando cerca 5 mil empregos em Campos e região, gerando uma massa de salários entre 130 e 150 milhões de reais todo ano, a importação com essa tarifa zerada ate o fim do ano prejudicará fortemente a rentabilidade deste segmento. — finalizou Vidigal.


Por sua vez, o diretor presidente da Nova Canabrava Destilaria, Rodrigo Luppi de Oliveira, disse acreditar que a decisão governamental deverá trazer impactos na produção dos grandes grupos de São Paulo e do Nordeste. "Pode ter impactos para os grandes grupos usineiros de São Paulo e do Nordeste, onde a logística de importação dos Estados Unidos é bem mais em conta. Com relação a nossa região, não vejo grandes impactos pois o Estado do Rio de Janeiro é deficitário na balança produção x consumo", analisou.


Para Evandro Gussi, presidente da Única (União da Indústria da Cana de Açúcar), A decisão do governo brasileiro, anunciada na sexta-feira (11), de renovar a cota de importação do etanol dos Estados Unidos de 187,5 milhões de litros sem tarifa por 90 dias vai impor um grande sacrifício ao setor sucroalcooleiro. Para a mais importante entidade do setor no País, “a cota é um sacrifício enorme para o produtor brasileiro” neste momento. “Sobretudo neste momento em que os estoques estão muito mais altos do que no ano passado. E só tem sentido se o compromisso assumido pelo ministro Ernesto Araújo, de negociar um bom acordo para o açúcar brasileiro lá nos Estados Unidos, realmente se concretizar nesse prazo de três meses”, disse Gussi. 


O Ministério das Relações Exteriores acredita que, nos próximos três meses, vai conseguir convencer o governo norte-americano a reduzir a taxa altíssima que é cobrada para permitir a entrada do açúcar brasileiro. Mas essa é uma negociação que o Brasil tenta fazer há décadas e que nunca deu certo.  


A alegação do governo, que diz que criou a nova cota para poder negociar mais espaço para o açúcar brasileiro no mercado norte-americano em 2021 não convence a Evandro Gussi. “O que o setor mais teme é que esta contrapartida não aconteça de fato. Cada litro de etanol que entrar no Brasil é um problema a mais para o setor”.  


O governo Donald Trump desencadeou uma ofensiva diplomática para que o Brasil aceite aumentar a cota de importação do etanol no país, sob o argumento de que o gesto vai melhorar as chances de reeleição do americano em estados produtores de milho. 


A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, a principal interlocutora dos usineiros junto ao governo, defende o fim da cota sem a segurança de uma contrapartida. É a posição majoritária do setor, e que também vem sendo acompanhada pelo ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque. 


A atual crise, que Evandro Gussi chama de “tempestade perfeita”, não é a primeira do século 21. “O governo Dilma, com várias intervenções que seguraram o preço da gasolina artificialmente, destruiu a competitividade do etanol. Quase uma centena de usina fechou e outra centena foi para recuperação judicial”, recorda. Mesmo assim, o setor se reconstruiu e apostava em 2020, com a entrada do Renovabio, programa que redobrou a aposta brasileira na energia renovável e na qualidade do ar. 


A segunda turbulência do século foi a pandemia do novo coronavírus, associada a um controle de preços do petróleo feito no início do ano pelos maiores produtores de petróleo do mundo, a Arábia Saudita e a Rússia. “A combinação de retração da demanda com preço em queda é perigosa para o setor. Mas as usinas buscam um nível fortíssimo de eficiência. É um ano desafiador”, ressalta o presidente da Unica. Sobretudo, acrescenta ele, porque o setor pode ser vítima de uma “transformação de jurisprudência com terríveis efeitos para o mundo econômico e jurídico”.