quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015 - Gráfico:Folhapress

Em meio a uma tendência global de alta do dólar, o real já acumula em um ano a terceira maior desvalorização entre as moedas das principais economias do mundo –e é provável que a queda tenha de ser maior.
Segundo dados do Banco Central, a moeda norteamericana teve elevação de 18,5% em relação à brasileira nos 12 meses encerrados nesta quartafeira (18), bem acima da inflação doméstica no período.
Em termos nominais, a taxa só fica abaixo das contabilizadas na Rússia, onde o rublo passou por um colapso no final de 2014, e na zona do euro, região mais fragilizada pela crise internacional.
Os números mostram um avanço quase generalizado do dólar em relação às moedas dos países do G20 –as economias que têm maior peso na produção global– e o tradicional franco suíço. Trata-se de mais um obstáculo para a recuperação da economia brasileira.
Em quase todo o mundo rico, a desvalorização das moedas é uma ação proposital dos governos: países europeus, Japão e Canadá, entre outros, adotaram a medida para tornar seus produtos mais baratos, fortalecer as exportações e estimular a expansão da renda doméstica.
No caso do real, as perdas foram intensificadas nas últimas semanas devido às incertezas do mercado local. Embora necessária aos objetivos da política econômica, a queda ainda produz mais problemas do que soluções.
A equipe do ministro Joaquim Levy (Fazenda) precisa enfrentar três desafios mais imediatos: estancar as perdas do país nas transações de bens e serviços com o resto do mundo, reequilibrar o Orçamento e conter a inflação.
A desvalorização cambial é o único remédio de resultados rápidos para a primeira mazela, mas tem o efeito colateral de dificultar as duas outras tarefas.
Quando o dólar sobe, os produtos nacionais, cujos custos são medidos em reais, ficam mais baratos no exterior, estimulando as exportações; do outro lado da balança comercial, as compras de mercadorias estrangeiras ficam mais caras.
No entanto, a despeito do baque sofrido pela moeda brasileira, o deficit nas transações com o exterior se agravou: passou de US$ 81,1 bilhões, em 2013, para US$ 90,9 bilhões no ano passado. O potencial impacto positivo do câmbio no comércio exterior tende a ser comprometido pela desvalorização das moedas de outros países –fenômeno que ganhou o nome de "guerra cambial" nos últimos anos.
O Brasil sofre ainda com a queda dos preços internacionais das matériasprimas, estratégicas na pauta nacional de exportações. Produtos primários agrícolas e minerais viveram uma era de preços recordes até o início do governo Dilma Rousseff, quando o dólar se aproximou de R$ 1,50.
Com a reversão desse ciclo, a moeda norteamericana passou dos R$ 2,80 e, na projeção central do mercado, chegará a R$ 2,90 até dezembro –embora sejam cada vez mais comuns previsões de cotações acima dos R$ 3.
Como consequência, os produtos importados mais caros pressionarão a inflação; para conter os preços, o Banco Central terá de manter os juros acima dos patamares do ano passado, aumentando os encargos da dívida pública.