Atualizado em: 23/02/2015 - Foto: Campos 24 Horas
Postado por: Fabiano Venancio

Pode um programa seguir a filosofia da religiosa católica Madre Tereza de Calcutá, que diz que “Não Devemos Permitir que Alguém Saia de Nossa Presença Sem Se Sentir Melhor E Mais Feliz”.? Mesmo se esse programa for um dos mais difíceis de serem desenvolvidos, levando-se em consideração que não depende só de quem trabalha nele, mas, principalmente, da pessoa a ser beneficiada, já que esta precisa querer ser ajudada, querer mudar de vida, querer vencer os vícios, querer, querer e querer. A psicóloga Márcia Helena Pereira, diretora do Centro de Referência para Pessoas em Situação de Rua (CentroPop), que também tem curso de combate às drogas pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, diz que sim e isso é praticado no dia a dia do órgão, que presta atendimento social, psicológico e médico a pessoas em situação de rua e tem como aliado a Casa de Passagem, onde elas podem viver por seis meses, até terem suas vidas reestabelecidas.

Márcia classifica o trabalho com pessoas em situação de rua como de “formiguinha”, porque são muitas questões particulares de quem precisa de ajuda, envolvida. Para se ter uma noção, em 2014 o CentroPop atendeu 3 mil 849 pessoas e, deste total, somente oito foram inseridas no meio familiar. Nisso tudo entra, ainda, o direito constitucional, Artigo V, do cidadão, o “ir e vir – liberdade de locomoção”. E não é só isso. Entra também os dogmas religiosos e seus grupos, que distribuem alimentos nas ruas, fazendo com que essas pessoas continuem na condição de pedintes, não saindo daquele local onde podem comer, beber e não têm regra nenhuma.
Confira a entrevista:
Campos 24 Horas – O que faz o CentroPop no dia a dia?
Márcia Helena Pereira– Aqui recebemos pessoas em situação de rua. Eles fazem a higiene pessoal, lavam roupa se precisar, recebem alimentação, ajuda social, psicológica e médica, de acordo com a necessidade de casa um. Se precisar de documentação fazemos este trabalho, também encaminhamos aqueles que têm vícios de álcool e outras drogas para o Caps AD que trabalha especificamente nesta área e se algum deles estiver debilitado encaminhamos para consultas médicas. Muitos são dirigidos ao Balcão de Empregos para que consigam, dentro de suas habilidades e experiências, um emprego.
Campos 24 Horas – E o que o CentroPop oferece em termos de terapia?
Márcia – Todas às quintas-feiras temos oficinas de trabalhos manuais, o que eles gostam muito e alguns, depois que aprendem, chegam até a ganhar dinheiro com isso. Sem falar que montamos uma biblioteca, uma forma também de aproximar a sociedade deles, já que sempre que alguém vem doar há um entrosamento com os que estão aqui, uma troca de ideias e isso é muito salutar para eles. Sem falar no prazer de manusear um livro, a leitura em si. Embora estejam nessa situação, já tivemos por aqui até pessoas com terceiro grau e muitos com o segundo.
Campos 24 Horas- Essa pessoas graduadas vão parar nas ruas porque?
Márcia – A maioria por causa das drogas e muitas a procura de emprego, trazidas até por outras prefeituras e deixadas nas ruas, com a promessa que aqui é a redenção para quem está numa situação financeira difícil. Os dependentes químicos encaminhamos para o CapsAD e para a clínica de recuperação de Pedra Lisa, entre outras entidades que combatem as drogas e são medicamentosas. Esse é o trabalho mais difícil. Em 100%, acredito que 20% se recuperam e seguem a vida normal e 70% retornam às drogas. Tem gente que chega aqui e fala: “Pelo amor de Deus, eu quero sair dessa vida, largar as drogas. Me ajuda”.
Campos 24 Horas –
Essa denúncia é grave, de prefeituras que trazem as pessoas. Como vocês ficam sabendo disso?
Márcia – Independente de todo esse trabalho que já falei, nós fazemos abordagens sociais nas ruas, as segundas, quintas e sextas-feiras de manhã e as quintas e terças-feiras à tarde. Em 2014 foram feitas 203 abordagens a 1.326 pessoas. Deste total de abordados, 283 passaram pela Casa de Passagem e acredito que somente 20% seguiram suas vidas normalmente. As demais retornaram às ruas. E nessas abordagens eles contam que são trazidos de carros particulares, de graça, por conta das prefeituras, e deixados aqui. Uns perdem os documentos, outros são roubados, alguns gastam o pouco dinheiro que trouxeram e assim acabam ficando nas ruas.
Campos 24 Horas –
E de onde são essas pessoas exatamente?
Márcia – Olha, ano passado nossa estatística foi essa: Região Sul vieram 13 pessoas, Região Sudeste 542, Região Nordeste 184 e Região Norte 3, além das de Campos. A dependência química e o desemprego são as principais causas das pessoas estarem nas ruas. Daí nosso trabalho de encaminhá-las ao Balcão de Empregos ou ainda, aos diversos cursos de qualificação que são ofertados no município.
Campos 24 Horas –
Mas você falou que o trabalho maior é em cima da reinserção familiar. Como é feito esse trabalho?
Márcia – Quando a pessoa tem parentes, a gente faz contato, conversa, tenta buscar uma aproximação entre as partes. Infelizmente, a maioria que chega aqui está com os vínculos familiares rompidos, por isso que é muito difícil a reinserção. Sem falar que muitas pessoas da família não querem essa aproximação ou é o contrário, quem está em situação de rua não quer voltar para casa, quer continuar vivendo sem regras nenhuma. No caso das drogas, por exemplo, a própria família taxa aquele parente como “safado”, “fraco”, entre outros, e não como uma doença que deve ser tratada.
Campos 24 Horas –
Você acha que o trabalho de grupos de religiosos que distribuem comida nas ruas atrapalha o trabalho do órgão?
Márcia – De certa forma sim, porque muitos se recusam a nos acompanhar até o CentroPop ou até mesmo a ir para a Casa de Passagem, alegando que ali já têm café da manhã, almoço, jantar e até um lanche por volta das 23h, que eles chamam de ceia e, por isso, não vêm necessidade de largar aquela vida. Sem contar que outros grupos já fazem outras ofertas, como cobertores e roupas. Mas vamos refletir: Só isso basta? É só de comer e beber que eles precisam? O pior é que depois disso tudo eles voltam para as drogas, para o álcool, para a vida sem regras e sem limites.
Campos 24 Horas – Você disse que iniciativa de uma jovem no ano passado fez a diferença para essas pessoas. Pode contar?
Márcia – Em dezembro, o pai de uma jovem de 16 anos chamada Ludmila Fiuza, perguntou o que ela queria de presente e ela disse que gostaria de proporcionar às pessoas em situação de rua uma ceia de Natal. Foi um momento lindo, toda a família dela esteve presente e todos ceiaram juntos.
Campos 24 Horas – Ser psicólogo ajuda a dirigir um órgão como esse?
Márcia – De certa forma sim, porque nosso olhar é diferenciado, a maioria olha reprovando, criticando e nós olhamos de outra forma, sem julgamentos. Mas o principal é mesmo gostar de gente, saber ouvir e, claro, ser dura quando for necessário, mas também sem perder a ternura...