Em uma cidade marcada por forte traço de negritude, mas também de conservadorismo, a última vez que um negro disputou a Prefeitura de Campos foi no longínquo ano de 1982, há 38 anos, quando o economista Sidney Pascotto teve seu nome confirmado pelo PT naquela disputa. Passados quase quatro décadas, eis que alguns pré-candidatos tentam romper um longo ciclo de exclusão e se apresentam como pré-candidatos à sucessão deste ano. Os pré-candidatos mais recentes confirmados são: o ex-comandante do batalhão da PM na cidade, o tenente-coronel Fabiano de Souza (PSL), e o ex-presidente da Fundação Zumbi dos Palmares, o cantor João Damásio (Rede). Eles falaram ao Campos 24 Horas. Vale lembrar que a disputa pela prefeitura de Campos, marcada para novembro, já tem pelo menos 18 pré-candidatos.
Fabiano de Souza, que comandou o Batalhão da Polícia Militar em Campos (8º BPM) de 2016 a 2018, adotou uma postura cautelosa em relação aos planos para a possível candidatura. “Neste primeiro momento, prefiro aprofundar algumas questões internamente, com o partido, antes de falar a respeito do que vou propor para o município durante a possível campanha. Sei que o momento é difícil para Campos. Uma entrevista mais aprofundada ficará mais para frente”, disse Fabiano de Souza. (Leia mais abaixo)
JOÃO DAMÁSIO - Ativista do movimento negro, ex-presidente da Fundação Zumbi dos Palmares e da Escola de Samba Mocidade Louca, cantor e compositor, João Damásio acredita que Campos precisa comprovar na prática que não é uma cidade racista ou provinciana, elegendo pela primeira vez um negro como prefeito.
“Segundo historiadores, Campos foi o último município do país a abolir a escravidão. Então está na hora de mostrar este ano que não é uma cidade racista ou provinciana. Nas eleições, os negros, quando vão às urnas, são visíveis, mas passadas as eleições se tornam invisíveis”, disse Damásio, que espera ver seu nome confirmado como postulante a prefeitura pelo partido.
A bandeira da negritude, entretanto, está longe de ser apenas uma grife do projeto que a Rede tem para Campos, na visão de Damásio. “Óbvio que eu me sinto legitimado como negro para falar da exclusão racial e social, mas nosso conjunto de propostas abrange a sociedade como um todo, com um olhar especial para a maioria da população marginalizada que vive nas periferias. O maior desafio de Campos está na geração de empregos. Gerar empregos significa reduzir a miséria, reduzindo a miséria se diminui os índices de violência”, destacou.
“Não é possível aceitar que uma cidade como Campos, com este imenso território, com terras férteis, clima favorável, ventos, lagoas, canais, rios e o polo de conhecimento técnico e científico de nossas universidades, seja importador de quase tudo que a população consome. Temos todas as condições de sermos um grande celeiro de produção de alimentos do país”, afirmou.
Se confirmado candidato, Damásio pretende propor a implantação de um vigoroso plano de recuperação da agricultura através da diversificação. “Nossa principal rede de supermercado na região importa frangos congelados do Sul, enquanto importamos ovos de uma cidade do Espírito Santo (Santa Maria do Jetibá), que é a maior produtora do Brasil”. (Leia mais abaixo)
O pré-candidato do Rede não consegue conceber que Campos tenha a prefeitura como maior empregadora. “Quando o maior empregador de uma cidade é a prefeitura, sua economia não vai bem. Com o petróleo indo embora, vamos ver o que podemos produzir em alta escala. E o caminho é a terra, a agricultura, o agronegócio porque temos aqui perto uma porta aberta para o mundo, que é o porto do Açu. Campos pode se tornar a capital brasileira do etanol porque tem vocação, expertise nesta área, um polo de conhecimento com universidades, técnicos conhecedores do assunto e terras férteis, como eu disse antes. E o etanol é o combustível do futuro".
COOPERATIVAS, EDUCAÇÃO E SAÚDE– João Damásio disse o que pensa sobre áreas importantes. “Se temos o maior rebanho bovino do Estado, a prefeitura deveria estimular a criação de cooperativas visando a instalação de pequenas ou médias unidades de beneficiamento de leite para a fabricação de produtos de valor agregado como leite em caixinhas, queijo, manteiga, iogurte e requeijão", criticou.
A respeito da área de educação, Damásio destaca que: “Há muitos anos que Campos está devendo uma educação de qualidade à sua população. Eu não consigo divorciar uma política para a educação, sem esporte, lazer e cultura”, lamentou.
Damásio se espanta com o orçamento da Saúde em Campos e os resultados. “O Orçamento da Saúde está em torno de R$ 800 milhões. Onde esse dinheiro está? Não consigo ver nos ambulatórios, nas unidades de pronto atendimento, no Ferreira Machado, no HGG, no São José, hospitais conveniados, nas farmácias populares, nos exames que a população tem dificuldades em fazer, nem na qualificação dos profissionais ou na renovação da frota de ambulâncias. A Saúde está em fase terminal. Não, então é preciso um choque de gestão de curto prazo para que a Saúde deixe de agonizar em Campos. O prefeito deveria ouvir os usuários, os diretores e servidores dos hospitais, do Sindicato dos Médicos, Sindicato dos Enfermeiros, etc".
FINANÇAS – Assim como a maioria dos pré-candidatos, João Damásio acha que o número de DAS e de secretarias deve ser reduzido. “Se o município tem uma receita que bate com a despesa, é preciso enxugar despesas e cortar na carne. Há uma estimativa de que há de 800 a 1 mil DAS na prefeitura. Entre secretarias, superintendências, fundações e autarquias, são 40. É preciso logo reduzir esta máquina que traz um ônus terrível para a prefeitura. Até o fim do ano, o atual prefeito não deve conseguir manter os salários em dia por conta de uma politicagem irresponsável. Campos não cresceu, inchou. E com uma obesidade mórbida”, lamentou. (Leia mais abaixo)
SANEAMENTO – “Falta infraestrutura na maioria dos bairros. E tem bairros onde o contribuinte paga água e esgoto sem ter serviço de esgoto. Campos tem necessidade de uma agência reguladora municipal para cuidar desta área”.
FUNDAÇÃO ZUMBI – “A Fundação Zumbi dos Palmares precisa ser recriada. A Zumbi foi uma carta de alforria na libertação intelectual do negro. Se for confirmado candidato, terei a oportunidade de dizer o que penso em fazer na Zumbi".
NEGRITUDE – “Uma minoria vem nas minhas postagens das redes sociais falar que estou usando a cor da minha pele como plataforma política. A verdade quando é colocada de maneira exposta dói, os gritos dos negros quando são conscientes incomodam. Não podemos mais viver em um mundo desigual, em um país entre estados e cidades que não proporcionam direitos e oportunidades iguais entre todos os cidadãos. Uma questão social que deixa o negro invisível na política como minoria absurda em todos os governos no Executivo e no Legislativo. O Barack Obama, o Mandela e o Martin Luther King não fizeram de suas etnias uma plataforma política, mas fizeram do racismo uma realidade que o mundo faz questão de até os dias de hoje não enxergar. Negro no poder, sim, e um mundo mais justo pra se viver porque a história do negro escravo não pode ser escondida, até mesmo quando se faz política. E essas lideranças sabiam disso porque todos sofreram racismo até mesmo quando foram fazer política”, enfatizou Damásio.
CULTURA – "O artista precisa ter sua carta de alforria, não ser tutelado por tecnocratas do poder como ocorre hoje em Campos. Entendo que os artistas são os verdadeiros donos do espetáculo, então eles devem ser, sim, os gestores do Trianon, no Teatro de Bolso e do Cepop, etc. E, também, no momento certo, que na campanha eleitoral, vou revelar meus planos para a área cultural”.
ARNALDO VIANA - Todos sabem das minhas relações estreitas com o ex-prefeito Arnaldo Vianna. Eu nunca me prostituí politicamente. Nunca estive na política para ser amigo do poder ou dos poderosos. Em 2008, saímos da prefeitura e onde estava eu fiquei. O que houve foi que eu saí para buscar espaços e um novo caminho, mas sem discórdia ou inimizade com ninguém. Foi como aquele ex-jogador Tita, que ficou sem espaço no Flamengo porque tinha lá o Zico, e resolveu mostrar seu futebol em outros clubes. Nada mais do que isso". (Leia mais abaixo)
MARINA E SUSTENTABILIDADE – "Já há entendimento entre nós e o presidente municipal do Rede, Fabrício Lírio, além de tratativas para que a ex-ministra Marina Silva e o senador Randolfe Rodrigues venham a Campos apoiar nossa candidatura após a confirmação na convenção pelo partido".
LISTA DE PRÉ-CANDIDATOS A PREFEITO EM ORDEM ALFABÉTICA:
-Alexandre Tadeu - PRB
-Caio Vianna – PDT
-Cândida Barcelos - SD (Leia mais abaixo)
-Cláudio Rangel – PMN
-Carlos Alberto Xará - DC
-Coronel Fabiano - PSL
-Edmar Ptak – Pros
-Jhonatan Paes - PMB (Leia mais abaixo)
-João Damásio - REDE
-José Maria Rangel - PT
-Odisséia Carvalho – PT
-Juiz Pedro Henrique - SD
-Lesley Beethoven - PSDB (Leia mais abaixo)
-Marcelo Mérida – PSC
-Pastor Éber Silva - DEM
-Rafael Diniz - Cidadania
-Roberto Henriques – PCdoB
-Wladimir Garotinho - PSD (Leia mais abaixo)