Por que alguns vícios são mais difíceis de largar do que outros?


  • 07/05/2023, 00h20, Foto: Reprodução.

Entenda: não é porque sua prima conseguiu largar o vício por chocolate e seu pai não conseguiu parar de fumar que isso faça dele um sujeito menos empenhado e sem força de vontade. Saiba que dependências, de modo geral, apesar de terem muitos pontos em comum, não são iguais. Elas variam de efeito, intensidade, sintomas, e por isso algumas podem ser tão difíceis de largar.

Em se tratando de substâncias, as mais viciantes, segundo estudos científicos, são, em ordem: (Leia mais abaixo)

  1. Heroína
  2. Cocaína
  3. Nicotina
  4. Barbitúricos (sedativos, anestésicos, antiepilépticos)
  5. Álcool

Mas muitas outras coisas podem ser "aprisionantes", como açúcar, cafeína, compras, jogos de azar, pornografia. A lista é imensa e tem a ver com retroalimentação de sensações prazerosas.

"O cérebro humano trabalha com um sistema de recompensas. Se há um estímulo positivo, ele recebe dopamina, um neurotransmissor relacionado à sensação de bem-estar, e memoriza essa experiência, impulsionando a repetição do comportamento, até estabelecer o vício." Júlio Pereira, médico pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) e neurocirurgião

Vício pesado, cérebro alterado Além de ativar o sistema de recompensa, alguns fatores de dependência, como drogas mais potentes, ainda modificam os receptores de dopamina ao se ligarem a eles. Simplificando, essas drogas aceleram a dependência das células cerebrais (neurônios) e ainda prejudicam a produção de neurotransmissores inibitórios, ou seja, cortam os "freios" do autocontrole.

"Daí a chamada dependência química, porque a forma como se reage à recompensa acaba muito mais intensa do que o habitual, produzindo até efeitos alucinógenos", continua Pereira. Ele esclarece, entretanto, que o efeito no organismo varia de pessoa para pessoa, porque as alterações nos circuitos cerebrais são igualmente muito individuais, não seguem um padrão.

Mas uma coisa é certa: gradualmente, com as alterações neuronais, as sensações agradáveis do consumo passam a durar menos e as desagradáveis se intensificam, como incapacidade de sentir prazer, depressão, ansiedade, irritabilidade, angústia. Essa combinação de opostos então obriga o sujeito, em ânsia e desespero, a se dedicar à sua dependência, que só agrava. (Leia mais abaixo)

Comportamentos influenciam Psiquiatra e diretor clínico do Instituto de Psiquiatria Paulista, Henrique Bottura explica que a dificuldade em deixar um vício também tem a ver com os comportamentos dos dependentes. Segundo ele, alguns são potenciais geradores de risco e se relacionam com sensação de vazio existencial, inadequação a normais sociais, meio ao qual se está inserido, práticas de consumo.

"A depender da maneira como se utiliza cocaína, por exemplo, a dependência muda. Você tem desde quem a inala esporadicamente em pó, até quem a injeta e fuma crack", diz o médico. Ele complementa que quem tende a ser muito impulsivo na obtenção de efeitos e não racionaliza sobre consequências (sinais de transtornos, como bipolar, obsessivo-compulsivo, déficit de atenção com hiperatividade, antissocial) também está sujeito a dependências mais severas.

Ser excessivamente perfeccionista (sobretudo com a própria imagem), além de competidor, controlador e influenciável pode predispor ainda vícios não químicos perigosos, como por redes sociais, relacionamentos tóxicos, dietas restritivas, academia, procedimentos estéticos e desafios que, entre crianças e adolescentes, podem levar a isolamento, escoriações e suicídio.

Tratamento requer intensividade Dependências muito fortes devem ser tratadas com muita atenção às abstinências, que são tão intensas quanto, o que eleva o risco de recaídas. Nesses casos, além da indicação de psicoterapia, é necessária uma abordagem complexa, com envolvimento de profissionais de diferentes áreas, uso de medicamentos, participação em grupos de apoio e até internação.

"Com doenças preexistentes, será preciso controlá-las antes, para que o tratamento seja eficaz, do contrário é muito difícil obter reversão", informa Luís Henrique Braga Gomes, psiquiatra pela EBMSP (Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública) e professor na Ipemed-Afya, em Salvador. Em idosos que fumam e com comorbidades, por exemplo, o risco de morte é duas vezes maior. (Leia mais abaixo)

Por falar nos mais velhos, suas dependências costumam ser as mais desafiadoras, por estarem enraizadas e serem comparadas como parte da personalidade. Fora que doenças psiquiátricas prevalentes nessa fase da vida, como demências, podem exacerbá-las. "Às vezes, o organismo se encontra tão fragilizado e dependente, que para a pessoa ter estímulos e sobreviver, a solução acaba sendo substituir drogas ilegais pelo uso de substâncias lícitas", diz Pereira.

Fonte: Viva Bem



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