Pezão tenta driblar dificuldades administrativas

Desde que assumiu o segundo mandato, afilhado político de Sérgio Cabral (PMDB) busca fôlego para superar a sequência de episódios que atingem sua gestão


domingo, 22 de março de 2015     -     Foto: Filipe Lemos/Campos 24 Horas Pezão 1912Para alguns, a explicação pode vir dos astros. O retorno do Sol à exata posição de onde estava no dia do nascimento é o prenúncio de dias difíceis. Para os menos céticos, a maré de crises era tão previsível e fora de controle que tem pelo menos a benesse de atingir coletivamente políticos de vários partidos. Fato é que, a sete dias de completar 60 anos, o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) parece viver um inferno astral prolongado, que começou em 1º de janeiro. Desde que assumiu o segundo mandato, o afilhado político de Sérgio Cabral (PMDB) busca fôlego para superar a sequência de episódios que atingem sua gestão. Não são poucos: cortes no orçamento e na folha de pagamento, arrecadação em queda, diminuição dos royalties, redução nas gratificações em cargos especiais, atraso no salário de terceirizados. Se não bastasse essa avalanche de dados negativos, coroada com o comprometimento das finanças públicas, ele ainda teve seu nome envolvido no escândalo da Petrobras. Pelo sim, pelo não, a tradicional festa de aniversário que Pezão faz na sua cidade natal, Piraí, este ano não vai acontecer. “A gente não comemora 60 anos”, brincou ele, ao deixar a cerimônia de inauguração das obras do Porto do Rio, no último dia 12, ao lado da presidenta Dilma Rousseff. Nos bastidores, a abertura de inquérito contra Pezão para investigar se houve recebimento de dinheiro de caixa dois para a sua campanha a vice-governador, em 2010, é vista com preocupação. Sem o histórico político de Cabral, que também foi citado pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa — e que, na ocasião, tentava a reeleição — , há um grande receio de que o ônus do escândalo respingue em proporções muito danosas na carreira política do atual governador. Sem a projeção nacional de seu antecessor, Pezão começou sua trajetória em cargos eletivos em Piraí, onde foi eleito vereador em 1982. Em 1996, virou prefeito da cidade, com 75% dos votos. Foi reeleito quatro anos depois. Pezão foi ainda secretário de governo nos dois últimos anos da gestão de Rosinha Garotinho (2003-2006), hoje prefeita de Campos. No ano passado, Pezão ganhou a eleição para governador no segundo turno, com 55,78% dos votos válidos. “Ele não tem o ‘capital’ que o Cabral acumulou nestes últimos 20 anos. Aliás, poucos políticos têm aqui no Rio. É verdade que muito se perdeu pelo processo de desgate, pelo comportamento de vida que o Cabral optou em ter, e ele pagou um preço alto por isso. Pezão é justamente o oposto. Cativa pelo jeito simples, mas não tem esse ‘capital’ do seu antecessor”, afirmou um deputado estadual da base aliada, que preferiu o anonimato.“Ele reagiu com indignação a essa leviandade e mentira e pediu que fosse confrontado com este cidadão. O recado foi dado com este posicionamento firme”, defendeu o vice-líder do governo na Assembleia Legislativa, o deputado Jânio Mendes (PDT). Se o caminho para a bonança governamental e reestruturação da saúde financeira dos cofres públicos parece distante, a culpa vem em forma de barril, de petróleo. Pelo menos é o que acreditam alguns governistas. O estado fez seu orçamento com a cotação de 80 dólares o ‘brent’ — medida usada como parâmetro para o valor do óleo no mercado internacional —, mas a economia despencou e com ela foi o preço do barril. “O mundo é que está no inferno astral. Principalmente o Brasil, o governo federal. E é claro que isto se reflete nos estados. O governo está sofrendo as consequências da crise econômica no país. Ele vem tomando as medidas corretas, inclusive cortando na própria carne”, afirmou o fiel aliado do governador, o deputado estadual Gerson Bergher (PSDB). Para a oposição, é inquestionável que Pezão sabia que a crise estava por vir, mas preferiu escondê-la, de olho na permanência no Palácio Guanabara.“Ele é sucessor dele mesmo. Se alguém tinha acesso aos números, essa pessoa era ele. Não dá para jogar tudo na conta do petróleo. O Rio, hoje, tem como dívida o orçamento de um ano inteiro, e a situação tem tudo para piorar”, afirmou o deputado estadual Marcelo Freixo (Psol). Citado no Petrolão, Cabral adia planos de retornar à cena política O sinal vermelho acendeu e não foi apenas um alerta para o endividamento do estado. A luz que incomoda e tem tirado o sono do governador Pezão ofusca uma reestreia que tinha sido planejada para acontecer, para os mais otimistas do PMDB, ainda no primeiro semestre deste ano. Sérgio Cabral ensaiava sua volta aos eventos públicos — após deixar o governo com alto índice de rejeição — quando estourou o episódio com o seu nome nos desdobramentos da Operação Lava Jato. Agenda adiada, mas presença garantida na gestão. Não raro o padrinho político de Pezão é consultado sobre decisões a serem tomadas. A ‘romaria’ tem endereço certo: o escritório que ele abriu no Leblon, bairro onde mora. “Cabral viveu um tempo em que maná caía do céu. A situação é difícil agora. O apocalipse se desenha em forma de crise no governo. Muitos políticos ainda não entenderam que o estado não tem condições de fazer agrados como antes. Mas o beija-mão continua. Nunca se sabe o dia de amanhã ”, opinou um deputado estadual, aliado de Pezão. Por enquanto, o PMDB não fala abertamente sobre os planos para ex-governador. Se conseguir ressurgir politicamente, ele passa a ser cotado para concorrer à prefeitura do Rio pelo PMDB. Tanto o secretário municipal de Coordenação de Governo, Pedro Paulo Teixeira, quanto o deputado federal e líder do PMDB na Câmara, Leonardo Picciani, já admitiram publicamente que abrirão mão de disputar a sucessão de Eduardo Paes, caso Cabral volte ao páreo. Governador e ex estão na mira do STJ O inquérito que investiga a participação de Pezão, Cabral e do ex-secretário estadual da Casa Civil Régis Fichtner no Petrolão está em fase de diligência, segundo o Superior Tribunal de Justiça (STJ). Nesta fase, não há impedimento para que os advogados deles encaminhem esclarecimentos para a defesa. Após esta etapa, é feito um relatório, onde estarão as conclusões da investigação. Se houver o entendimento de que ocorreu crime, o órgão encaminhará o pedido para processar o governador para a Alerj. No Legislativo, vai para avaliação da Comissão de Constituição e Justiça, que se reúne, aprecia o conteúdo e coloca em votação. Independentemente do resultado, essa matéria é submetida ao plenário, que pode autorizar ou não o julgamento pelo STJ. Cabral e Fichtner não têm direito a foro especial no STJ. Mas, como os dois são suspeitos de envolvimento no esquema com Pezão, também serão investigados pelo Tribunal. Contra os três, pesa a acusação de terem recebido dinheiro de empresas que atuaram na obra do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). A denúncia foi feita pelo ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, na delação premiada. Ele diz que arrecadou R$ 30 milhões para a campanha de Cabral à reeleição, em 2010.



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