Atualizado: segunda-feira, 30 de março de 2015 - Foto: Campos 24 Horas
Postado por: Fabiano Venancio

Ele é do tempo (e não faz tanto tempo assim) em que milhares e milhares de campistas rezavam para não chover e não estavam nem aí para a seca, já que qualquer chuva era motivo de desabrigar famílias, derrubar casas e fazer com que móveis e utensílios fossem, literalmente, por água abaixo. Acompanhou de perto bairros como Jardim Carioca (Ruas I e II, principalmente), Santa Rosa (ruas Soldado Salvador Rosa e H), Prazeres (inúmeras ruas), Penha, Estância da Penha, distrito de Saturnino Braga, localidades como Lagoa das Pedras, Aldeia, Coroa, Ilha do Cunha, Madureira entre outros, se transformarem em verdadeiras lagoas, a ponto de muitos desses locais a remoção de famílias só ser possível através de barcos. E para onde essas famílias eram levadas? Para escolas, creches e até igrejas.
E não é só isso não. Ele é do tempo ainda que vários bairros tinham as ruas também alagadas, causando verdadeiros transtornos, como as ruas Rocha Leão, Alberto Torres (esquina com avenida 28 de Março), Princesa Izabel, Nazário Pereira Gomes (próximo à primeira passarela), bairro Santa Helena e muito mais. Esses locais eram crônicos e todo mundo sabia. Se chovesse, ninguém passava, nem veículos. O secretário municipal de Defesa Civil, Henrique Augusto de Souza Oliveira, recorda de tudo isso, porque está há 26 anos à frente do órgão que, entre outras atribuições, também cuidada da remoção dessas pessoas. Esses problemas acabaram, mas a chuva continua esquentando a cabeça de Henrique. Só a chuva não. A seca também. E nos dois casos ele culpa o Instituto Estadual do Ambiente (INEA), responsável pela limpeza dos canais e que nunca fez o que era devido, causando uma série de transtornos aos campistas. Novamente os campistas sofrendo...
Veja abaixo a entrevista:
Campos24Horas – Depois de relembrar toda essa história, você fala de chuva e seca, com resultados negativos para Campos por causa do Inea. Por que?
Henrique Oliveira – Porque essa omissão do Inea acontece há anos, desde que o órgão era de competência do Governo Federal, depois passou para o Estado, melhorou um pouco e, de seis anos para cá, piorou muito mais. Um dos grandes problemas que afligem o município no período de chuva e é também causador da seca, é a quantidade de vegetação que fica nos canais e não são limpos. E você vai me perguntar se eu já o solicitei e eu mostro a quantidade de ofícios que tenho aqui, sem resposta.
C24H – Mas por que essa falta de limpeza também prejudica na questão da seca?
Henrique – Olha, Campos é uma planície e quando chove, a água tem que escorrer pelos canais. Já no período de seca, de falta de chuva, se os canais estivessem limpos, a água iria evaporar, subir o vapor e voltava em forma de chuva, o que não acontece. Por isso que a falta de limpeza dos canais é problema, tanto no período de chuva quanto no período de seca.
C24H – São tantos canais assim no município?
Henrique – São 1 mil e 400 quilômetros de canais. Você imagina o que é isso? São mais de três vezes a extensão de Campos ao Rio de Janeiro. Eles foram abertos no período da escravidão, pelos escravos, numa época em que Campos era uma planície de lagoas e brejos, sendo drenados e surgindo os canais, porque na época existia uma epidemia de cólera. Muito depois os produtores começaram a investir para irrigação.
C24H – Você conta essas histórias de enchentes e desgraças e parece que aconteceram há séculos...
Henrique – É porque as pessoas não têm memória para certas coisas e coisas que eram visíveis e mexiam com milhares e milhares de pessoas. Talvez não se lembrem as pessoas que moravam longe desses lugares que eu te falei, porque quem viveu neles lembra. Existiam casas construídas em cima de esgoto a céu aberto. Existiam casas na margem das estradas, com as crianças brincando nos acostamentos delas, disputando espaço com carros e bicicletas. E dentro deste mesmo quadro, nos quintas muita água e esgoto. Como não lembrar disso? O governo Rosinha Garotinho acabou com tudo isso.
C24H – Você quer dizer que o governo Rosinha Garotinho a pátria?
Henrique – Não. Eu quero dizer que o governo Rosinha Garotinho, através dos programas Morar Feliz, Bairro Legal e outros, deu dignidade a essas pessoas sofredoras, porque viver tudo aquilo era um sofrimento e ninguém quer ser obrigado a deixar sua casa de barco, totalmente tomada de água, perder tudo, móveis, roupas e até documentos. Ninguém quer ficar acordado à noite, com medo de um carro invadir sua casa que está a dois metros da estrada. Ninguém quer morar em cima de vala negra e ver seu filho brincando ali como se fosse área de lazer. Ninguém quer passar de carro num local e ter seu carro tomado de água, tendo que empurrá-lo direto para a oficina.
C24H – E agora? Está tudo bem, obrigado?
Henrique – Claro que não. Mas também acho que não se pode ficar esperando só pelos governos fazerem. A população também tem que fazer sua parte e aí entra a questão da educação. Infelizmente, entra ano e sai ano e as pessoas não se conscientizam da importância de não jogar lixo na rua, porque ele vai todo para os bueiros que, por sua vez, acabam não suportando, apesar da limpeza. Eu mesmo presenciei num bueiro ali perto do atual camelódromo, a retirada de uma roda de motocicleta.
C24H – Roda de motocicleta? Isso é exceção, não?
Henrique – Não sei. Mas já vi também, no Jóquei Clube, por exemplo, pedaços de móveis, carcaça de carro, além de coisas menores em diversos cantos da cidade, como fraldas de bebê, garrafas plásticas, muitas sacolas plásticas de supermercados, entre outros. Essa educação e conscientização de não jogar lixo, muito menos entulho na rua e nos bueiros, iria melhorar a situação em 50%. Cada um tem que fazer a sua parte. A prefeitura, por exemplo, no caso dos canais, tem doado máquinas para a limpeza, o que deveria ser feito pelo Inea.
C24H – Então alagamentos pontuais vão continuar se a mentalidade também não mudar?
Henrique – Alagamentos existem em qualquer lugar, principalmente, aqui em Campos, por se tratar de ser uma planície. Mas a educação é muito importante neste caso. Agora, com chuva forte, é comum a água não baixar de imediato, em menos de duas horas, por causa da questão da planície que eu falei.
C24H – Para terminar, vamos falar das ações da Defesa Civil...
Henrique – A mesma Defesa Civil que está presente em épocas de chuvas é a mesma que emite laudo de residências com perigo eminente e, em determinada situação, é obrigada a demolir o imóvel para que outros não o ocupem e corram perigo de vida. Também é a mesma que numa ação integrada com outras secretarias faz a desocupação de áreas invadidas e, ainda, a mesma que é chamada para poda de árvores dentro e fora dos quintais quando essas causam perigo. Sem falar nos chamados para retirada de colmeia de abelhas. E por ai vai…