Oito meses de mudanças quando o assunto é criança e adolescente
atualizado: segunda-feira, 30 de junho de 2014 - Foto: Campos 24 Horas
Campos 24 Horas entrevista_______________
Thiago Cerqueira Ferrugem Nascimento
Presidente da Fundação Municipal da Infância e Juventude
Quando o assunto é criança ou adolescente, oito meses são suficientes para muita coisa mudar. Em Campos é assim. Em outubro do ano passado, o Campos 24 Horas abordou o atendimento feito pela Prefeitura, através da Fundação Municipal da Infância e Juventude, quando conversou com o presidente da entidade, Thiago Cerqueira Ferrugem Nascimento Alves, que apontou 190 crianças acolhidas nos abrigos. Esse número mudou e hoje são 140, ou seja, baixou mais de 20% em relação à primeira entrevista, fruto da conscientização da população em termos de adoção, reintegração das crianças às famílias, entre outras ações implementadas pela entidade. Mas nem tudo são flores. Aumentou o número de jovens envolvidos em diferentes tipos de violência, fazendo com que Campos concentre em 13 bairros da cidade, 75% deste índice.
Isso força que ações sejam cada vez mais intensificadas, com mais programas e projetos voltados às crianças e adolescentes. E, ainda, que mais equipamentos de acolhimento sejam abertos, como o que foi inaugurado essa semana, a Unidade de Acolhimento Modelo Aconchego, no Jardim Carioca, em Guarus. No meio da entrevista, uma pausa para Thiago Ferrugem ler uma mensagem no telefone, recebida de uma autoridade do Poder Judiciário justificando a ausência na inauguração do equipamento e elogiando o trabalho desenvolvido por ele à frente da FMIJ. De volta à conversa, fala com entusiasmo dos novos programas, entre eles, o último que foi aprovado na Câmara e, agora, vai para sanção da Prefeita Rosinha Garotinho, o Jovem Aprendiz.
A entrevista
Campos 24 Horas – Pelo que conversamos, nestes oito meses, de uma entrevista para outra, foram muitas mudanças. Concorda?
Thiago Ferrugem– Concordo. Mas trabalhamos muito e podemos dizer que tivemos avanços, apesar dos altos e baixos impostos por fatores que nem sempre dizem respeito ao governo municipal. Posso citar, por exemplo, a queda no número de acolhidos que caiu mais de 20%. Também a variedade e quantidade de cursos abertos na FMIJ e seus equipamentos, como Casa da Juventude, entre outros, todos com adesão grande. Também tem novos programas e projetos, como o Jovem pela Paz e o Jovem Aprendiz, além da adesão aos programas que já existiam, como o Guarda Mirim, sempre dentro do número de vagas abertas, apesar das baixas por conta da idade, entre outros. Mas tem também a questão da violência que cresce no município, afetando diretamente ou indiretamente crianças e jovens. E isso é fato.
Campos 24H – E o que está sendo feito neste sentido?
Thiago Ferrugem- Olha, existe uma grande dificuldade de se inserir no mercado de trabalho um jovem sem experiência profissional, principalmente, se ele vem de medidas socioeducativas, que venham do trabalho infantil ou de casas de acolhimento, além de outros com deficiência. Por conta disso, como já disse, foi aprovado pela Câmara e será sancionado pela Prefeita Rosinha Garotinho, o programa Jovem Aprendiz. A partir da lei sancionada, jovens de 16 a 24 anos que estiverem inseridos no CadÚnico e, preferencialmente, dentro dos critérios que já falei, poderão estar dentro do novo programa. E como o nome diz, aprendendo-trabalhando, com carga horária de quatro horas e ganhando meio salário.
Campos 24H– Mas alguém tem que querer contratar esses jovens....
Thiago Ferrugem– O programa tem um diferencial, ele será aplicado também e, principalmente, pela administração pública, o que nunca aconteceu, porque ela nunca foi obrigada a fazer e, agora, vai fazer. É uma medida pioneira e que mostra a sensibilidade do governo para com a questão do jovem no país. Além disso, toda a empresa que participar de licitação na prefeitura de Campos terá que empregar um jovem aprendiz, o que estará dentro dos critérios para a concorrência pública dessa empresa. Sem falar que a iniciativa privada que não estiver ligada à prefeitura, também pode muito bem aproveitar essa mão de obra.
C
ampos 24H– Mas você também falou de outro programa, que também não começou, o Jovem pela Paz. Tem diferença?
Thiago Ferrugem– Claro que tem. E o Jovem pela Paz já foi aprovado pela Câmara e sancionado pela Prefeita Rosinha Garotinho, devendo ter as inscrições abertas no próximo mês. São jovens de 16 a 25 anos que serão trabalhados para a desconstrução da cultura da violência atual e que deverão, preferencialmente, ser residentes nos 13 bairros considerados mais violentos da cidade. A função deles será transformar através de ações, palestras, entre outras iniciativas, esses territórios em territórios de paz. Os jovens do programa terão suas vocações despertadas e, a partir daí, treinados para ensinar aos outros atividades lúdicas, como teatro, música, dança e por vai, como multiplicadores de boas ações e ensinamentos.
Campos 24H – Apesar dos avanços, continuam a ser abertas casas de acolhimento. Uma contradição, não?
Thiago Ferrugem– Uma necessidade, vamos dizer assim, imposta por diferentes fatores. Mas Campos está à frente no que se refere à proteção dos direitos da criança e do adolescente e prova disso é abertura da Casa de Acolhimento Modelo Aconchego. Com o novo prédio, poderemos acolher os menores com muito mais qualidade, além de humanizar o atendimento às crianças e adolescentes. Recentemente, o poder público federal nos cobrou a criação de um núcleo de gestão de todos os acolhimentos do município, mas o que o governo federal não sabia era que, desde o começo de março, com a inauguração do Centro de Referência da Criança e do Adolescente, nós temos não somente um centro de triagem, mas também um núcleo de gestão dos acolhimentos. Sem falar nas ações paralelas, como o projeto Abrindo Portas, direcionado aos pais ou responsáveis.
Campos 24H– Que projeto é esse?
Thiago Ferrugem– É um projeto financiado pelo Fundo Municipal da Infância e Adolescência, já desenvolvido há tempo. O projeto faz um trabalho como uma “escola de pais”, através de palestras, bate papos e encontros, que podem ser coletivos ou até mesmo individuais, de acordo com a necessidade e complexidade daquele pai ou responsável. Veja bem. Às vezes o pai não quer que a criança ou adolescente fale palavrão, por exemplo, mas ele se dirige à criança dessa forma. E aí que deve entrar a disciplina do adulto. E todas as crianças ou adolescentes que estão nos abrigos passam pelo projeto Abrindo Portas.
Campos 24H– A FMIJ tem outros projetos. Pode citar os demais?
Thiago Ferrugem– Olha, temos também, por exemplo, o Qualifica Jovem, desenvolvido na sede da Fundação, no bairro da Lapa, onde tem cursos de mecânica de automóvel, lanternagem, pintura, carpintaria, rádio escola, gráfica, cabeleireiro, manicure, maquiagem, grafite, gastronomia e artesanato. Para esses cursos adquirimos vários equipamentos de última geração, como scanner de carro que detecta o problema que ele tem, máquina de limpar bicos de automóvel e outros, todos de alta tecnologia, podendo o jovem sair dali e ser contratado em qualquer oficina ou, então, abrir seu próprio negócio. Tem ainda os projetos desenvolvidos na Casa da Juventude, que funciona na Pelinca, com cursos de inglês técnico, gestão de RH, manutenção de microcomputadores e notebooks, grafitagem, gestão empresarial e, brevemente, estética, auto clav, logística, tudo para começar no próximo mês. Sem falar no programa de Guardas Mirins...
Campos 24H– Fale um pouco do Guardas Mirins...
Thiago Ferrugem– Essa semana houve a formatura de 120 novos guardas mirins, que puderam entrar porque muitos deram baixa, ou por causa de ter alcançado a maioriadade de 18 anos, ou por problemas disciplinares mesmo, além de falta de assiduidade escolar e, nestes casos, eles são integrados a outros programas sociais. São adolescentes com idades entre 15 e 18 anos, que se capacitaram durante quatro meses de curso. Agora vão passar a ter uma atuação nas áreas ambiental e de trânsito e farão dois cursos específicos: um de Agente de Trânsito, em parceria com o Instituto Municipal de Trânsito e Transporte (IMTT), e outro de Monitoria Ambiental, a ser ministrado no Centro de Educação Ambiental (CEA), na Avenida José Carlos Pereira Pinto, em Guarus.
Campos 24H– Então pode-se dizer que a FMIJ está cumprindo seu papel?
Thiago Ferrugem– Sem dúvida. Hoje somos o 56º município com maior índice de violência juvenil, na minha opinião, consequência da ineficiência de políticas públicas de segurança no Estado. E dentro dessa estatística, 75% são negros e a maioria com índice de escolaridade baixo. E nós temos que diminuir danos e estamos trabalhando neste sentido. As ações são traçadas a partir destes dados.
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Postado por Fabiano Venancio