A destruição e o caos que se repetem a cada nova temporada de chuvas fortes em diferentes regiões do país – como ocorreu neste verão em Belo Horizonte, Rio e São Paulo – têm ao menos dois fatores em comum: (Leia mais abaixo)
Especialistas apontam que há uma série de ações que o poder público deveria tomar para, ao menos, reduzir o impacto de alagamentos, enchentes, deslizamentos de terra e desmoronamentos. São eventos recorrentes e catastróficos, que custam vidas e trazem transtornos de toda sorte – do trânsito travado à interrupção de serviços públicos essenciais, passando por prejuízos milionários à economia.
Foi apurado com a prefeitura das capitais desses 3 estados quais operações já estão em curso e quais se encontram ainda em fase de planejamento para enfrentar essas situações extremas. Também foram ouvidos pesquisadores das áreas de planejamento urbano e ambiental.
Estudiosos atentam para a necessidade de permeabilização das cidades. Ou seja, é preciso assegurar que a água da chuva passe pelo solo e seja absorvida – e não se acumule na superfície. São exemplos de áreas permeáveis: grandes espaços verdes (como parques) e locais com solo nu ou vegetação rasteira (jardins, gramados, arbustos).
Não se deve descuidar, ainda, da manutenção das bacias de rios, da recuperação de matas ciliares (vegetação às margens de rios) e da implementação de políticas habitacionais que viabilizem a saída de moradores de zonas de risco.
Em conjunto, esse apanhado de iniciativas ajudaria a enfrentar mesmo situações excepcionais, em que o volume da água da chuva supera abundantemente as previsões, como ocorrido em Belo Horizonte em janeiro, mês em que a capital mineira teve maior registro de precipitação em 110 anos. (Leia mais abaixo)
Há cidades e estados que criaram sistemas de alerta para áreas sujeitas a enchentes ou a deslizamentos. Ou que iniciaram processo de contenção de encostas, limpeza de bocas de lobo e desassoreamento de rios. São condutas indispensáveis – mas insuficientes para afastar em definitivo riscos de novas calamidades.
Veja medidas que já foram tomadas e o que ainda precisa ser feito em cidades atingidas por fortes chuvas nos últimos meses ou anos:
A última grande tragédia no estado do Rio de Janeiro causa pelas chuvas ocorreu em 2011, quando temporais na Região Serrana deixaram mais de 900 mortos em quatro cidades e pelo menos 35 mil desabrigados. Foi a maior catástrofe climática da história do país. Em 2019, a maior chuva em 22 anos na capital fluminense causou 10 mortes, deixou bairros submersos e provocou destruição.
O professor da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Marcelo Miguez, dos programas de engenharia urbana e ambiental, acredita que houve medidas importantes adotadas pelo estado após a tragédia na Região Serrana, como o mapeamento do risco e a criação de sistemas de alerta, ambas promovidas pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea).
Ainda assim, o pesquisador considera que as políticas públicas no estado ocorrem com lapsos, o que, segundo ele, "quebra a possibilidade de ações mais efetivas". (Leia mais abaixo)
O que foi feito
De acordo com a Defesa Civil do Estado do Rio de Janeiro, as seguintes ações já foram tomadas para todo o estado:
Segundo a Secretaria de Infraestrutura e Obras do governo do estado, foram tomadas medidas como:
A Prefeitura do Rio informou ter tomado medidas como:
O que falta fazer O também professor da Escola Politécnica da UFRJ Leandro Torres, especialista em recursos hídricos, cita estes exemplos de ações que faltam ser implementadas: (Leia mais abaixo)
Torres avalia que mais da metade do trabalho desenvolvido pela Defesa Civil do Rio de Janeiro tem foco em medidas não-estruturais — planejamento, ações de conscientização da população etc.
Como uma ação positiva do estado, o especialista citou a atuação Escola de Defesa Civil do Estado do Rio de Janeiro (EsDEC), que trabalha com a qualificação de profissionais do órgão no Rio de Janeiro.
Mas o professor ponderou que "a gestão de risco de desastres é uma tarefa ampla, que não se inicia no momento em que o desastre ocorre".
A Secretaria de Infraestrutura e Obras informou que "aguarda autorização do Ministério do Desenvolvimento Regional para o início de outras obras de contenções de encostas na região".
A cidade de São Paulo teve na segunda-feira (10) o dia mais chuvoso desde 1995, com um temporal que travou a cidade. O volume de água registrado em um intervalo de 24 horas foi o maior para o mês de fevereiro em 37 anos, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Os rios Tietê e Pinheiros transbordaram, alangado as marginais – as vias ficaram intransitáveis. Ocorreram deslizamentos e houve prejuízo no transporte público e em outros serviços. Pessoas ficaram ilhadas. (Leia mais abaixo)
Para especialistas, a construção de piscinões não é suficiente para absorver a chuva de grande intensidade nas marginais. A limpeza urbana e o aumento da calha de pequenos rios que deságuam no Tietê e no Pinheiros poderiam evitar inundações a curto prazo.
A longo prazo, é preciso pensar em novo planejamento urbano e investir em soluções para os rios e córregos que deságuam no dos principais.
Segundo o secretário estadual de Infraestrutura e Meio Ambiente, Marcos Penido, o sistema de drenagem e bombeamento das marginais funcionou normalmente até certo momento durante o temporal. Mas não deu conta do volume de chuva. Penido afirma que o modelo atual não foi pensado para tempestades como a desta segunda.
Já o prefeito Bruno Covas (PSDB) disse que São Paulo precisa de 64 piscinões. Afirmou ainda, baseado na diferença entre o número ideal de obras e a infraestrutura existente na capital, que o problema com enchentes deve se repetir.
"Não há dúvida de que problema vai continuar ocorrendo até que a cidade tenha capacidade de absorver essa água. Não tem solução mágica. É continuar trabalhando e investindo", afirmou Covas. (Leia mais abaixo)
O que foi feito:
Um levantamento feito pelo SP2 mostrou que a Prefeitura de São Paulo usou 48% da verba reservada no orçamento para prevenção de enchentes em 2019. Do total de R$ 973 milhões previstos para o ano, apenas R$ 474 milhões foram utilizados, segundo dados de execução orçamentária do município.
O que falta fazer
Para Anderson Kazuo Nakano, que foi diretor do Departamento de Urbanismo da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano da Prefeitura de São Paulo, as obras de aprofundamento do leito dos rios não ajudam a longo prazo: "A gente vai aprofundando esse leito sem resolver os problemas dos rios e córregos que deságuam lá".
Segundo o especialista, é preciso: (Leia mais abaixo)
"Sem adotar esse conjunto de medidas, você vai aprofundando os rios, mas a quantidade de água que chega neles só aumenta", diz Nakano.
Belo Horizonte teve em 2020 o mês de janeiro mais chuvoso da história. Os temporais causaram 13 mortes na capital mineira. Houve enchentes, desabamento de imóveis, barrancos e encostas, além de destruição de vias.
Entre os mecanismos que, segundo especialistas evitaram mais mortes, está o sistema de alertas e monitoramento de condições climáticas, criado pela prefeitura em 2013. Ainda assim, segundo estudiosos, a cidade precisa repensar seu atual modelo de urbanização se quiser ter melhorias significativas e controle dos danos provocados pelas chuvas.
De acordo com especialistas, novos desastres serão evitados apenas com projetos e obras que mudem Belo Horizonte em favor da concepção de uma cidade mais permeável, que cuide das bacias de rios e que tenha uma política habitacional de acordo com a realidade da população.
O que foi feito (Leia mais abaixo)
A Prefeitura, o professor do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG) Rodrigo Lemos e o ambientalista Marcus Vinicius Polignano apontaram diferentes aspectos do que foi feito para a redução dos danos causados pela chuva. Dentre as medidas que deram certo e foram citadas por eles, estão:
O que falta fazer O novo Plano Diretor de Belo Horizonte, que entrou em vigor em 5 de fevereiro, proíbe novas canalizações e prevê uma nova política de preservação dos córregos da cidade.
No entanto, para os especialistas, as mudanças previstas pelo plano diretor com relação ao que será feito na cidade daqui em diante são insuficientes. Também é preciso refazer ou repensar o modelo de obras que já estão executadas.
O professor Lemos aponta que uma política de habitação precisa ser pensada para evitar mortes, já que os locais que oferecem mais riscos são justamente aqueles onde os mais pobres buscam moradias, devido à falta de condições financeiras.
Doutor em geografia e recursos hídricos, ele também avalia que o atual modelo de obras da prefeitura – focado nas bacias de detenção de águas – representa apenas uma etapa. Para Lemos, essa medida não é suficiente. A questão da impermeabilização do solo, o que impede a absorção de água, precisa ser repensada. O professor cita, por fim, cuidados com as bacias de rios e córregos. (Leia mais abaixo)
Fonte: G1