O que é a não-monogamia? Esta é a pergunta mais repetida sobre o termo no Google no Brasil nos últimos 12 meses. O levantamento, realizado pelo Google Trends, mostra que o Brasil é o terceiro país do mundo com mais interesse de busca por não-monogamia e fica atrás apenas da Austrália e do Canadá.
As pesquisas pelo assunto no Brasil quadruplicaram nos últimos dois anos, com um crescimento de 280%. As principais perguntas sobre o tema, nos últimos 12 meses, são: (Leia mais abaixo)
A professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB) Juliana Braz Dias define a monogamia, que envolve duas pessoas, como apenas mais uma forma de arranjo conjugal.
"A prevalência da monogamia em nossa sociedade, e no mundo ocidental de modo geral, está vinculada a vários aspectos da nossa herança cultural, reproduzidos ao longo de séculos, como os valores propagados pelo cristianismo, a noção de amor romântico e nossa forma de regulamentar a transmissão de bens", diz a antropóloga.
O também antropólogo Antônio Pilão, que coordena o grupo de Pesquisa Políticas, Afetos e Sexualidades Não-Monogâmicas da Universidade de São Paulo (USP), explica que a monogamia é a forma de se pensar a organização familiar e econômica em torno de um casal.
"É um tipo de relação pautado na ideia de que tanto em termos sexuais e familiares, instituição, organização, transmissão de propriedade privada, tudo é conectado a duas pessoas”, diz Pilão.
Não-monogamia como 'descentralização dos afetos' (Leia mais abaixo)
Há cerca de um ano e dois meses, o estudante de Psicologia da UnB João Victor Freitas, de 24 anos, e o namorado Carlos Eduardo decidiram abrir o relacionamento monogâmico.
"Estávamos em um bar conversando e ele achou um rapaz muito bonito. Me perguntou e eu falei que achei ‘ok’, que não tinha ficado interessado, mas que se ele quisesse ele poderia ficar com ele. Ele foi lá e fez e eu me senti muito tranquilo em relação a isso", conta João.
A partir desta primeira experiência e depois de muito diálogo, o casal decidiu começar a vivência de novos afetos com outras pessoas. De acordo com João, a ideia de não-posse e da existência de um desejo de conhecer novas pessoas foram alguns dos motivos para a escolha de um relacionamento não-monogâmico.
“[As conversas] me fizeram abrir mais a cabeça e me tornar um pouco mais preparado para poder pensar uma descentralização dos afetos. Perceber que o outro não é meu, ele está comigo. Não sou dono dele e ele não é dono de mim e que nosso desejo não necessariamente põe em cheque a relação afetiva que temos", diz o estudante.
Respeito do espaço do outro e do próprio e relações afetuosas com outras pessoas foram alguns dos resultados da decisão de abrir o relacionamento, de acordo com João. O jovem destaca ainda que tudo só foi possível por conta da comunicação aberta e do acolhimento entre o casal. (Leia mais abaixo)
“É uma relação de muita proximidade, de muita amizade e de muita parceria. Nós também somos amigos para além de parceiros", afirma.
O questionamento da monogamia como princípio de organização e uma forma de controle da sexualidade e do amor, de acordo com Antonio Pilão, é uma das definições da não-monogamia.
“Tem várias formas e modelos de relações não-monogâmicas, onde a sexualidade e afetividade não devem ser exclusivos e restritos a uma única pessoa, de forma consentida e acordada, podem envolver outras pessoas. É a quebra da exclusividade afetiva e/ou sexual”, diz o antropólogo.
A professora Juliana Braz complementa que a não-monogamia é um termo genérico que abarca vários tipos de relacionamentos baseados consensualmente na não exclusividade sexual e ou afetiva como amor livre, relacionamento aberto, poliamor, poligamia e swing.
Alguns tipos de relacionamentos não-monogâmicos A antropóloga e professora do Departamento de Psicologia Experimental, do Instituto de Psicologia da USP, Jaroslava Varella Valentova, e o doutorando Bruno Henrique do Amaral definiram alguns tipos de relacionamentos não-monogâmicos: (Leia mais abaixo)
Acordos em relações não-monogâmicas Ao entrar em uma relação não-monogâmica, a necessidade da comunicação e da criação de acordos é um ponto importante, diz Antônio Pilão. O pesquisador afirma que as fronteiras não ficam muito nítidas do que é problemático e do que não é problemático para cada um dos envolvidos.
"A questão da comunicação dos acordos parece ser fundamental, principalmente porque quando uma pessoa rompe a relação monogâmica e entra em uma relação não-monogâmica, ela não tem um guia muito claro sobre como construir a relação”, afirma.
Para Erick, nome fictício para um entrevistado que preferiu não se identificar, a abertura do relacionamento ocorreu depois de um ano de namoro. Além da conversa sobre questão de ciúmes, alguns acordos foram definidos.
"Não podemos ficar com ex-namorados, não ficar mais de uma vez com a mesma pessoa e sempre contar quando for sair com alguém, por questões de segurança inclusive”, diz.
Erick afirma que, depois de quatro anos juntos e três de relacionamento aberto, a base é a confiança e a abertura que ele tem com o parceiro. (Leia mais abaixo)
A professora Jaroslava Varella Valentova, complementa que a comunicação é a chave para fortalecer a relação e os acordos funcionarem.
“A comunicação aberta entre os parceiros gera percepções de igualdade, confiança e comprometimento no relacionamento além de facilitar o processamento de sentimentos de ciúmes”, diz Jaroslava.
Os riscos A professora Jaroslava Varella Valentova explica que a não-monogamia, assim como a monogamia, não é para todos.
“Algumas pessoas (e casais) preferem e estão satisfeitas em relacionamentos com um parceiro só, enquanto outras preferem se relacionar com mais indivíduos. Isso precisa ser analisado e bem pensado. Cada um junto com o parceiro deveria analisar detalhadamente que tipo de personalidade, quais as necessidades e qual o nível de autocontrole, para poder assumir papel de parceria de um dos inúmeros tipos [de relacionamento] descritos acima”, diz.
Juliana Braz Dias, professora do Departamento de Antropologia da UnB, explica que não é possível afirmar que o ser humano é naturalmente monogâmico ou o contrário. "Eu diria que o que faz parte da natureza humana é o desejo de estabelecer relações afetivas e/ou sexuais. Mas é o contexto sociocultural que influencia nas escolhas – e às vezes determina – se e quando essas relações serão estabelecidas e sob que formato", diz. (Leia mais abaixo)
A não romantização da não-monogamia Tensões e conflitos acontecem em qualquer tipo de união conjugal, como afirma a professora Juliana Braz Dias. "Ser contra a possessividade não significa necessariamente não sentir ciúmes. [...] E, como em todo relacionamento, regras que estabelecem limites, direitos e deveres ajudam a manter a estabilidade", diz.
Além dos conflitos, a manutenção de diferentes opressões, como machismo, racismo, etarismo e capacitismo, continuam sendo parte dos relacionamentos não-monogâmicos, aponta o professor Antonio Pilão. Não é por quebrar o padrão da monogamia, que todos os outros serão automaticamente deixados para trás.
"O debate sobre não-monogamia se tenciona com as diversas desigualdades e hierarquias sociais. Por mais que se queira comprometer com várias pautas, pessoas negras, com deficiência, velhas, gordas, todas estão dispostas em uma posição hierarquicamente inferior nas relações sociais. O que gera consequências não só para monogamia e também para relações não-monogâmicas”, afirma.
Legislação no Brasil Além da questão afetiva, os relacionamentos não-monogâmicos são envoltos também pela questão política e jurídica no Brasil. Segundo Antonio Pilão, os debates sobre o poliamor começaram no início dos anos 2000 no país e ainda são recentes.
"As relações familiares e conjugais são reguladas pelo Estado. [...] O que acontece com os filhos de uma relação de trisal? Quais são as consequências? O Estado aparece como um ator fundamental tanto para legitimar essas relações tanto no sentido simbólico - reconhecimento de união estável – como no sentido prático – plano de saúde, direitos previdenciários, distribuição de herança, reconhecimento de paternidade e maternidade”, afirma. (Leia mais abaixo)
De acordo com o professor, o Estado brasileiro tem como preocupação garantir a monogamia como única forma de construção do casamento. A bigamia, casamento com mais de uma pessoa, é crime no Brasil, previsto no art. 235 do Código Penal, com penas que variam de um a a seis anos para os envolvidos.
No entanto, em 2012, houve o reconhecimento do primeiro relacionamento poliafetivo na cidade de Tupã, no interior de São Paulo. Seis anos depois, em 2018, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) proibiu que cartórios no país registrem uniões poliafetivas, o que tornou inválida juridicamente a oficialização realizada em Tupã.
Além da decisão do CNJ, o Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitou o reconhecimento de duas uniões estáveis simultâneas. A decisão de 2020, com repercussão geral, marca, para o professor Antonio Pilão, um cenário complicado para relações não-monogâmicas.
“A discussão de não-monogamia ainda é uma discussão bastante marginal e folclorizada e isso compromete a capacidade de enxergar a importância e de entender essa forma de diversidade como uma forma importante de constituir família", diz o antropólogo.
Geração Z: como será o futuro? O g1 entrou em contato com aplicativos de relacionamento para buscar entender como são vistos os relacionamentos não-monogâmicos por usuários das plataformas. O Bumble conduziu uma pesquisa global com mais de 14.000 de seus membros em 2022 e cunhou uma tendência de namoro para 2023 chamada "Ethical Sex-ploration" ou "exploração sexual ética", em tradução livre. (Leia mais abaixo)
Essa tendência mostra que 42% da comunidade global do aplicativo está abordando sexo, intimidade e namoro de maneira aberta e exploratória. Em 2022, um em cada cinco usuários explorou mais sua sexualidade e um em cada oito consideravam ter um relacionamento não-monogâmico.
Já o relatório produzido pelo aplicativo Tinder, o "Future of Dating 2023", revela que jovens de 18 a 25 anos (Geração Z) estão reinventando as relações de uma forma que nenhuma geração anterior havia feito.
A autenticidade, a sinceridade, o bem-estar mental, a honestidade e o respeito são agora peças centrais dos relacionamentos nesse novo cenário. A Geração Z está priorizando qualidades baseadas em valores como lealdade (79%), respeito (78%) e mentalidade aberta (61%), em vez de aparência (56%).
Definir o futuro das relações, em um período de questionamentos e enfrentamento de padrões sobre sexualidade e afetividade, é uma tarefa complicada, segundo a professora da UnB Juliana Braz Dias, que destaca que a única certeza é a transformação.
"Acompanhamos atualmente vários movimentos que questionam concepções hegemônicas de gênero, sexualidade e conjugalidade. Não podemos, contudo, prever o que acontecerá diante dessas novas experiências e das demandas associadas a elas. A única certeza que temos é que as sociedades são dinâmicas e se transformam, seja lentamente ou de modo mais rápido. Mas não podemos prever que rumo elas irão tomar", diz Juliana Dias. (Leia mais abaixo)
Fonte: G1