03/12/2016 18h39 | Foto: Divulgação

No momento em que o país se prepara para uma reforma da Previdência, que vai exigir que as pessoas trabalhem por mais tempo para garantir a aposentadoria, dados do IBGE mostram que o brasileiro ainda começa a trabalhar cedo. Em 2015, 44,2% dos ocupados maiores de 14 anos haviam começado a trabalhar antes de completar essa idade. Dez anos antes esse indicador era ainda pior: os trabalhadores precoces representavam 56% do total de pessoas trabalhando.
A entrada precoce no mercado de trabalho é mais comum entre os idosos: em 2015, dois terços deles (67,7%) tinham começado a trabalhar com até 14 anos. Entre os ocupados de 15 e 29 anos de idade essa parcela também é expressiva: 29,2% entraram no mercado de forma ilegal, já que a legislação brasileira proíbe o trabalho para jovens até 14 anos. Os dados são da Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, divulgada ontem.
Na avaliação do professor do Instituto de Economia da UFRJ João Saboia, a parcela dos trabalhadores jovens (entre 15 e 29 anos) que entra cedo no mercado de trabalho é muito alta e prejudica as perspectivas para a vida profissional dessas pessoas:
— É um número altíssimo. O trabalho antes dos 14 anos é ilegal e, em geral, é informal, com todas as suas desvantagens. Esse jovem ou não estuda ou estuda pouco, o que compromete seu futuro e o do país, porque há grandes chances de ter baixa produtividade.
MAIORIA SÓ TEM O FUNDAMENTAL
Apesar da preocupação com o dado, Saboia afirma que ele não pode ser argumento para rebater a reforma da Previdência. Isso porque, segundo ele, com o envelhecimento da população, é preciso evitar, de forma urgente, as aposentadorias precoces.
— Independentemente do fato de ter começado a trabalhar cedo, não é justo que as pessoas se aposentem aos 55 anos, por exemplo. Sou a favor da idade mínima de 65 anos. A população idosa vai crescer muito, enquanto a de jovens tende a diminuir. Esse quadro mostra a seriedade do problema da Previdência — afirma o professor da UFRJ.
Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Dieese, observa, contudo, que, historicamente, entram precocemente no mercado de trabalho os mais pobres. Portanto, a reforma, ao propor eliminar a aposentadoria por tempo de contribuição e fixar em 65 anos a idade mínima para acessar o benefício, é injusta com a maioria mais pobre:
— O tempo de participação no mercado de trabalho é muito desigual. Jovens de classe média tendem a entrar no mercado só depois dos 25 anos.
Além disso, os idosos que se mantêm na ativa tendem a ter um grau de escolarização mais baixo que o das demais faixas etárias. Entre as pessoas ocupadas de 15 a 29 anos de idade, a média de anos de estudo era de 10,1 anos em 2015. No grupo de 30 a 59 anos, o número caiu para 8,9 anos. Já entre aqueles ocupados acima dos 60 anos, o número é menor, de 5,7 anos. Assim, 65,5% dos idosos inseridos no mercado de trabalho tinham como nível de instrução o ensino fundamental (ou equivalente) incompleto.
Fonte: O Globo