Massas e biscoitos devem ficar 6% mais caros

Com alta do dólar, indústria terá que corrigir preços em fevereiro caso a moeda mantenha trajetória de valorização


23/01/2016     12h03     |    Foto: Divulgação pãoO dólar disparou, atingindo a cotação recorde de R$4,16 frente ao real, a maior nos últimos 20 anos. A forte valorização da moeda ocorreu um dia após o Banco Central manter a taxa básica de juros do país, a Selic, em 14,25% ao ano. A decisão foi vista pelo mercado financeiro como um afrouxamento do controle da inflação. A alta do dólar piora ainda mais a situação porque a valorização da divisa — que em 2015 subiu 48,49% e este ano mais 5,51% — pressiona os preços de diversos produtos importados, principalmente os atrelados ao trigo. Assim, se a moeda mantiver a trajetória de alta, macarrão, biscoito e pães industrializados vão aumentar, em média, 6% a partir do começo do mês que vem, estima a associação do setor (Abimapi). Carne bovina, frango, café e enlatados também devem encarecer. Toda a movimentação refletirá na inflação, que pode chegar a 7,5% este ano.  Segundo o presidente da Abimapi, Claudio Zanão, os estoques de trigo ainda estão abastecidos. Mas, caso o dólar se mantenha em trajetória de valorização será necessário recompor preços. “A farinha de trigo pesa de 60% a 70% no custo do pão e do macarrão. Já dos biscoitos varia de 30% a 40%. Como as indústrias do setor importam metade dos 10 milhões de toneladas do trigo consumido, o dólar tem influência direta nos preços”, explica. Zanão ressaltou que no ano passado houve aumento médio de 12% dos produtos, também devido à correção da energia elétrica e da alta da mão de obra. Para o executivo, com um dólar próximo a R$ 4 o setor não precisaria mexer nos preços. Uma fonte do setor de panificadoras do Rio alegou que os estoques de trigo dos estabelecimentos devem segurar inicialmente os preços do pão francês para o consumidor, seguindo o mesmo movimento das indústrias de massas e biscoitos. Para o economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), André Braz, o cenário de incerteza política e econômica foi o principal fator que puxou a alta do dólar. “O aumento dos juros teria pouco efeito na inflação. As famílias já não estão consumindo tanto. Parte dessa inflação é pela desvalorização do real e demanda de energia”, diz. “Ano passado, apostávamos na inflação de 6,4%, mas a projeção está agora em 7% e sendo revista para 7,5%”, declara o especialista.   Nelson Barbosa: reduzir desigualdade é tão importante quanto aumentar o PIB O ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, disse ontem que a retração econômica não é normal, mas “uma fase de transição para o Brasil”. Ele participou de um painel no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, sobre a retomada do crescimento global. Com o novo cenário internacional de queda no preço das commodities, o país está se adaptando a essa realidade, segundo o ministro. O Fundo Monetário Internacional (FMI) piorou a projeção de queda da economia brasileira este ano. A estimativa para a retração do Produto Interno Bruto (PIB) passou de 1% para 3,5%. De acordo com o FMI, 2016 será o segundo ano consecutivo de queda da economia. Em 2015, de acordo com o fundo, houve retração de 3,8%. Em 2017, a expectativa é de crescimento zero para o PIB. Barbosa afirmou que o Brasil se beneficiou dos preços altos de commodities e investiu os recursos na rede proteção social. “Reduzir a desigualdade é tão importante quanto aumentar o PIB per capita em economias emergentes e isso requer ação governamental. Mesmo em um cenário econômico mais adverso, o governo tem que atuar para reduzir a desigualdade, e o desafio é manter as políticas de redução da desigualdade.” Para o ministro, é possível ter aumento de produtividade e, ao mesmo tempo, diminuição da desigualdade. “A chave para conseguir isso é ter as instituições certas para distribuir os ganhos de produtividade de uma forma que gere mais oportunidades de emprego e melhor qualificação da força de trabalho.” Perguntado sobre o papel do país para a volta do crescimento da América do Sul, Barbosa destacou que a retomada econômica exige aumento dos investimentos. “O Brasil tem uma baixa taxa de investimento comparada a outras economias emergentes, e nossa principal tarefa é aumentar nosso investimento, o que requer não apenas mais estabilidade macroeconômica, mas, especialmente, um papel mais ativo do governo para coordenar os projetos de investimento e incrementar a integração regional”, completou.



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