Marcelo Sampaio: "O novo projeto do governo Wladimir contempla a cultura"

PALÁCIO DA CULTURA- Professor, pesquisador de MPB, polemista e agitador cultural afirma que ‘a arte terá protagonismo”


  • 05/08/2021, 07h55, Foto: Filipe Lemos/Campos 24 Horas.

Marcelo Sampaio é, antes de tudo, polemista. Um agitador cultural sempre em prontidão nas batalhas e trincheiras dos debates e embates sobre cultura, música, filosofia e brasilidade. Nesta entrevista ao Campos 24 Horas, o professor de História, pesquisador de música popular e membro do Conselho Municipal de Cultura analisa a nova configuração do Palácio da Cultura no projeto que vai integrar cultura, educação, ciência e tecnologia apresentado pelo governo municipal a representantes dos segmentos culturais na última quarta-feira (1º) no auditório da Prefeitura de Campos.  Sampaio chega a dizer que no governo Rafael Dinz "o protagonismo da cultura foi completamente extirpado do Palácio da Cultura". (leia a entrevista completa abaixo)

Campos 24 Horas - Como você avalia esta proposta de integrar cultura, educação, ciência, inovação e tecnologia num mesmo espaço?  Marcelo Sampaio - Muito melhor do que já foi o projeto anterior na época do prefeito Rafael Diniz, onde o protagonismo da cultura foi completamente extirpado do Palácio da Cultura. Esse projeto apresentado pelo governo do prefeito Wladimir Garotinho define muito bem a área da cultura e que as ações da ciência, inovação e tecnologia sejam com viés cultural, isso é importante. Mas o protagonismo das artes e da cultura, isso é fundamental. (Leia mais abaixo)

Campos 24 Horas - A cultura, então, não reclama de protagonismo...  Marcelo Sampaio - Veja bem, não estamos dividindo o protagonismo da cultura, mas cedendo parte física do prédio, que não tem nome, mas todo mundo chama de Palácio da Cultura, um simbolismo que aí é mais importante até do que o real. Então, esse projeto não atende não só a mim mas também aos companheiros do Conselho Municipal de Cultura.  Campos 24 Horas - Então, vocês do Conselho Municipal de Cultura estão confiantes na implementação de um projeto cultural em Campos?  Marcelo Sampaio - Olha, como tudo na cultura, nós temos pela frente uma luta diária. Precisamos demarcar posições e territórios porque daqui a pouco vão achar que bom é Wesley Safadão, não é Chico Buarque. Não adianta apenas estar no discurso ou no papel, mas vamos dialogar e lutar para que as coisas aconteçam na prática do dia dia. Na práxis, como diria o companheiro Karl Marx. 

Campos 24 Horas - O secretário de Educação, Cultura, Ciência e Tecnologia, Marcelo Feres, admite que uma secretaria com um projeto com a cultura vinculada à educação proporcionará mais recursos para tocar projetos culturais com aportes do Fundeb, repassados pelo Ministério da Educação. De que forma o  setor vê o funcionamento desta proposta?     Marcelo Sampaio - Sim, óbvio que é importante mais recursos para os projetos culturais. Mas temos que separar até mesmo educação da cultura. Eu discordo de alguns companheiros da cultura quando afirmam que saúde e educação são melhores: a cultura é muito mais importante que todas as áreas. Agora vou sair da dimensão cultural enquanto manifestações artísticas. A cultura torna as pessoas melhores, com maior nível de civilidade. Ela está no escovar dentes todos os dias, no lavar as mãos ou não jogar lixo nas ruas. O povo adora reclamar de prefeitura e da empresa que recolhe lixo, mas vai lá e atira papel de bala na rua. O outro anda com carro zero KM e joga coco com canudo e tudo pela janela do veiculo, mais garrafa de plástico e mais coisas. Com uma cultura mais forte teremos menos gastos em saúde e segurança, além de uma vida melhor que vai fazer com que gastos em saúde sejam também menores. Menos gastos no transporte porque quem tem cultura não vai de carro onde pode ir a pé e parar para pegar ou deixar filho no colégio sem se importar com o carro que está atrás. Não tenho nada com o pai e mãe levando filho e filha pro colégio. Quero que se danem. Quero saber que ele não pode parar o carro no meio da rua e interromper o trânsito, criando um problema social em algo que é individual. 

Campos 24 Horas - Como professor, pesquisador, artista ou agente cultural, como vê hoje este país onde um governo ataca artistas, educadores, cientistas e ambientalistas? Como observa esta barbárie civilizatória?  Marcelo Sampaio - Sou professor de História. O primeiro presidente da República foi Deodoro da Fonseca, em 1889, século 19. Não corro o menor risco em afirmar que Bolsonaro não é só o pior presidente da História do Brasil. Mais do que pior, ele é menor, é pequeno. Não pode ser considerado nem mesmo como um ser humano porque não tem nada de humanístico. É o oposto. Quem faz oposição a Bolsonaro não faz oposição a um político do centrão ou de direita, seja radical ou não, mas a um sujeito que não tem o mínimo respeito a todos preceitos humanistas e civilizatórios. Ou seja, ele representa o que há de pior. E o mais lamentável, ele sempre foi assim. Quem votou nele, não venha me dizer: “votei e me enganei”. Por de tudo ainda: tem gente que até hoje o defende.

Campos 24 Horas – Marcelo, sua vida cumpriu trajetórias no teatro e outras manifestações, mas a música, especialmente o samba, tem ultimamente ocupado suas atividades como pesquisador ou em lives e entrevistas nas redes sociais. Ouvir música torna uma pessoa melhor?  Marcelo Sampaio – Depende da música. Marília Mendonça me dá vontade de suicídio. Ainda bem que não ouço. Há pouco tempo pensei que era uma dupla caipira, Marília e Mendonça. Mas ela veio fazer um show na Pecuária, na Fundação Rural de Campos, e aí a vi dando entrevista para uma TV. Descobri que era uma só uma cantora, pensando que fosse uma dupla tipo Simone e Simaria, como outras porcarias que andam por aí. Mas ouvir música é a coisa mais completa artisticamente que uma pessoa pode fazer. Sou mais ligado ao teatro e literatura. Mas tenho que admitir que a música consegue uma penetração interior nas pessoas que dificilmente outras manifestações atingem.  

Campos 24 Horas - Campos já deu tantas figuras exponenciais e grandes talentos ao samba e à MPB deste país como Wilson Batista, José Ramos, Mercedes Baptista, Roberto Ribeiro, Délcio Carvalho, Aluisio Machado, Jurandir da Mangueira, Jorginho Pessanha, Zezé Mota, Miltinho do MPB 4, Barrosinho da Banda Black Rio, Rogério Bicudo e Roberto Marques, (o Trombone do Brasil) e Rômulo Gomes, entre outros. Este celeiro morreu ou está adormecido?  Marcelo Sampaio - Como em todo Brasil, a música em Campos caiu muito. Mas temos ainda grandes nomes, gente nova com muito talento como Matheus Nicolau que um é músico de excelência. Não temos um distanciamento histórico para fazer com que nossa análise seja mais isenta do cotidiano. O Marcelo Benjar também é outro. São campistas, pessoas da nova geração, e talentosíssimas. O Toninho Chita está aí, ainda vivo, hoje o maior compositor de sambas de enredo de Campos. Marcelo tem um violão afro muito parecido com João Bosco. O Matheus,  vamos dizer assim, com um estilo mais chicobuarqueano ou jobiniano. (Leia mais abaixo)

Campos 24 Horas - E o carnaval, Marcelo? Campos teve o segundo maior carnaval do Estado. Há quem diga que chegou a ser o terceiro o maior do país.   Marcelo Sampaio – Campos deixou de ter carnaval em 2009, quando passou a haver essa excrescência da folia fora de época. Primeiro, vou repetir ad eternun: o carnaval tem preceitos filosóficos, antropológicos e sociológicos, que fazem com que ele aconteça no verão e na data do calendário. Ouça, carnaval (canevale, em italiano) é a festa da carne, tem um simbolismo da data, basta pesquisar. E outra: tem que acontecer no Centro, como em outras cidades, mas foi levado para o Cepop, o Centro de Eventos Populares Osório Peixoto, muito afastado do Centro, quase no inicio da estrada que leva Campos a São João da Barra.  Ora, m dos preceitos do carnaval é subverter a ordem, ninguém consegue subverter a ordem em bairros, mas no Centro, onde o cara pega o ônibus e desce no ponto que vai ter rua interditada. Quem gosta não liga, quem não gosta reclama, mas isso não ocorre em bairros ou em lugar isolado ou fora de data. Quem vai ao centro de Campos de 2009 pra cá nem percebe que estamos no carnaval.  



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