Mandetta detona Bolsonaro na CPI, e Pazuello afirma que não irá depor

Ex-ministro afirma que o laboratório do Exército produziu cloroquina em alta escala e Brasil poderia estar vacinando desde o ano passado


  • 04/05/2021, 11h40, Foto: Divulgação.

O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, em depoimento agora à CPI da Covid, no Senado, disse que o Brasil poderia estar em uma situação muito melhor. “Sim, o Brasil podia mais. Poderíamos estar vacinando desde novembro do ano passado”. Mandetta também afirmou que Bolsonaro foi alertado das consequências de não ouvir a ciência, inclusive com a projeção de alto número de mortes caso as medidas indicadas pela OMS não fossem seguidas. .

"O que havia ali era um outro caminho, que ele decidiu, não sei se através de outras pessoas ou por conta própria", afirmou. "Era muito constrangedor explicar porque o ministério estava indo por um caminho e o presidente por outro". . (Leia mais abaixo)

Questionado pelos senadores se houve alguma proposta técnica do presidente Jair Bolsonaro ao ministério quando estava na pasta, Mandetta afirmou que não e que "o que havia ali era um mal estar".

O ex-ministro chegou a dizer que viu uma minuta de documento da Presidência da República para que a cloroquina tivesse na bula a indicação para Covid-19 e que o presidente Jair Bolsonaro parecia ouvir "outras fontes" que não o Ministério da Saúde. 

De acordo com Mandetta, a ordem para que o Laboratório Central do Exército produzisse cloroquina em larga escala ocorreu de maneira "alheia ao Ministério da Saúde". Ele destacou nunca ter recomendado, como ministro, a adoção do medicamento contra a doença, a não ser o uso em pacientes graves, em hospitais. 

“A ordem não partiu do Ministério da Saúde. A única coisa que o ministério fez era recomendar para o uso compassivo, aos pacientes graves, em uso hospitalar. Mesmo porque é uma droga em que a margem de segurança dela é estreita. Ela tem uma série de reações adversas. A automedicação com cloroquina e outros medicamentos poderia ser muito arriscada para as pessoas", disse Mandetta.

Mandetta afirmou também que o Ministério da Saúde nunca foi pressionado por Bolsonaro, mas, sim, "confrontado publicamente", e que essa postura acabou prejudicando o combate à pandemia no Brasil. (Leia mais abaixo)

“Isso dava uma informação dúbia à sociedade. Diretamente a mim, pressionado a mudar algo, não. Mas você tem que ter a unidade, a fala única. O raciocínio não é individual. Ele (o vírus) ataca tudo, a sociedade como um todo. Ele ataca o sistema de saúde a ponto de derrubá-lo. E houve uma ruptura. A medicina ficou completamente dividida”, declarou ainda o ex-ministro.

Em 16 de abril de 2020, no início da crise sanitária no Brasil e após longo desgaste na relação com Bolsonaro, Mandetta foi exonerado. O médico defendia o uso de máscaras e era contra a indicação de medicamentos sem eficácia comprovada contra a covid-19.

Depois do depoimento de Mandetta será a vez de Nelson Teich, também ex-ministro da Saúde. O depoimento do ex-ministro Eduardo Pazuello estava marcado para quarta-feira (5), mas o general alegou que manteve contato com assessores que estão com Covid e ele pode estar contaminado, por isso não irá à CPI nesta quarta-feira. O depoimento está marcado para 10h. Apontado como principal testemunha da omissão do governo na pandemia, o militar cria estratégias para evitar danos ao Executivo.

O ex-ministro deve tentar autorização para depor a distância, on-line, ou adiar em uma ou duas semanas sua oitiva. Os senadores avaliam quais os prejuízos para o andamento dos trabalhos de investigação com a ausência presencial de Pazuello. A avaliação é de que pela internet ele pode ser orientado quanto às perguntas realizadas pelos parlamentares.

Nos bastidores, fontes ligadas ao Executivo afirmam que a orientação para faltar ao depoimento presencial partiu do Palácio do Planalto. O governo está preocupado com o teor das declarações do militar, que vem recebendo orientação de auxiliares de Bolsonato para enfrentar a sessão. A estratégia seria ganhar tempo para avaliar e rebater os depoimentos de Mandetta e Teich. (Leia mais abaixo)

A gestão de Pazuello ocorreu no auge da crise da covid-19, com registro de estoques zerados de oxigênio em Manaus, aumento potencial de mortes e de infectados pela Covid-19 e atraso na compra de vacinas. Senadores avaliam manter o depoimento, pela internet, e convocar Pazuello posteriormente, de maneira presencial, para esclarecer eventuais dúvidas.

 

 



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