'Lugar de mulher é também na Polícia', afirma delegada Madeleine Farias; vídeo

Delegada da 146ª DP é a entrevistada do Programa Radar 24H: a presença da mulher na área da segurança e o combate à criminalidade em Campos


  • 13/07/2022, 06h22, Foto: Campos 24 Horas.

(Vídeo da entrevista ao final desta publicação) - Lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive na Polícia, desde que tenha competência e mostre resultados. A conclusão é da delegada Madeleine Farias Dykman, que responde esse mês pela 146ª Delegacia de Guarus, em entrevista ao jornalista Fabiano Venancio, no programa Radar 24 Horas, veiculado nas plataformas digitais do site Campos 24 Horas, nesta terça-feira (12), quando a policial falou sobre a presença da mulher na área da segurança pública, como ser feminina num ambiente tão masculino e ser respeitada pelo sexo oposto, o 'batismo de fogo' que se deu em seu primeiro plantão numa delegacia da cidade do Rio e como aconteceu o trabalho para diminuição de crimes em Guarus. Ela ainda comenta sobre uma situação delicada que enfrentou quando atuava em São João da Barra. Madeleine Farias ilustra com números um quadro preocupante de agravamento e, ao mesmo tempo, afrouxamento da segurança pública no Brasil. “Segundo estatísticas, são 700 mil bandidos que deveriam estar presos".  (leia abaixo)

— A mulher, ao longo do tempo, vem conquistando seu espaço, através da competência. É claro que o ambiente numa delegacia é bem hostil e envolvido numa criminalidade muito ostensiva. A mulher quando chega nesse ambiente, com certeza sente um impacto, mas com o desenvolver das atividades, começa apresentar sua capacidade e as aptidões, mostrando sua competência, aquela desconfiança inicial cede lugar à realidade dos bons resultados, e aí a gente vai fazendo nosso nome, foi o que aconteceu comigo. Sou delegada há 14 anos entrei na Polícia Civil aos 26 anos ainda com uma carinha de criança, imagine — comentou. (Leia mais abaixo)

— Quanto ao preconceito, dentro da instituição há uma hierarquia estabelecida, e os policiais que vão sempre te tratar com respeito. Acho que em seu íntimo, eles pensam assim: vamos ver como ela vai administrar isso. Mas com o seu comprometimento, o desempenho nas investigações e o resultado do seu trabalho, a própria insegurança vai passando e você vai se robustecendo. Porém, acho que essa desconfiança acontece também com todo delegado novo que entra ali, como ocorre com a mulher. Mas, mesmo num ambiente predominantemente masculino, não vivi nenhuma atitude discriminatória ou desrespeitosa — analisou a delegada.

“A mulher é feminina e assim deve continuar sendo. Quando entro na delegacia vou de salto alto e maquiada como estou aqui, mas quando há necessidade de sair para uma operação a indumentária é outra. Você vai para o front, acorda às vezes 3h ou 4h da manhã para uma operação, mas leva armadura e o colete, entre outros assessórios”, explicou.

O batismo de fogo de Madeleine se deu logo em seu primeiro plantão, na delegacia do bairro da Piedade, zona norte do Rio.  “Foi um plantão assustador numa época muito difícil, pouco antes da invasão do Morro do Alemão, com muitos arrastões e criminosos armados de fuzis. No meu segundo plantão houve um arrastão perto de nós quando as pessoas invadiram a delegacia para se abrigar. Depois num domingo houve intenso confronto entre facções rivais nos morros do Macaco e São João. Um dos grupos subiu pela mata e foi até a última casa do morro e praticou uma chacina com uma família inocente”, relatou.

Madeleine chegava ao plantão num domingo e teve que acompanhar os policiais no trabalho de perícia. “O dr. Beltrame (secretário de Segurança) disse que me queria no local acompanhando a perícia. A gente sobe com o apoio dos blindados na mira dos bandidos no outro lado morro. E vou confessar você que foi um momento muito difícil, a gente estava mira do bandido. Era uma sensação de que você estava fio da navalha, tudo podia acontecer. Aí quando a gente chega na última casa, só eu lá, recolhi 150 capsulas de fuzil, quatro crianças executadas. Cenas muito fortes. Duas semanas depois, também no meu plantão, o outro grupo invade o morro rival para revidar a chacina, quando caiu aquele helicóptero e morreu um policial”, conta.

“Treino é treino, jogo é jogo”. A famosa frase do campista Didi, bicampeão mundial de futebol nas Copas de 1958/62 é comumente utilizada pela delegada para estabelecer diferenças entre o que aprendeu na Academia de Polícia e as circunstâncias em que eventualmente é chamada a intervir no cumprimento de seu ofício. (Leia mais abaixo)

— Nós somos treinadas para enfrentarmos essas situações. Há uma prova discursiva, outra objetiva e os treinamentos na academia, onde você se depara com situações de confronto como elas são na vida real, mas treino é treino, jogo é jogo. Na academia você é protegida com todo aquele aparato, porém não é como num confronto real, quando você vê o primeiro tiro de fuzil rompendo ao lado do seu ouvido. Então, a coisa muda de figura. É uma outra situação.

A delegada traz também alguns exemplos de situações de riscos no combate à criminalidade em Campos. "Aqui em Guarus mesmo, quando a gente sai para cumprir um mandado de busca, muitas vezes as pessoas não sabem a realidade que passa a Polícia numa rua com barricadas, onde a viatura que poderia nos proteger não entra, tem ficar de longe. Então, a gente entra correndo naquelas vielas sob o risco de alguém que você não viu te atirar por trás. Tem toda uma demanda de andrenalina e risco", destacou a delegada.  

Outra situação delicada enfrentada pela delegada ocorreu quando atuava em São João da Barra, no caso da morte do radialista Renato Machado, em 2013. “Eu estava malhando na academia pela manhã, quando caiu numa escuta que o executor do crime estava atrás de mim para me executar naquela semana. Já tínhamos prendido o autor, o mandante e o intermediário da negociação que ficaram presos por um ano, mas por excesso de prazo foram liberados por falta julamento. Então, conseguimos prender pela segunda segunda vez este executor através de um mandado em tempo recorde”.

Os índices de criminalidades em Campos ainda são elevados, mas a delegada argumenta que houve "redução extraordinária" em relação aos anos anteriores. "Por mais que se trabalhe e se esforce, há ainda a constatação quanto a sensação de insegurança da população. Se você considerar que Campos estava entre as 50 cidades com maiores indices de homicídios do País, e Guarus é um foco de letalidade, houve uma redução extraordinária".

A propósito, Madeleine Farias ilustra com números um quadro preocupante de agravamento e, ao mesmo tempo, afrouxamento da segurança pública no Brasil. “Segundo estatísticas, são 700 mil bandidos que deveriam estar presos, mas por um motivo ou outro estão soltos, enquanto uma pessoa é assassinada a cada dez minutos neste país. Cerca de 70% dos bandidos vão pra rua na audiência de custódia. É muita coisa. A falta de punibilidade gera este aumento da criminalidade”, finalizou. Veja vídeo da entrevista abaixo: (Leia mais abaixo)



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