– Esta é uma biografia de natureza documental porque fiz um trabalho muito intenso de pesquisa em documentos originais da época, como jornais, revistas, publicações que me ajudaram a recontar a história desta personalidade tão importante para a nossa música. Benedicto tem uma obra tão vasta, coesa, que fica impossível destacar algo de mais importante nela. Simplesmente porque tudo que ele fez foi grandioso – explica o autor que se encantou pela obra de Benedicto após casar-se com sua neta, Wyrthes Lacerda Cappelli Castello Branco.
Muitas curiosidades sobre o artistas estão descritas no livro. Sidney destaca, por exemplo, que Benedicto ajudou a compor o primeiro samba-enredo da Portela. É de sua autoria, também, a música “Flauta e Pandeiro” que, em 1946, fez parte da trilha sonora do filme “Você já foi à Bahia?”, de Walt Disney. Naquele ano, o longa concorreu na 18ª edição do Oscar como melhor trilha sonora. Lacerda teve participação em mais de 20 filmes, seja com seu regional cantando e tocando ao lado de grandes nomes da música ou como compositor.
– De todos estes filmes que Benedicto participou, quatro deles foram estrangeiros. Ele também foi o precursor da introdução da flauta no samba. Estas e muitas outras curiosidades eu descrevo no meu livro – revela o escritor, lembrando que uma das obras de Lacerda, a marchinha “A Jardineira”, quase 80 anos após sua composição, permanece entre as 10 mais tocadas do Carnaval no Brasil.
Sobre o título do livro, Sidney explica o termo “orfandade”: “Além de Benedicto ter sido abandonado pelo pai ainda criança, a palavra ‘orfandade’ tem outro significado. Muitas pessoas associam erroneamente a figura de Benedicto Lacerda a um mero intérprete das composições de Pixinguinha. Quando, na verdade, ambos foram parceiros e autores de grandes clássicos da nossa música. Houve um abandono e esquecimento das grandes obras que ele realizou. Por isso, o livro quer tirá-lo dessa orfandade e devolver-lhe o devido reconhecimento”.
Também do próximo dia 9, na mesma ocasião, será lançado pela primeira vez no Brasil o songbook Benedito Lacerda. Em agosto deste ano, o trabalho, resultado da parceria entre a Choro Music e Sidney Castello Branco, foi lançado nos Estados Unidos durante a Convenção Nacional de Flautistas. São 12 faixas com os maiores sucessos de Benedicto como “Dinorah”, “Flauta e Pandeiro”, “Pretencioso”, “Orgulho” e “Seresteiro”. “Todas essas músicas são 100% de autoria de Benedicto e muitos acham que teve a coautoria de Pixinguinha”, lembra Castello Branco.
O ícone – Benedito Lacerda nasceu em 14 de março de 1903 em uma família humilde de Macaé. A paixão pela música começou ainda na infância quando, de forma autodidata, começou a aprender flauta transversa. Em 1920, muda-se com a mãe para o bairro Estácio, no Rio de Janeiro. Aos 17 anos, chega ao reduto dos bambas e passa a ter lições de flauta com o chorão carioca Belmiro de Souza.
Em 1929, cria o grupo “Gente do Morro” com o qual grava cantando sambas e solando choros e valsas à flauta. No ano de 1934, funda o Regional de Benedito Lacerda, grupo este que gravou com as maiores estrelas da “Era de Ouro” da música brasileira (décadas de 30 e 40).
No ano de 1946, forma dupla com Pixinguinha e realiza uma série se gravações antológicas. A partir do início da década de 50, dedica-se a organizar sociedades arrecadadoras de direito autoral. Benedito faleceu em 16 de fevereiro de 1958, um domingo de Carnaval.