06/06/2015 - às 19h25 - Foto: Estadão

A rotina dos moradores do pequeno distrito de São Roque do Paraguaçu, em Maragojipe, no Recôncavo Baiano, sofreu um duro golpe nos últimos meses. Em menos de dois anos, a população local saiu da abundância de emprego ao súbito desemprego, com a paralisação das obras e operação do estaleiro Enseada Indústria Naval – o único grande empreendimento da região. O projeto foi afetado pela Operação Lava Jato, da Polícia Federal, e está parado. Hoje menos de 200 pessoas trabalham no local apenas para manter os equipamentos em ordem.
No auge da obra, em março do ano passado, 7.360 funcionários estavam empregados no estaleiro, sendo que 87% da mão de obra morava na região. Só no distrito de São Roque eram mais de 1 mil empregos numa população total de 6 mil pessoas. Quando as demissões em massa começaram, em novembro do ano passado, os moradores locais sentiram em cheio a reversão do cenário. Muitos tinham se endividado para comprar carros, construir ou reformar a casa e agora estão com o nome sujo na praça. Outros investiram todas as economias em negócios próprios que nem puderam ser inaugurados.
A paralisação do estaleiro chegou antes de os pequenos empresários abrirem as portas dos novos estabelecimentos. Sem perspectiva, a população local busca respostas: a principal delas é se o empreendimento voltará à ativa e se os empregos serão retomados. O questionamento, no entanto, está longe de uma solução. Para voltar ao normal, o estaleiro, que tem três sócios envolvidos na Lava Jato (Odebrecht, OAS e UTC), depende de dois fatores: da liberação do financiamento restante de R$ 600 milhões do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal e da retomada dos pagamentos da Sete Brasil (empresa criada para intermediar a construção de sondas da Petrobrás para exploração do pré-sal), que somam cerca de R$ 900 milhões.
No total, a Enseada construiria seis navios-sonda até 2020, num contrato de US$ 4,8 bilhões com a Sete Brasil, que vive uma intensa crise financeira desde que a Lava Jato foi deflagrada. “Estamos buscando uma solução alternativa de equacionamento financeiro com a Kawasaki (sócia do estaleiro) no mercado japonês, mas ainda é muito cedo para saber o resultado. Neste momento, o melhor seria a Sete Brasil ratificar o contrato”, afirma o diretor de Relações Institucionais e de Sustentabilidade do Enseada, Humberto Rangel.
Segundo ele, de novembro pra cá, mais de 6,6 mil pessoas foram demitidas do empreendimento. Isso significou R$ 120 milhões de salários que deixaram de irrigar a economia local nesse período. Com as famílias desempregadas e menos funcionários de fora das cidades, o comércio sucumbiu ao baixo movimento. Muitos já fecharam as portas e outros não sabem até quando aguentam arcar com as despesas. Sem demanda, eles também desempregam e provocam um efeito cascata. Ele conta que, da mesma forma que a chegada do estaleiro turbinou os negócios, a paralisia das obras devastou as finanças da empresa, que dependia quase que 100% da operação do empreendimento. Com a queda nos serviços e financiamento bancário, a transportadora teve de vender os veículos para pagar a rescisão dos funcionários e quitar a dívida no banco. “Não temos economia para suportar essa crise. Tudo que ganhamos reinvestimos no aumento da frota. Agora que íamos começar a lucrar, a obra parou”, diz Pereira, que nasceu em São Roque do Paraguaçu e sempre trabalhou com transportes.
O vaivém das pessoas no Rio Paraguaçu, entre o estaleiro e a comunidade, também atiçou o espírito empreendedor de Antônio Severino Santos, de 66 anos. Há um ano ele juntou o dinheiro de uma vida toda e comprou um barco por R$ 11,1 mil. Em apenas um dia, chegava a ganhar R$ 200 com as travessias de trabalhadores e visitantes. Agora consegue, no máximo, R$ 20 por dia. “Mas a gente sobrevive com o que tem. Se ganhamos R$ 1, gastamos R$ 1. Se ganhamos R$ 100, gastamos R$ 100.”
A história de João dos Santos Dias é ainda mais dramática. Ex-comerciante do ramo de supermercado e vestuário, decidiu apostar na área de hotelaria para capturar os ganhos que o estaleiro traria para a região. Começou com uma pousada: conforme o estaleiro crescia, ele ampliava o número de apartamentos. Chegou a ter 325 quartos, todos ocupados. A grande empreitada, no entanto, foi construir um clube de 19 mil metros quadrados, com 55 apartamentos, churrasqueira, duas piscinas, campo de futebol, estacionamento e área de eventos.
Tinha um pré-acordo com uma grande empresa para alugar os quartos para os funcionários, mas não deu tempo de inaugurar. O empreendimento está parado e a pousada fechada. Para diminuir o prejuízo, às vezes, ele abre o clube aos domingos para a população local e cobra R$ 10 por pessoa. “Ganhei muito dinheiro, mas gastei tudo em novos empreendimentos”, diz Santos Dias, empresário conhecido na região.
A mesma aposta fez o dono da Pousada Ponto Dez, que hoje tem 30 quartos disponíveis e, no máximo, quatro ocupados. A expansão do estabelecimento estava no meio do caminho quando a crise estourou. A construção do prédio, de quatro andares e 70 quartos, foi interrompida e os equipamentos guardados. Num quarto da pousada, que resiste ao escasso movimento de visitantes, foram armazenados todos os aparelhos de ar-condicionado. Até um elevador foi comprado e não tem onde ser colocado, conta um funcionário da pousada.
No empreendimento de Giodásio José Santos, os equipamentos chegaram e foram instalados. Mas ele também não teve tempo de inaugurar o restaurante, um sonho antigo da mulher Ivonete Antonia de Souza Santos. Durante três anos, os dois vendiam refeições para funcionários e visitantes do estaleiro. No início, a comida era servida na varanda da residência do casal. Em pouco tempo, o espaço ficou pequeno e foi necessário investir em um novo local para servir as refeições. O restaurante foi construído no fundo da praça da comunidade Enseada do Paraguaçu, pertencente a São Roque. Ali, durante meses, eles não davam conta de tanta demanda. “Servíamos 70 almoços por dia. De sexta-feira, até faltava comida para todo mundo”, lembra Santos.
Diante do sucesso do negócio e da promessa de que o estaleiro teria vida longa, Santos e Ivonete juntaram todas as economias que ganharam no restaurante e em empregos anteriores e ampliaram o estabelecimento. Mas quando a obra chegou ao fim, veio a notícia de paralisação do estaleiro. “Hoje vendo uma ou duas refeições por dia. Tudo que ganhamos reinvestimos no restaurante pensando que o projeto duraria uns 15, 20 anos. Agora, acumulo contas atrasadas. Foi muito bom enquanto durou.”
O rumo do estaleiro
A construção do estaleiro Enseada havia atingido 82% quando as obras foram paralisadas em abril. Se tivessem continuado no mesmo ritmo, nessa altura, o cronograma já teria alcançado 89% e até dezembro tudo estaria pronto. Hoje, no entanto, o caminho tem sido inverso: a empresa está guardando e empacotando tudo para evitar que a ação do tempo danifique os equipamentos ultramodernos, que resultaram de investimentos de R$ 2,7 bilhões aplicados até agora no empreendimento. No total, se o projeto for retomado, serão investidos R$ 3,2 bilhões.
No atual estágio, o estaleiro estaria empregando 5,8 mil trabalhadores, sendo 3 mil na construção da obra e 2,8 mil na parte industrial. Conforme a obra fosse acabando, o número de trabalhadores seria realocado na operação e manutenção do estaleiro. “Isso aqui era para estar pegando fogo, com operação a plena carga. Mas infelizmente não foi possível”, afirma o gerente industrial, Mario Moura. Ele conta que a empresa tem sido obrigada a iniciar um processo de hibernação dos equipamentos para evitar danos e estender o tempo de garantia das peças. Algumas máquinas são embaladas com plásticos ou caixas de madeira. As estruturas fixas, como trilhos, são cobertas com brita. Mas há aqueles equipamentos que não tem muito o que fazer, como é o caso do goliath – o símbolo da grandiosidade do empreendimento que ocupa uma área de 1,6 milhão de metros quadrados.
Trata-se de um superguindaste de 150 metros de altura (equivalente a 50 andares), com capacidade para içar 1.800 toneladas. Considerado o maior da América Latina, o equipamento demorou um ano para ser montado e exigiu o trabalho de 300 pessoas de cinco nacionalidades diferentes. Estava na fase de soldagem e testes quando foi totalmente parado.
Os prejuízos do estaleiro não atingiram apenas os equipamentos, mas também a parte intelectual. O Enseada Indústria Naval mandou cerca de 80 trabalhadores para serem treinados no Japão, onde o casco do navio Ondina (o primeiro que seria entregue) está sendo feito. Praticamente todos esses funcionários foram demitidos, o que representa uma grande perda para a empresa. “Mesmo que voltem ao trabalho, parte do aprendizado se perdeu com o tempo parado”, afirma Moura.
A chegada do estaleiro Enseada ocorreu em 2012, mas as discussões para a construção do empreendimento começaram bem antes. A partir de 2007, com a descoberta de grandes reservas no pré-sal, os Estados brasileiros travaram uma briga para receber um estaleiro. São Roque do Paraguaçu, que já tinha um canteiro para construção e reformas de plataformas da Petrobrás saiu vencedora. Ali já tinham sido construídas a P-59 e P-60, o que garantiu uma certa especialização da mão de obra local. “Mas hoje não temos nem plataforma nem estaleiro”, lamenta a moradora Viviane Rocha de Jesus, de 30 anos, ex-funcionária do estaleiro.
“Os trabalhadores se aperfeiçoaram e hoje não tem para onde ir. Não há perspectiva de obras nesse setor”, afirma o vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Pesada da Bahia (Sintepav/PA), Irailson Warneaux.
Como o Enseada, outros estaleiros estão com problema no Brasil inteiro desde que a Operação Lava Jato, da Polícia Federal, foi deflagrada no ano passado. As denúncias envolvendo as empreiteiras (sócias de boa parte dos estaleiros) e a Petrobrás respingaram na Sete Brasil, empresa que detinha os contratos de construção de navios. Sem crédito e com dificuldades financeiras, a companhia parou de pagar os estaleiros, que também tiverem cortes nos financiamentos bancários. Sem dinheiro nas duas pontas, esses empreendimentos – que inauguraram uma nova fase da indústria naval brasileira – pararam ou reduziram drasticamente a operação. Com a revisão dos planos de investimento da Petrobrás, o setor corre o risco de retomar o período de estagnação da década de 80.