
A inadimplência do ensino superior privado no Brasil superou a de pessoas físicas, medida pelo Banco Central (BC), no ano passado. Enquanto nos demais setores a taxa foi de 5,25%, nas faculdades bateu 8,93%. Na comparação entre 2017 e 2016, as instituições de pequeno porte foram as que registraram índices mais altos para atrasos em mais de 90 dias de atraso: 12,7%, valor bem superior ao das instituições de ensino superior de médio porte (6,5%) e ao das de grande porte (7,2%), segundo um levantamento do Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior (Semesp).
As projeções para 2018, realizadas pela Assessoria Econômica do Semesp, com base em indicadores de atividade econômica, número de contratos do Fies e entrevistas com mantenedores de instituições de ensino superior, também não são positivas: apontam para aumento da inadimplência para mensalidades com mais de 90 dias de atraso, devendo fechar em torno de 9,05%.
— A razão seria o prolongamento da crise econômica, agravada pelo cenário político totalmente indefinido, além da redução na oferta de crédito próprio das instituições de ensino superior aos alunos — opina Rodrigo Capelato, diretor executivo do Semesp.
Para não comprometer o orçamento, a estudante de Comunicação Social Yasmin Joviano, de 23 anos, teve que mudar de instituição no meio do curso, já que a mensalidade aumentava a cada período e chegou a R$ 2 mil. Com a transferência, ela ganhou 50% de desconto. Hoje, tem a despesa mensal de R$ 800, valor que paga com a ajuda da mãe, babá, e do pai, carregador de alimentos.
A mesma solução não foi suficiente para Cynthia Maximiano, de 21 anos. Mesmo sendo bolsista com 50% de abatimento, ela não conseguiu manter em dia a mensalidade do curso de Jornalismo, que paga com o salário de um estágio e com a ajuda da mãe, aposentada. Por causa da dívida relativa aos dois últimos meses, ela não consegue a renovação da matrícula para o próximo semestre:
— Os juros estão muito altos! Quando o financeiro da faculdade era a própria instituição, era possível pagar o valor original mesmo depois do vencimento. Hoje, o financeiro está terceirizado e eles não aceitam nenhum tipo de negociação.
Devido ao crédito do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), a estudante de Administração Stephanie Prazeres, de 28 anos, deveria pagar R$ 100 mensais em vez de R$ 800. Entretanto, depois que ficou desempregada, parou de efetuar o pagamento e acumula uma dívida que, inflada pelos juros, já chega a R$ 1.200.
Planejamento é necessário para a saúde financeira
Antes de começar a faculdade em uma instituição privada, é preciso analisar quanto esse investimento custará e qual a capacidade financeira do aluno ou da família que irá arcar com essa despesa. De acordo com o educador financeiro da DSOP Adenias Gonçalves, o aluno deve optar pelas alternativas mais econômicas no seu dia-a-dia, incluindo morar com amigos ou em república; usar transporte público ou andar de bicicleta; comer em lanchonetes ou levar marmita. Além disso, deve controlar os gastos extras, como baladas.
- Às vezes, a universidade é vista como status. Muitos estudantes se endividam porque começam a usar créditos do cartão e cheque especial como uma extensão do salário, quando eles não são. - opinou o educador.
Gonçalves ainda aconselha, antes de renegociar uma dívida, organizar as finanças para descobrir a real capacidade de pagamento e, assim, fazer um acordo que possa honrar. Entretanto, a inadimplência não é só provocada por descontrole financeiro. Muitas vezes, é decorrente da perda da fonte de renda. Para tais situações, existe o seguro educacional, que cobre o pagamento dos estudos até o fim do curso, em caso de morte ou acidentes que provoquem invalidez do responsável pelas mensalidades, ou por alguns meses, em caso de demissão. O contrato pode ser feito pela faculdade ou pelo próprio estudante.
- A procura pelos seguros educacionais vem crescendo com a crise. Muitas instituições embutem esse custo em suas mensalidades, que costuma ser cerca de 1% a 2% do valor.- contou José Varanda, professor da Escola Nacional de Seguros.
(Extra)