Campos 24 Horas - "Eu me sinto derrotada. É uma derrota pessoal". Essa é a forma com que uma profissional de Recursos Humanos, de 62 anos, que pediu para não ser identificada, descreve sua situação de endividamento. Atualmente, empréstimos consignados consomem cerca de 30% da sua renda.
A idosa conta que, depois de se aposentar, conseguiu manter uma reserva financeira, mas as dívidas começaram quando teve de arcar com as despesas relacionadas ao tratamento da mãe, diagnosticada com um câncer agressivo na boca. (Leia mais abaixo)
"Eu me desliguei da empresa. E o dinheiro foi acabando, e aí fui pegando empréstimo, fui renegociando e nada. Você vai entrando num buraco fundo que eu nunca tinha visto, nunca na minha vida pregressa. Eu fiz faculdade, pagava as minhas contas e nunca recorri a empréstimos, só depois de aposentada", relata.
Depois da morte da mãe, os esforços da aposentada se voltaram para o pai, hoje com 92 anos. Ela destaca que seu compromisso é o de não se endividar e comprometer a aposentadoria do pai, que é destinada a gastos como alimentação e condomínio.
Já a renda da idosa vai para as contas básicas (luz, água, telefone e internet) e seu plano de saúde. Os demais custos com o pai – como remédios e fisioterapia – são pagos no cartão de crédito, que acaba sempre no saldo devedor. Dessa forma, quando chega no fim do mês, não sobra nada na conta.
Hoje, ela busca uma reinserção no mercado de trabalho, porque não vê outra saída para dar fim ao endividamento.
"Quando você se aposenta, lá no final você pensa: 'graças a Deus, agora eu tenho uma reserva'. Eu queria até estudar ainda para um concurso, viajar, fazer alguma coisa… e você vai levada pela dívida. E você tem que assistir pai e mãe, claro, você tem que ajudar", desabafa. (Leia mais abaixo)
De acordo com dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o endividamento das famílias igualou o recorde do mês anterior em junho, afetando 81,6% por cento das famílias.
Nesse cenário, segundo a Serasa, 83,7 milhões de brasileiros estão inadimplentes, ou seja, negativados, com dívidas vencidas. Desse total, 20% (cerca de 16,7 milhões) são idosos.
O que explica o endividamento dos idosos? Uma pesquisa da Serasa Experian lançada em fevereiro mostra que 79% dos idosos possuem uma renda mensal de até R$ 2 mil. O mesmo levantamento aponta que 79,8% têm mais de 81% de sua renda comprometida com despesas e compromissos.
Comprometimento de renda mensal dos aposentados brasileiros (Fonte: Serasa Experian) - 81 a 100% da renda: 79,8% - 61 a 80% da renda: 2,2% - 41 a 60% da renda: 12,6% - 21 a 40% da renda: 5,3% - 0 a 20% da renda: 0,0%
A condição de endividamento faz parte da vida do aposentado Mário de Sant'ana, de 76 anos, há mais de uma década. Ele relata que contraiu um empréstimo consignado em 2015 para pagar uma reforma na antiga casa, e que vem, ano a ano, renegociando a dívida que, segundo ele, "nunca acaba". (Leia mais abaixo)
Do salário mínimo que recebe de aposentadoria, cerca de R$ 500 vão diretamente para o empréstimo e outros R$ 600 são destinados ao pagamento do aluguel. O restante, aproximadamente R$ 500, custeiam as contas básicas.
Com isso, toda sua renda mensal acaba comprometida. Sant'ana alega que conseguia faturar um dinheiro extra fazendo "bicos" como ajudante de pedreiro, mas teve que parar por causa de um problema de saúde.
"Antigamente, eu fazia biscaste de pedreiro, essas coisas, mas agora não estou podendo trabalhar por causa do ferimento no pé, porque tem que carregar cimento e aí não pode. Se não tivesse isso aí, eu poderia estar fazendo um bico para aumentar a renda", diz o aposentado.
Para o economista Tiago Velloso, alguns fatores explicam o endividamento dos idosos. O primeiro deles é baixa renda dos aposentados, cenário em que, segundo o especialista, qualquer aumento no custo de vida causa desequilíbrio no orçamento. Velloso também aponta para os casos em que o idoso compromete sua própria segurança financeira por conta de "pressão familiar", assumindo empréstimos para a ajudar filhos e netos.