domingo, 25vde janeiro de 2015 - Foto: Filipe Lemos/Campos 24 Horas

O principal reservatório do sistema que abastece a Região Metropolitana do Rio de Janeiro, o Paraibuna, na Bacia do Rio Paraíba do Sul, atingiu, na última quarta-feira, o chamado volume morto, que não permite mais a geração de energia.
É a primeira vez, desde a sua criação, em 1978, que a represa, localizada no Estado de São Paulo, atinge esse nível. De acordo com o relatório do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), divulgado nesta quinta-feira, a Usina Hidrelétrica Paraibuna foi desligada, e o restante da água que está na represa, 2,096 trilhões de litros, será usada para dar vazão ao sistema e para o consumo.
No Rio, diferentemente de outros estados, os reservatórios têm a função de geração de energia e de abastecimento humano e são de propriedade das usinas. Segundo a Secretaria estadual do Ambiente, porém, no momento, não há previsão de falta de energia e nem de água. De acordo com Agência Nacional de Águas (ANA), desde ontem, o reservatório começou a usar a água do nível abaixo do limite operacional para geração de energia elétrica, e o volume útil está em 0,08%.
Para usar o volume restante de água, diversamente do que ocorre na reserva do Sistema Cantareira, em São Paulo, não serão necessárias obras, pois a água é acessível por gravidade. Em São Paulo, intervenções foram feitas para a instalação de bombas capazes de acessar o volume morto.
Paulo Carneiro, pesquisador do Laboratório de Hidrologia da Coppe/UFRJ, alerta que a grande preocupação no momento é o modo como se dará o uso do volume morto. Carneiro explica que essa reserva de água funcionará como uma grande caixa d’água, que ajudará a dar vazão a todo o sistema e permitirá que a estação de tratamento do Guandu, que abastece a Região Metropolitana do Rio, possa continuar operando normalmente.
“É importante que seja usado. Se não usar o volume morto, a água que vai correr pode não contar com a vazão necessária”, explicou o pesquisador. Segundo ele, sem a pressão ideal, não ocorrerá a transposição na barragem de Santa Cecília, em Piraí, que fornece água para o Rio Guandu.
Carneiro diz que é preciso planejar a vazão a longo prazo, já que as chuvas do verão estão abaixo do normal, e o inverno é, em geral, uma estação seca. “As vazões vão ser permanentes ou vão flutuar? Qual vai ser a regra de operação?”, questionou. A ANA informou ontem que, por ora, as vazões atuais estão mantidas, mas o volume total da reserva acessível por gravidade ainda está sendo estudado.
O presidente da Cedae, Jorge Briard, disse, em solenidade em Angra dos Reis, que 2015 é o ano que começa com o menor volume de água em todo o estado desde 1991.
Falta de campanhas para economia é criticada
O presidente do Conselho estadual de Recursos Hídricos (Cerhi-RJ), Décio Tubbs, criticou ontem a falta de planejamento e de campanhas do governo para a conscientização na economia de água.
“Esse problema está maior agora por causa da falta de planejamento dos governantes. Nossas autoridades foram frouxas quando precisavam aconselhar a população a economizar água. Agora é torcer para chover e que o governo pense melhor na próxima crise, que não está longe”, afirmou Tubbs.
O professor da Coppe/UFRJ Paulo Carneiro ressaltou também a falta de dados concretos sobre a gravidade da situação. “O que me causa espécie é que já estamos entrando no volume morto, e nenhuma informação mais contundente aparece. Fica parecendo que está tudo sob controle, e não está”, afirmou.
O pesquisador explicou, que diferentemente de São Paulo, são diversos os usos de consumo das barragens do Paraíba do Sul, e agora todos precisam ser reavaliados. Em caso de falta de água, ele avalia que os locais que já têm dificuldade de distribuição (distantes ou mais altos) serão os primeiros a ser afetados, o restante vai depender do operador do sistema.
Segundo a Firjan, 30% das indústrias já são prejudicadas pela crise hídrica
O baixo nível dos reservatórios de água já prejudica 30% das indústrias fluminenses. Isso é o que aponta pesquisa da Federação das Indústrias do Estado do Rio (Firjan). Segundo o levantamento, das 487 empresas consultadas, metade afirma que o principal efeito sentido foi o aumento do custo de produção, o que pode afetar o bolso do consumidor.
Segundo Abílio Faia, coordenador de segurança e meio ambiente da Fábrica Carioca de Catalisadores, a empresa já enfrenta problemas por conta da diminuição da vazão do canal de São Francisco, abastecido pelo Rio Guandu, em Santa Cruz. Com a redução, o mar está entrando no canal, salinizando a água do canal. “Nosso abastecimento fica sanilizado durante um período de 5 horas, e só quando a maré baixa voltamos a ter água de qualidade”, disse o executivo.
Ministro: País pode ter grave problema de energia
O ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, disse ontem que, se os reservatórios das hidrelétricas brasileiras chegarem a níveis menores que 10% da capacidade máxima, o país poderá ter “problemas graves”, e o governo tomará as “medidas necessárias”, que podem incluir o racionamento de energia. Atualmente, os reservatórios do sistema Sudeste/Centro-Oeste estão em 17,43% de sua capacidade máxima e os da região Norte, em 17,18%.
“Mantido o nível que temos hoje nos reservatórios, temos energia para abastecer o Brasil. É óbvio que se tivermos mais falta de água, se passarmos do limite prudencial de 10% nos nossos reservatórios, estamos diante de um cenário que nunca foi previsto em nenhuma modelagem”, disse Braga.
Nos estados de São Paulo e Minas Gerais, o racionamento de água está cada vez mais próximo. Decisão da Agência Nacional de Águas (ANA), publicada ontem no Diário Oficial da União, estabelece que as companhias de saneamento básico, indústrias e agricultores de 38 cidades paulistas e quatro mineiras terão de reduzir a captação de água nos rios Jaguari, Camanducaia e Atibaia sempre que a vazão cair para limites entre 4.000 litros por segundo e 1.500 litros por segundo. A medida se aplica ainda quando o volume útil das represas Jaguari, Jacareí, Cachoeira e Atibainha, do sistema Cantareira, atingir 5%.
O nível de 5% foi alcançado na primeira metade de junho de 2014, quando o Cantareira passou a captar apenas a água do “volume morto”. A 6ª edição da pesquisa Indicadores de Referência de Bem Estar no Município mostrou que oito em cada dez paulistanos acreditam que é grandeo risco de acabar a água na cidade.
A escassez levou a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) a fazer solicitação ao Instituto Mineiro de Gestão das Águas para que seja decretada “situação hídrica crítica”, que dá poder à estatal de adotar o racionamento e de aumentar as tarifas.