Griôs dos sete quilombos de Campos dos Goytacazes têm memórias registradas em documentário

Filme será exibido no Museu Histórico de Campos com presença de griôs, roda de conversa e exposição fotográfica


  • 24/03/2022, 08h41, Foto: Divulgação.

As memórias dos sete quilombos de Campos enfim ganharam um registro para as gerações futuras. Com o patrocínio da Lei Aldir Blanc o documentário “Griôs: Histórias que os livros não contam – Memórias dos Sete Quilombos de Campos dos Goytacazes” foi gravado e editado em fevereiro deste ano e traz, de maneira inédita, os relatos dos mais velhos, chamados de griôs, das comunidades quilombolas reconhecidas e cartografadas da planície. Tais relatos, que historicamente, na cultura quilombola, são repassados de pais para filhos, na oralidade, agora ganham mais força para se perpetuarem, nas falas de quem resistiu para existir após o fim da escravização, com a servidão no corte da cana, que marcou e ainda marca famílias inteiras em nossa cidade. O filme, que também tem como finalidade, contribuir para a efetiva aplicação da Lei 10.639/03 nas escolas do município, será exibido no próximo dia 24, no Museu Histórico de Campos e tem o patrocínio da Lei Aldir Blanc, com apoio da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Fundo Municipal de Cultura de Campos dos Goytacazes (Funcultura), secretaria especial de Cultura, ministério do Turismo e Governo Federal.

Lucimara Muniz, que é presidente do Idannf, membro da diretoria da Associação das Comunidades Quilombolas do Rio de Janeiro (Acquilerj) e representante da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq), na região, falou sobre como a necessidade deste documentário surgiu em seu coração. (Leia mais abaixo)

— Quando percebi que a história que meu avô contava, dona Conceição contava, da Cidade de Palha, da religiosidade, tudo isso que vivi e vivências dos mais velhos, constavam na minha memória, mas não estavam em nenhum livro, foi então que me deparei no reconhecimento de que, muitas vezes somos renegados e invisibilizados por outros. É a desigualdade imperando. Todas estas histórias tinham de germinar, histórias que se entrelaçam como o tempo, nas falas dos mais velhos. Na melodia de alegrias e dores também. Quando pensei nesta ideia do documentário e em especial aos griôs das comunidades, foi no momento em que a história estava viva e a oralidade estava morrendo. Tínhamos que fazer esse registro para ser entregue às comunidades este registro e repassado para seus descendentes. Um formato de compreensão dos seus e de onde vieram ou onde vimos — contou.

A jornalista Daniela Abreu, responsável pela filmagem e edição do trabalho contou um pouco do caminho até o convite para a realização do projeto. “Há alguns anos me disponibilizo à assessoria voluntaria a entidades do Movimento Negro em Campos. Assim conheci a Lucimara Muniz e ela teve a generosidade de me juntar nessa luta. Há uns dois anos, Lucimara alertava sobre a necessidade de registrar as histórias dos griôs, por terem idade já avançada. De lá pra cá perdemos muitos e, quando um griô morre, leva parte da história dos quilombos com ele. Com a chegada da pandemia, o perigo ficou ainda maior, mas não tínhamos recursos, até a oportunidade do edital”, conta.

Ela falou ainda da estratégia para lidar com a distância de alguns quilombos e o tempo. “Os quilombos de Campos, com exceção de Conceição do Imbé e ABC, ficam muito distantes um do outro e isso demandou estratégia nas gravações. Além disso, com material, tecnologia e tempo escassos, não havia espaço para falhas. Tivemos problemas com as chuvas que impossibilitaram nossa ida ao Imbé no tempo que esperávamos, depois tivemos que remanejar agenda para fazer os registros que ainda não tinham sido feitos, um dos griôs, o mais velho, pegou covid. Foram muitos entraves, mas não tínhamos opção de retroceder ou não fazer. No final das contas esse trabalho não é sobre Daniela, Lucimara, ou Luciana, que foi a pessoa que cuidou de toda burocracia e também do roteiro. Esse filme é sobre a verdadeira história do que ocorreu com os descendentes de escravizados e cativos na nossa região e município. A história contada pela boca dos próprios protagonistas que viveram esse tempo sombrio que até hoje nos rodeia”, finaliza.

Quem viveu os tempos contam suas lembranças Para o filme, as associações de cada quilombo indicaram dois griôs. Participam os mais velhos dos quilombos de Custodópolis, Lagoa Feia, Sossego, Conceição do Imbé e Aleluia, Batatal e Cambucá, conhecidos como ABC do Imbé.

Griôs como Sr. Carlito Nolasco, 90 anos, primo do ator Hélio de La Peña, que recentemente visitou o Quilombo de Lagoa Feia, trouxeram memórias da relação com o Quilombo de Machadinha, em Quissamã. Dona Mariazinha, sobrinha de Carlito e também griô, falou sobre a balsa e o expresso que saia de Dores de Macabu para Campos, meios de transporte disponíveis à época. (Leia mais abaixo)

Na região do Imbé, as memórias relataram a vida na Ilha de Laranjeiras, reduto dos quatro quilombos da região e da tristeza e a fome, na relação de trabalho e durante a falência da usina de Rio Preto, quando a banana e o Cantão de banana salvaram vidas.

De Custodópolis, vieram as memórias da religiosidade, festividades e da Cidade de Palha.

Essas memórias, muitas vezes trouxeram contrastes e semelhanças no espaço tempo desses grupos, nas mesmas dificuldades vividas por ancestrais e comunidades atuais.



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