Postado por Fabiano Venancio - A população de rua cresce no Brasil. Já são 345 mil pessoas nesta situação no País, segundo estudos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e Campos não é diferente, mas com agravantes nas áreas de segurança e social: o registro de muitos episódios de violência nos últimos anos e um aumento visível dessas pessoas nos logradouros públicos. Elas parecem estar em toda parte, em especial nas regiões mais centrais. A reportagem do Campos 24 Horas levantou as principais causas do aumento no município e constatou que a multiplicidade de causas torna complexo o trabalho da Prefeitura de Campos, que humanizou o sistema de acolhimento dessas pessoas. Ouvida pela reportagem do site, a subsecretária municipal de Desenvolvimento Humano e Social, Graziele Gonçalves, revela o que poucos perceberam: o perfil dessa população se transformou com o tempo. Ela afirma também o porquê do problema ter se agravado nos últimos anos e as diferentes causas das pessoas que foram parar nas ruas.
Graziele Gonçalves explica que, além da questão social, a política antimanicomial do governo federal, que levou ao fechamento dos hospitais Henrique Roxo e João Viana na cidade, foi um dos motivos do agravamento do problema. (Leia mais abaixo)
A subsecretária afirma que o perfil dos moradores em situação de rua mudou muito nos últimos anos, tornando-se multifacetado. "De uns anos pra cá mudou muito. Existem casos de dependentes químicos, saúde mental pessoas em conflito com a lei ou que estão nas ruas porque são expulsas de casa em razão de sua opção sexual ou outras desavenças familiares", conta Graziele.
Os problemas se agravaram depois de 2022, com a política antimanicomial do governo federal, que levou ao fechamento dos hospitais Henrique Roxo e João Viana, que atendiam pessoas com problemas psiquiátricos. Com a mudança, houve um aumento da população com problemas mentais. "Com o desmonte dessa política, muitas pessoas com problemas mentais que viviam nessas unidades foram atiradas nas ruas porque a família não assumiu a obrigação de cuidar".
Grazi registra que outra característica da população é sua condição flutuante. "Não é como uma tribo indígena. Você vai num ponto onde eles ficam, volta alguns dias ou horas depois, alguns já não estão mais ali, mas também chegam outros que passam a frequentar o local. E os problemas se acumulam, sendo necessário atendimento multidisciplinar e pessoas capacitadas e com sensibilidade para lidar com os problemas".
DEPENDENTES QUÍMICOS SÃO MAIORIA- Em Campos há hoje estimativas de cerca de 200 pessoas em situação de rua. "A situação preocupa, mas há outras cidades em condições piores. Nós recebemos um grupo de vereadores de Cachoeiro de Itapemirim, que tem menos da metade da população de Campos, mas regista quase o dobro da nossa população de rua", frisou.
Em Campos, pelo menos 49% das pessoas nesta situação são de fora do município, 50% são nativos, enquanto 1% são imigrantes ou refugiados. Do total, quase 70% são dependentes químicos. (Leia mais abaixo)
"São pessoas que precisam de ajuda como seres humanos porque cada uma delas tem uma história de vida e um sonho, o de ser novamente inserido na sociedade. E que precisam de oportunidades".
COMEÇAR DE NOVO - Graziele já manteve contato com o secretário de Emprego e Qualificação, Vinícius Madureira, a fim de abrir possibilidades de requalificação da clientela que deseja desenvolver sua vocação, se capacitar e voltar a ter uma vida normal.
"Mas também também é preciso ouvir, conversar com a pessoa para saber o que ela realmente quer ser. De nada adianta se qualificar numa profissão que não lhe fará feliz", disse ainda Graziele.
"Eu vou sair daqui, buscar uma vaga no abrigo, um espaço para me reerguer porque viver na rua tá muito perigoso", admite um morador que não quis se identificar.
O problema social dessas pessoas está longe de ser solucionado, em se tratando de um país de terceiro mundo e uma sociedade extremamente desigual. Mas que pode ser, sim, atenuado com novos ajustes em políticas públicas. (Leia mais abaixo)
HUMAZINAÇÃO EM CAMPOS - A Secretaria de Desenvolvimento Humano e Social já tem traçado um novo organograma para humanizar ainda mais o sistema de acolhimento.
"Já transferimos o Centro Pop, que é a porta de entrada do atendimento às pessoas que nos procuram, agora num espaço bem mais amplo e em melhores condições, na Rua Ipiranga", informa Graziele.
Além do Centro Pop há ainda outros espaços de atendimento como a Casa de Passagem, na Pecuária.
Os casos de violência em Campos - Num dos últimos homicídios registrados na área central de Campos, a vítima havia sido obrigado a deixar sua casa numa comunidade, em razão de problemas com tráfico, e passou a morar na rua, sendo assassinado.. Em 2023, um morador de rua foi assassinado por outro na mesma situação, na Avenida José Alves Azevedo (Beira Valão), nas imediações da Rodoviária Roberto Silveira.
Em 2024, um rapaz que trabalhava numa igreja, na Praça Batalhão Tiradentes, foi esfaqueado no mesmo local, por um outro morador de rua após uma discussão. (Leia mais abaixo)
Em julho deste ano, um outro foi esfaqueado enquanto dormia, na Praça São Salvador. Segundo a Polícia, o homem agredido possui anotações criminais por homicídios, tráfico de drogas, associação com o tráfico, roubo e furto.
No último dia 14/08, outro morador em situação de rua foi cruelmente torturado, com lesões no crânio, pernas e braços, na Estrada do Carvão, no Parque Aurora.
Segundo a Polícia, ele teria sido confundido com outra pessoa na mesma situação e que havia dado "um tombo" numa boca de fumo.