Ex-comandante do 8º BPM considera obrigação moral ter aceitado ser vice de Tadeu

Em entrevista ao Campos 24 Horas, Coronel Ramiro diz que não adere integralmente à linha bolsonarista e também fala sobre a Guarda Municipal


  • 19/10/2020, 14h02, Foto: reprodução-Campos 24 Horas.

Quando foi anunciada a transferência do coronel Ramiro Oliveira Campos do comando do 8º Batalhão da Polícia Militar (8º BPM/Campos) para outra cidade, em 2014, importantes segmentos da sociedade civil de Campos resolveram organizar um movimento para que o então governador Luiz Fernando Pezão revogasse a decisão e o comandante aqui permanecesse para dar continuidade ao seu trabalho de combate à criminalidade. Hoje, candidato a vice-prefeito na chapa de Alexandre Tadeu (Republicanos), Ramiro considera uma obrigação moral ter aceitado o convite. E afirma que, entre outras propostas, tem uma especial para a  Guarda Municipal. Ele diz também que não adere integralmente à linha bolsonarista e do governador afastado Wilson Witzel, que ordenou a política “atirar na cabecinha”. Com 33 anos de Polícia Militar, Ramiro é o segundo coronel da PM a participar da eleição deste ano em Campos (o coronel Almir Porto é também candidato a vice de Cláudio Boa Viagem).  E nesta segunda-feira (19), o coronel Ramiro é o entrevistado na rodada de entrevistas do Campos 24 Horas com os candidatos a vice-prefeito. (leia a entrevista completa abaixo)

— A minha identidade com Campos me fez aceitar este desafio. Foi um movimento que uniu a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), os bispos, a Associação Comercial e Industrial de Campos (Acic) e outras entidades, que criaram a hashtag  Volta Ramiro, e tomou conta de todo município. Infelizmente, por questões políticas, o governador Pezão não autorizou que eu continuasse no comando aqui. Passados estes anos nenhum partido me deu esta oportunidade, como fez o Republicanos, de voltar para Campos. Então, eu me senti na obrigação moral de retribuir esta acolhida e este carinho que a cidade me proporcionou — afirmou. (Leia mais abaixo)

Na avaliação do coronel Ramiro Campos, o sucesso do seu trabalho em Campos e o grande legado deixado no município foi trabalhar com uma política de segurança solidária em conjunto com a comunidade, em consonância com a Carta Magna. “Está lá no artigo 144 da Constituição Federal: a segurança pública é uma responsabilidade solidária. À época, quando enviava os policiais para uma operação numa área de risco, além da imprensa, solicitava a presença de representantes da Comissão de Direitos Humanos da OAB, representantes do Ministério Público e do Poder Judiciário. A comunidade se sentia mais protegida”.  

Seu papel de vice não deverá ser decorativo, caso a chapa seja eleita. “Eu e o Alexandre Tadeu somos amigos há um bom tempo, há um elo de amizade entre nós e nossas famílias. Somos muito alinhados, independentemente da política. Eles às vezes até brinca comigo, de que eu não serei um vice, mas um co-prefeito. Vou participar ativamente do governo no que ele precisar. E esta ideia de estarmos juntos hoje neste projeto não vem de hoje, já havíamos conversado sobre isso em 2019”, lembra.

Ramiro Campos estabelece um diferencial que considera importante na comparação entre outras chapas que concorrem a eleição. “Estamos unidos ideologicamente desde então. Ao contrário de outros partidos que trocaram de prefeitos e vices por causa de tempo na televisão ou por coligação com outros partidos devido a verbas do fundo eleitoral. Isso é fisiologismo, o que não houve conosco”.    

Caso a chapa que integra venha vencer a disputa na sucessão municipal, o coronel Ramiro tem algumas ideias que deverão ser colocadas em prática na área da segurança em Campos. “A Guarda Municipal, por exemplo, pode trabalhar em cooperação com a Polícia Militar, mas também com a segurança privada. Os vigilantes, os seguranças que trabalham nos supermercados, lojas e shoppings podem apoiar a Guarda com um diálogo permanente sobre a movimentação de cada área com troca de informações. Eles poderão ser potenciais colaboradores. Assim como uma cidade mais bem iluminada e monitorada com mais câmeras de segurança será outro grande fator de contribuição”.

O candidato analisou o que considerou o “ciclo de militares” na política após a eleição do presidente Jair Bolsonaro. “A vida, assim como a política, é feita de ciclos. Hoje é o ciclo dos militares na política. O militar não é melhor nem pior que ninguém, mas você pode observar que uma de nossas peculiaridades é o respeito à hierarquia e a disciplina, que são valores importantes numa sociedade”.  (Leia mais abaixo)

O coronel Ramiro, porém, reconhece desvios de conduta na corporação, mas ressalva. “Estou há 33 anos na Polícia Militar e durante todos estes anos vejo a polícia cortar na própria carne quando alguém erra, punindo exemplarmente os maus policiais. No TCE (Tribunal de Contas do Estado do RJ) há conselheiros presos que até hoje recebem seus salários que vão de R$ 80 mil a R$ 100 mil mensais. Na Polícia, ele é excluído da corporação, através de decisão administrativa, mas há casos em que o policial punido entra na esfera judicial com um bom advogado, e a corporação não tem outra alternativa que não seja a de reintegrá-lo”.

Ramiro, no entanto, não adere integralmente à linha bolsonarista e do governador afastado Wilson Witzel, que ordenou a política “atirar na cabecinha” quem fosse flagrado com arma, além da lógica do “bandido bom é bandido morto”, frase que tornou mais famoso o ex-policial Sivuca, que se elegeu deputado estadual com o discurso beligerante do enfrentamento.      

— O trabalho da Polícia não é apenas de confronto, embora às vezes seja inevitável. Mas é também é de uso da tecnologia e inteligência para evitar a criminalidade. Trabalho preventivo. E com apoio da sociedade, que deve participar e ajudar (e muito) nesta tarefa. E mais: policial não é super-herói, não vai resolver tudo sozinho. Se o Estado não oferecer condições, não levar políticas publicas à periferia, com educação, saúde, moradia e oportunidades, de nada adianta combater violência só com operações policiais. Quando um jovem é seduzido pelo tráfico ou outra atividade criminosa, ele não é o único culpado: falhou o Estado, a família e a sociedade. O policial é a ponta da linha — comentou.

“Eu não comemoro quando uma operação resulta na morte de três traficantes e duas outras pessoas mortas ou baleadas. O ideal é que houvesse maior eficiência nas ações preventivas de maneira que armas e drogas não entrassem nas comunidades”. 

Em Macaé, Ramiro também deixou sua marca no comando do 32º Batalhão da Polícia Militar, em 2012 . “Fui o primeiro comandante a implantar a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) em áreas dominadas pelo tráfico e conseguimos reduzir significativamente as atividades criminosas nestas áreas”.   (Leia mais abaixo)

 Natural de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, 53 anos, Ramiro Campos é de origem humildade. “Minha família era muito pobre, paupérrima. Para pagar meus estudos na academia da polícia e na faculdade, utilizava o que dinheirinho do salário que ganhava como cadete porque minha família não tinha condições de financiar meus estudos. A partir de então pude deslanchar na minha vida profissional. Cresci, me casei e rodei quase todo Estado do Rio de Janeiro como policial ou no comando de unidades policiais”, finalizou. 



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