Média do nível dos reservatórios de água do rio Paraíba do Sul, que abastece o Sudeste, cai pela metade

Segundo a última medição da Agência Nacional de Águas (ANA), as represas do sistema estão operando com 33,32% do volume útil; poucas chuvas são a causa


  • 22/01/2026, 08h29, Foto: Divulgação.

Os baixos níveis dos reservatórios de água do Paraíba do Sul — que abastece a Região Metropolitana do Rio de Janeiro, além de parte de São Paulo e Minas Gerais — acenderam um alerta. Na última medição da Agência Nacional de Águas (ANA), em 19 de janeiro, a chamada média equivalente do Paraíba, composta pelos números de Paraibuna, Santa Branca, Jaguari e Funil, operava com apenas 33,32% do volume útil, quase a metade do registrado no mesmo dia de 2025, quando atingiu 65,51%. Esse é um dos menores índices da série histórica iniciada em 1998.

— Está acesa uma luz amarela. Corre o risco de haver uma redução de vazão para o Rio de Janeiro, mas não necessariamente de desabastecimento, pelo menos neste momento. Tudo vai depender da chuva. Para garantir que não vai faltar água no período de seca, é preciso chover o suficiente até abril, quando o nível precisa estar em 56%. Mas, por enquanto, ainda não há um alerta vermelho — afirma João Gomes, diretor do Comitê do Baixo Paraíba do Sul e ex-presidente do Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (Ceivap). (Leia mais abaixo)

Contudo, o especialista se mostra preocupado diante de dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemadem), órgão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, que já informou que este verão será de chuvas abaixo da média, especialmente no eixo Rio-São Paulo.

— O Ceivap está se reunindo semanalmente, desde dezembro, para discutir as medidas de contenção, a fim de evitar um desabastecimento. Entre elas, a manutenção dos níveis mínimos de retirada dos reservatórios — explica.

Na Região Metropolitana do Rio, 11 municípios são abastecidos com água do Paraíba do Sul. São cerca de nove milhões de pessoas atendidas pelo sistema Guandu e mais 1,8 milhão pelo sistema Ribeirão das Lajes, através do Paraíba do Sul e outros mananciais.

Cemaden: menos chuvas - A pedido do GLOBO, o Cemaden analisou as chuvas em cada bacia que alimenta os quatro reservatórios do Paraíba, de novembro de 2025 a 15 de janeiro de 2026, comparando-as com igual período um ano antes. Os dados das últimas chuvas ainda não foram contabilizados.

Na bacia do Funil, no Rio, por exemplo, os índices caíram de 100% para 63%, em relação à média. Na de Paraibuna, localizada no município de mesmo nome, em São Paulo, foram de 102% para 65%. Na de Jaguari, entre Jacareí e São José dos Campos, também em São Paulo, de acordo com o estudo, a queda foi de 98% para 66%. E em Santa Branca, no interior paulista, desceu de 102% para 64%. (Leia mais abaixo)

— Sabemos que choveu bastante nestes dias, podem ter sido uns 40, 50 milímetros em média na bacia do Paraíba do Sul, mas, ainda assim, as chuvas continuam no mínimo 25% abaixo do que se espera para o período — explica a pesquisadora Adriana Cuartas, hidróloga do Cemaden.

Redução do volume útil - Por e-mail, o Ceivap informa que, diante do atual cenário, a ANA, com a anuência dos órgãos gestores de Rio, São Paulo e Minas, propôs medidas preventivas para ampliar a flexibilidade do sistema. A principal delas é rever temporariamente, até 31 de março, o limite mínimo do reservatório do Funil, em Itatiaia, no Sul Fluminense, de 30% para 20% do volume útil, a fim de “preservar os estoques e garantir a segurança hídrica para o período de estiagem”.

Segundo a nota do Ceivap, a ANA solicitou ainda ao Operador Nacional do Sistema (ONS) a atualização das curvas de segurança dos reservatórios do Sistema Paraíba do Sul, “como subsídio técnico adicional à avaliação das condições operativas e à tomada de decisão no âmbito da gestão compartilhada dos recursos hídricos da bacia”.

Procurada, a ANA afirma que tem acompanhado permanentemente a operação do sistema do Paraíba do Sul. Ressalta que medidas temporárias e preventivas podem ser adotadas “com base em monitoramento hidrológico, projeções e avaliação de risco”, com o objetivo de reduzir impactos.

Em reportagem publicada na última segunda-feira pelo GLOBO, o coordenador de operações do Cemaden, o meteorologista Marcelo Seluchi, frisava que a chuva prevista para os próximos dias não seria suficiente para alterar a situação crítica de escassez em que se encontram o Cantareira (SP) e o Paraíba do Sul (SP/RJ), sistemas dos quais depende o abastecimento de São Paulo e Rio de Janeiro. Também não mudaria o cenário na Bacia do Paraná. Seluchi observou ainda que a estação chuvosa, que termina em março, deve seguir marcada pela escassez hídrica. (Leia mais abaixo)

No início do ano, o Cantareira, principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo, estava com volume 30 pontos percentuais menor do que o do mesmo dia de 2025. O conjunto de reservatórios se encontrava no patamar de 20,2% do volume útil, de acordo com o painel de monitoramento da Sabesp. No dia 3 de janeiro de 2025, o patamar era de 50,7%. O volume total do Sistema Integrado que abastece a região passou de 49,4% para 26,5% no período.

No mês passado, a seca do Cantareira produziu imagens impressionantes. Um pasto vasto, descampado e poeirento ocupou o espaço onde antes havia extensa ocupação hídrica na represa Jaguari-Jacareí. Em dezembro, o volume chegou a cair abaixo da barreira técnica de 20%.

Cedae: capacidade máxima - A Cedae, por sua vez, garante que os seus principais sistemas produtores de água operam com capacidade máxima. Ressalta que a companhia capta água de forma contínua no leito dos rios, e não em reservatórios, como acontece em São Paulo, por exemplo. “Embora não seja o órgão responsável pelo monitoramento dos rios e reservatórios, a Cedae acompanha todos os dados sobre a variação dos níveis dos rios onde capta água e mantém contato com os atores envolvidos na gestão dos recursos hídricos, como o Inea (Instituto Estadual do Ambiente) e a Agência Nacional de Águas”, diz a empresa, em nota.

— Em nenhum momento, mesmo na crise hídrica de 2015 houve falta d’água no Rio — lembrou um funcionário de alto escalão da Cedae, pedindo para não ser identificado.

Em 2015, o chamado reservatório equivalente, de acordo com números da ANA, atingiu 1,42% em 19 de janeiro. No ano seguinte, estava em 26,49%. (Leia mais abaixo)

Também por nota, a Light diz que monitora constantemente seus reservatórios, e “ressalta que a geração e a distribuição de energia para a sua área de concessão estão, atualmente, em níveis normais de operação”.

Fonte: Extra



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